Às vezes não entendo por que este tal de ser humano estuda tanto. Se era para complicar algo que aos olhos de qualquer criança soaria de fácil resolução, para que diabos tanta ciência? Tenho sentido falta da justiça infantil, aquela da hora do recreio, o tribunal do intervalo. Olha-se, pergunta-se, responde-se, condena-se. Sem dó, nem piedade. Refiro-me a duas máximas simples:
- Quem não deve não teme.
- Quem cala consente.
Pensemos na primeira.
A polícia federal grampeia o telefone da minha casa. Eu descubro. O que faço? Caio na risada. Porque só vão ouvir Dona Edna perguntando se minha mãe vai caminhar com ela no Parque das Mangueiras, Sandro perguntando se Katilene já chegou do trabalho, Cybele perguntando se pode vir almoçar aqui em casa.
Mas eu uso o telefone para coisa séria também. Marco reuniões com clientes, entro em contato com meu cartão de crédito para reclamar que até hoje não me mandaram o brinde que me prometeram e xingo até umas horas o SAC da Claro. Chamar a atitude da polícia de um ato de gângster? Só se eu tivesse usado o telefone para desviar verba, plantar notícias falsas na mídia ou subornar algum delegado. Qualquer criança sabe disso: “quem não deve não teme”.
Agora, a segunda: Felipe quebrou o vaso.
Felipe, você quebrou o vaso?
Se Felipe responde SIM, ele se dá mal. Se Felipe responde NÃO, ele se dá bem. O que Felipe faz? Felipe fica calado. Ele fica calado porque não quer responder que NÃO e se dar bem? Ou fica calado porque não quer responder que SIM e se dar mal? O que qualquer criança de maternal diz nessa hora? “Quem cala consente”. Assim, simples. Quantas faculdades de direito preciso fazer para aprender isso? Quantas concursos para juíz preciso passar para colocar isso em prática?
Daí se pergunta: Daniel Dantas, você roubou? E ele se cala.
Por que será que ele se calou, puxa vida? Será que ele se calou porque está com medo de responder que NÃO, que ele NÃO roubou? “Caramba! Isso é um horror! Que sujeito horrível é esse que não rouba?!”
Ou não… Será que ele se calou porque está com medo de responder que SIM, que ele roubou e muito? E agora?! Ele se calou porque roubou ou porque não roubou? Ó dúvida cruel! É essa incerteza que me mata!!!
Ainda escreverei mais sobre isso: justiça é a única coisa no universo que mesmo em exagero é saudável. E é o que menos temos neste país. Esses tais juízes de salários tão grandes quanto seus egos passaram 4 meses citando Platão e Aristóteles para contabilizar apenas 11 votos sobre a aprovação ou não das pesquisas com células-tronco. Eles poderiam ter resolvido a questão em poucos minutos. Mas em poucos minutos não poderiam mostrar o quanto são lidos, o quanto são cultos, o quanto conseguem cuspir citações filosóficas. E tanta sabedoria serve para quê? Para tomarem como inocentes pessoas que se recusam a responder questões simples como: “você roubou?”
Fosse no meu recreio, esse Daniel Dantas já tinha levado um salga.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 17/07/08 às 23h07 nas seções Capas, Política & Economia. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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Críticas construtivas são mais que bem vindas. Mas, por favor, evitem o anonimato. Contudo, cada caso será estudado em separado.







marlos, voce nao tem ideia do que o que você diz, nessas conversas sérias com os seus clientes e reclamando do cartão de crédito, pode ser usado de forma muito, muito criminosa, caso seja grampeado por acaso numa dessas operações, por ter falado, vá lá, com um corrupto que está desviando verbas. basta ver o exemplo de um dos e-mails dessa operação contra daniel dantas onde uma secretária enviou arquivos em anexo num e-mail perguntando quando custaria o serviço de tradução. interpretaram como uma jornalista mandando email pra daniel dantas oferecendo matérias a favor dele e perguntando quanto ele pagaria. há uma cultura de grampo no brasil inteiro, inclusive aqui no estado e isso é criminoso sim, é estado policialesco sim. era assim que a Stasi fazia, era assim que a KGB fazia, era assim que o DOPS fazia. estamos numa democracia. é bem diferente. ou deveria ser. se você não deve, não teme e é justamente por não ter o que esconder que tem o dever de pedir que seja respeitado na sua privacidade. o que acontece é que a tese que vence é a de “por uma laranja podre o cesto todo paga”.
não é um preço barato os inocentes serem grampeados para se pegar os culpados? ou pelo menos um bom custo-benefício… eu não me importaria se ouvissem minha banalidades, hehe.
o problema é quando as nossas banalidades correm o risco de serem tomadas como linguagem cifrada, códigos, na cabecinha de quem se vicia em grampear.
