Há uma episódio de Seinfeld em que se discute rapidamente qual seria a proporção de pessoas bonitas no mundo. Elaine, mais otimista, chutava um valor que equiparava a beleza à feiura. Já Jerry, com todo seu sarcasmo, defendia que os belos eram uma parcela ínfima da população. Obviamente precisamos ponderar de qual grupo estamos retirando esta amostra. Se realmente estivermos falando de todo o planeta Terra, estou com o comediante gringo. Mas se capturarmos algumas cobaias, por exemplo, de uma cerimônia de entrega do Oscar, provavelmente o nível subiria e muito.
Alguém poderia reclamar que se trata de uma questão muito ligada ao gosto pessoal e, portanto, impossível de se mensurar. Mas, dizer que Ana Paula Arósio é linda e Russo, o assistente de palco de vários programas globais, é feio, é apenas uma questão de gosto ou há uma lógica minimamente matemática agindo neste cálculo?
Nos últimos dias, mediante tantos imprevistos enfrentados diariamente com o correr dos trabalhos, tenho me flagrado filosofando acerca de tema parecido. E me perguntando: qual seria a porcentagem de incompetentes no mundo? Sim: incompetentes. Aqueles que não possuem a competência de exercer a função que se ocuparam perante à sociedade. Representariam eles dez, vinte, trinta porcento da população?
Puxo pela memória meus companheiros de estudo em tempos de colégio. O que seria um estudante competente? Aquele que consegue passar por média? Se assim for, chutaria que os competentes representariam algo em torno de 20% da população, por ser mais ou menos essa a porcentagem de alunos que entravam de férias mais cedo. Ou seriam estudantes incompetentes apenas aqueles que ficavam retidos ao final da recuperação? Neste caso, vinte porcento seria a porcentagem de tais indivíduos.
Mas o capitalismo é exigente. E se você não faz essa questão de ser um dos vinte que viverão um verão mais longo, você já está para trás. E eu acho isso muito bom. Acho justo. Se tais indivíduos se esforçaram mais, o sistema deve prover mecanismos que os distinguam dos demais. Para não vivermos como Cubanos numa nação de funcionários públicos onde, segundo relatos de um conhecido que passou alguns dias estudando de corpo presente seu modelo econômico, poucos buscam ir além do rendimento médio já que mérito algum receberão se por acaso se entregarem um pouco a mais à labuta.
Logicamente estou chutando números e usando-os como base para meu raciocínio. Mas só os faço assim porque as pesquisas não buscam essas nuances mais humanas, limitado-se a transformar qualquer ser em mero número estatístico. Mas raciocinemos: e se os 20% de nossa população que controlam 80% de nossa riqueza tiverem alguma ligação com justamente aqueles 20% que passavam por média? Seria a nossa desigualdade assim tão injusta? Ou não estaríamos dia pós dia fazendo por merecer quadro tão lamentável? Como querer um Brasil mais igual se os brasileiros são tão diferentes? E mais: devemos excluir desta lógica aqueles casos em que o sucesso parece ter origem unicamente no ventre materno? Creio que não.
Por um bom tempo, e há até bem pouco, costumava eu ter asco para com aqueles que nutriam prestígios herdados no nascimento. Usando menos eufemismo: sentia nojo do filhinho e da filhinha que conseguiam tudo o que queriam por conta da situação financeiramente feliz de seus pais. Hoje em dia continuo achando injusto que um playboy incompetente herde um império empresarial de sua família. Mas tal sentimento se anula quando penso que é extremamente justo que um pai consiga batalhar ao ponto de conseguir uma vida boa para seus filhos e demais decendentes sem que os mesmos sequer precisem, quando adultos, fazer por onde merecê-la. Quando olho por este ângulo situações do tipo, busco a raíz da árvore genealógica e, salvo algumas exceções, logo encontro alguém que deu seu sangue justificando o absurdo da existência de acéfalos dententores de poder.
Diminuir a desigualdade neste país não deveria então ser um objetivo a se seguir? Lógico que deveria. Contudo há que se pensar na causa, e não no efeito. Em outras palavras: antes de dar o poder, precisamos fazer deste povo um povo merecedor de tal.
Por isso sou contra o assistencialismo. Porque creio que, antes da bolsa, você tem que de alguma forma justificar a ajuda. Para que aprendam a fórmula mágica. Para que o “faça você mesmo” derrote o “façam por mim”. Se assim não for, a desigualdade até pode diminuir. Mas logo a justiça, não a divina, não a dos homens, mas aquela justiça do um-dia-após-o-outro, fará por onde os merecedores subam, os incompetentes se afundem, e com que a maldita volte a ser tema de dissertações como esta.
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Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 14/01/08 às 20h20 nas seções Atitude & Comportamento, Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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