Ele explicava a ela o pouco que entendia de anatomia.
Disse ter aprendido nas aulas de biologia alguma coisa
sobre como o corpo humano é simétrico
e busca se fechar concavicamente (ou convexicamente
- nunca decorou a diferença). Enquanto isso,
passeava com o indicador da ponta da testa dela, correndo
por seu nariz, por seu lábios carnudos (primeiro
o superior, depois o inferior), pelo furo do queixo,
pescoço, o calor dos seios e o abdome indefinido,
até encontrar o umbigo, o púbis mal depilado,
novamente os lábios (agora os mais carnudos,
sejam maiores ou menores), provando que havia ali uma
linha reta meio que mascarando uma fenda, como se fôssemos
uma embalagem de biscoito temendo que mãos sedentas
nos abrissem e nos expusessem à fome alheia.
Continuou ele dizendo, como quem alfabetiza uma criança,
que aquela fenda pedia para ser fechada, que nossos
corpos são meras metades, que duas metades formam
um inteiro, que ele era uma metade, assim como ela,
e ambos clamavam, um pelo outro, no intuito de se sentirem
completos. Vinha do instinto. Não nascemos para
vivermos sós. Os defensores do contrário
infringem as leis da natureza: nascer, crescer, reproduzir,
pagar pensão, morrer.
Ela sorriu. Disse que todas aquelas palavras soavam
belas aos seus ouvidos. Em forma de agradecimento a
tanto carinho inesperado, beijou-lhe a testa. Ele também
não esperava o beijo, mas não disfarçou
a sensação agradável que tomou
conta de seu corpo. Respirou fundo e, em forma de desabafo,
contou que vivia dias difíceis, muito difíceis,
e que ela buscasse entender. Já com a cabeça
baixa, quase encostando em seu ventre, e os olhos um
tanto umedecidos, pediu para que ela desculpasse qualquer
coisa.
Ela apenas o abraçou. Após alguns minutos
de silêncio, perguntou seu nome. Ele levantou
a cabeça e a olhou nos olhos. Ela insistiu na
pergunta, dessa vez com mais calma, falando quase que
silabicamente. Ele finalmente respondeu, mas mentiu.
E ela percebeu que ele mentiu. Ninguém gagueja
ao pronunciar o próprio nome. Nem mesmo os gagos.
Coube a ela, então, tomar a iniciativa. Abraçou-o
com força e, vagarosamente, como nunca costumava
fazer, beijou-lhe os lábios. Estavam frios.
Tanto na temperatura como na postura. Ele não
pretendia corresponder, mas, após alguns segundos,
deixou que sua língua enfim se entendesse com
a dela. A língua dela que, dali a alguns instantes,
faria todo o percurso anatômico descrito por
ele. Primeiro o queixo, liso como quem nunca tivera
barba apesar da idade avançada. E seguiu pelo
pescoço, pelo peito sem pelos, pelo abdome queimado
de sol, umbigo, púbis ruivo, pênis e saco
escrotal, comprovando a existência de tal fenda,
agindo de forma a fazê-la não se sentir
mais uma mera metade. E assim ela começou a
chupá-lo.
Por mais que tentasse, e até fingisse, o corpo
dele não conseguia sentir prazer. Sua cabeça
estava longe. Longe no espaço, longe no tempo.
Estava ali para justamente se aproximar da realidade,
no entanto sua mente continuava no mesmo lugar de sempre:
um coração que não lhe queria,
a milhas e mais milhas distantes do seu.
Amor. Sempre ele. Era uma pena, pensava. Tanta boa
vontade em fazer e ser feliz, e o destino cuidando
de impedi-lo de vencer. Tudo que queria era voltar
no tempo para conversar com ele mesmo. E pedir-lhe
para corrigir certas rotas. Que pequenas decisões
erradas condenaram toda a sua felicidade. Que era só evitar
certos caminhos, palavras e companhias, e tudo ficaria
bem. Mas era impossível, sabia, por mais que
muitas vezes não quisesse acreditar. Agora já era.
O presente é outro. O presente é ele,
seu falo e os lábios carnudos. Além da
culpa, e da auto-piedade, é claro. Foi quando
achou por bem fechar os olhos na tentativa de relaxar
e entrar também no jogo.
A polícia entrou sem bater. Seu corpo nu foi
chutado pelas costas. Um programa sensacionalista de
TV cobriu tudo e passou em horário quase nobre
(com uma tarja preta cobrindo seu sexo). Pediram a
carteira da garota, mas ela não tinha documentos.
Nem precisava: seu rosto entregava sua adolescência.
Quanto a ele, entregou-se às lágrimas
e à vergonha. Os guardas gritavam-lhe milhões
de coisas, mas ele não entendia. Quando gritava
em resposta, dizendo que amava Julian, e ninguém
mais do que Julian, os guardas também não
compreendiam.
Mas a prisão não deu em nada. Ou quase
nada. A garota continuou nas ruas, o repórter
continuou fazendo fama com a miséria alheia,
os guardas continuaram a entrar sem bater (mas batendo).
Ele, porém, foi mandado de volta para casa,
para longe, contudo, perto do coração
que não o queria. E o apartamento 206 foi novamente
posto à venda.
Gênero: Conto
Tema: Turismo Sexual
Publicado em: Qualquer
Bobage
Ano: 2005
Revisão: 2006
Observações: -
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
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