Vou ter que discordar…
Deixei este comentário no Imprensa Marrom ainda esta semana:
“Há uns 10 anos conheci um policial que por um tempo fez um curso intensivo com a polícia norte-americana. E ele comentava o quanto brasileiro tinha “frescura” com prisão. Lá, segundo ele, o movimento padrão é: há uma mínima suspeita de que a pessoa esteja envolvida em algo sujo? Começa então uma revista que, independente de se se trata de um zé-ninguém, dona de casa ou mulher de advogado, deita-se no chão com as mãos na cabeça, esteja o piso limpo ou não. Toda prisão é feita com algemas, é lido os direitos da pessoa, e seguem para a cadeia no mesmo espaço reservado a qualquer bandido no veículo. Tudo educadamente, lógico, mas ninguém é livre do ritual. Aliás, a falta dele pode livrar bandidos da cadeia pela ausência da leitura dos direitos, por exemplo. Também disse que lá, acima de tudo, o cidadão sabe que o policial, ao agir assim, está buscando o bem da sociedade. E o cidadão norte-americano, diferente do brasileiro, coloca o bem da sociedade acima de seu próprio.”
Eu também li este história da tradução lá no blog do Reinaldo Azevedo. Ele, inclusive, escreveu tal passagem em tom quase humorístico. E ela apenas reforça o que eu disse. Se eu de fato vendi matérias, ao saber que fui desmascarado, chamo a PF de DOPS, de KGB, do que for. Mas como eu estava apenas vendendo a tradução do texto, dou risada, assim como Reinaldo deu. Podem até me prender, podem até me colocar algemas. Estão agindo pensando no bem maior que é o bem da sociedade. Vou à delegacia e lá provo que sou tradutor, e que tudo não passou de um mal entendido. Só não vale fazer como Lula e dizer que “não sabia”.
Julgar e investigar é bem diferente de condenar. E, principalmente em órgãos públicos, quanto mais transparência, melhor.
quando prendem, há, pela própria cultura do brasileiro, condenação prévia. inclusive de inocentes. inclusive, se fosse o caso, condenação a você. que, provavelmente teria, como consequência imediata (já que se explicar ou corrigir um erro da justiça não é um estalo de dedos) é perder todos os clientes, que afinal, não vão querer trabalhar com alguem que foi preso. ah, e cuidado com reinaldo azevedo. é um péssimo exemplo, inclusive de jornalismo. melhor ler pedro doria e bob fernandes, rs. pelo menos pra mim. mas cada qual, cada qual.
Agora concordo mais contigo. De fato a população faz esta condenação prévia (que é bem diferente de julgamento prévio). Mas assim como já argumentei em situações anteriores, penso que neste caso o erro não está no comportamento da polícia, mas sim no da população e, independente de quão mais difícil seja, havemos de combater este. Acho que vou abrir um novo post só para responder melhor o que tu falou.
Sobre o Reinaldo, estou ligado nas viagens dele. Mas gosto de ler todos os lados, inclusive o Doria e o Bob (aliás, o que, na minha opinião, mais instiga pela novelização que faz dos fatos) e tentar aproveitar o que for possível de todos, alguns mais (como Lúcia Hippólito), outros menos (como o próprio Reinaldo). Acho que destes nomes mais famosos, só tenho me recusado a ler o PHA porque me parece totalmente insano. E olhe que eu leio Ailton Medeiros (espero que ele não leia isso, he he he he). Mas valeu o toque.
Vim de blog em blog, e acabei parando aqui, mais uma vez.
Engraçado, eu já li, no jornal de hoje, esse moço aí, o Rodrigo levino, parafraseando o RA…
Li algumas coisas suas, Marlos, que, de imediato, me dão urticária, porque parece que você avalia tudo por uma lógica de custo-benefício.
Mas, neste caso específico, vc tem razão. Palavras-chaves permitem a validação da defesa da PF: democracia e república. Essas são funções do instituições públicas.
Algumas pessoas tentam desvirtuar esses conceitos e, absurdamente, usá-los para censurar órgãos promotores destes.
Acho intrigante que aja uma intensa mobilização da mídia em condenar o uso de grampos, algemas, etc. Mas, essa mesma mídia se presta a publicação de dossiês e tantas outras peças incriminatórias de pessoas públicas (e pela lógica aqui apresentada das consequência do acompanhamento e publicidade de suspeitos, peças tb condenatórias).
Desse história toda, digo que a mídia, até agora, foi a única a sair queimada. Ela expôs suas peças e estratégias, por acreditar na estupidez da população. A população, por sua vez, tem mostrado não ser idiota, no sentido etimológico da palavra.
Olá “Anônimo”,
Obrigado por sua sinceridade, e concordo quando você diz que a população neste caso não se deixa passar por idiota. Até agora não vi uma “baixa autoridade” sequer concordar que foi um abuso o uso de algemas nestas últimas semanas.
Só pediria para que evitasse o anonimato (ou semi, já que, como frisou, possuo teu e-mail). Adote ao menos um pseudônimo para que saibamos quando é você que está opinando. No mais, sinta-se livre para comentar aqui, principalmente quando minhas palavras te darem “urticárias”. Sem bem vinda.
opa! apresente as provas, haha!
ah, e saia do anonimato. o ambiente é higiênico e próprio para debates limpos.
As provas são solicitadas a mim? Vc deve conhecer o ditado que diz que, na imprensa escrita, a nóticia de hoje embrulha o peixe de amanhã… Mesmo nesses tempos de internet.
Mas, dei-me o trabalho de digitar no google “rodrigo levino”, “mafaldinhas” e “remelentos” (estas últimas, expressões célebres utilizadas pelo RA para qualificar (?) os estudantes da USP na ocupação do prédio da universidade no ano passado e, de primeira, veio-me a memória como uma de suas citações do RA). Apareceu um artigo seu, parafraseando-o. Despretensioso, nada político, sobre música. Mas, apareceu.
Meu debate, aqui, não é vc, mas o texto em comento. Rebati suas colocações, não vc. O blogueiro tem meu e-mail, se quiser, ele pode solicitar a minha identificação, para conhecimento exclusivo dele.
“Anônimo”, aqui, é só uma expressão da minha localização nessa estrutura midiática. Mudo para “leitor comentador”, se assim se sente mais confortável. Se o blogueiro discordar (o que não me pareceu, pela publicação do cometário) de ambas as designações, que exclua meus comentários.
na mosca! usei os termos. mafaldinhas e remelentos. penitência em público =)
usei num comentário sobre um grupo musical de brasília. confesso. nem lembro o nome. aliás, por causa dele recebi e-mails tão aborrecidos e mal educados quanto os textos de reinaldo. mas gosto desses termos que ele criou. dos termos. do ideário em geral, não.
Vê o que o elio Gaspari escreve hoje na Folha e o caminho que uma conversa pode tomar num grampo:
“A Polícia Federal localizou uma conversa telefônica de Gilberto Carvalho com Lula. Deu-se o seguinte diálogo:
- Chefe, entre janeiro e junho conseguimos 1,4 milhão, 24,27% acima do mesmo período do ano passado.
- Você acha que podemos chegar a 2 milhões até o fim do ano?
- Barbada.
- Eu achava que não conseguiríamos.
Essa conversa é falsa, inventada pelo signatário, diante de um teatro no qual os grampos tornaram-se uma modalidade preferencial de expressão. Mesmo assim, os números são verdadeiros. No primeiro semestre, a economia brasileira produziu 1,4 milhão de novos empregos com carteira assinada. Tudo indica que o ano terminará batendo a marca dos 2 milhões.”
Achei muito boa essa reflexão.
Na verdade, o ato de ficar calado não necessariamente deve ser interpretado pelo juiz como benéfico a quem assim se mostra, o réu não é obrigado a produzir prova em seu desfavor, por isso o direito de ficar calado.
Mas o juiz também não pode condenar somente se baseando nesse ato de ficar calado, tem que ter outras provas.
Quanto as escutas telefônicas… em nosso país, a constituição protege o direito à intimidade, a vida privada. São direitos relativos e não absolutos, mas para poder passar por cima deles é exigido uma autorização da justiça, que, pelo que eu sei precisa ser fundamentada com algum indício de suspeita.
Também não se dá carta branca para a Polícia invadir a intimidade de quem quer que queira ao seu bel prazer. Isso poderia ser bom por um lado e mau por outro. Porque sob o pretexto de investigar poderia se ter outros interesses por detrás disso e porque simplesmente seria violado o bem jurídico da intimidade e vida privada…
Mas, o que seria o ideal?
Seu inconformisco com a justiça é explicável.
Farei simples questionamentos, só para vc repensar em algumas questões.
Sobre a questão de células tronco:
Após décadas de pesquisas, cientistas discutem sobre a aplicabilidade de células tronco.
Há os que defendem, e os que contestam.
Se a questão fosse tão simples, tão infantil, eles já haveriam resolvido esse problema há muito tempo, e o Judiciário nem teria sido questionado sobre isso.
Além do mais, mesmo após decisão do Poder Judiciário, essa questão é questionada.
Sobre a necessidade de reflexão e o resultado de julgamentos da forma “infantil”:
A falta de reflexões mais profundas, seria uma forma de retroagir no tempo.
A justiça infantil é aquela bem simples, decorrente do primeiro e mais simples ordenamento jurídico já criado, a lei de talião: “Olho por olho, dente por dente”.
A reflexão, e os estudos promoveram grandes evoluções, e talvez uma das mais modernas, e que tenho certeza q te agrada muito é o famoso código de defesa do consumidor.
Felizmente, em relação a consumidores e fornecedores, a balança pesa para um lado, senão, a insjustiça seria ainda maior.
Isto é reflexo de estudos aprofundados, análise do princípio da igualdade, e tantas outras questões filosóficas.
Já, no que se refere à Escuta telefônica, a situação é bem mais complexa também.
O Judiciário comente seus erros, assim como os policiais e todos os cidadãos comuns.
O direito à intimidade de privacidade deve ser respeitado, porque nem só para coisas boas a polícia trabalha. Talvez vc devesse estar escrevendo sobre desvios de conduta, falta de ética, ou serviços que a polícia pratica em favor de terceiros.
Aí sim, vc perceberia que poder demais em mãos erradas, pode ocasionar graves problemas.
Não se preocupe, qdo vc passar dos 20 anos, e for um pouco mais maduro, perceberá que a vida não é tão infantil assim.