Quantas matérias divulgam que para se divertir em algum bloco baiano se faz necessário, às vezes, desembolsar em torno de três mil reais? E que muitas vezes não é você quem escolhe o bloco, mas o bloco que te escolhe, assim como fazem as faculdades privadas norte-americanas, recebendo antecipadamente uma espécie de currículo seu (com foto), para só depois dizer: “Ok, você pode se divertir no nosso carnaval!” A Veja há alguns anos denunciou que, devido ao fato de alguns blocos tradicionais baianos aceitarem apenas a participação de negros, os demais blocos se vêem no direito de só aceitarem brancos. E então? A praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião?
Há seis anos decidi curti os dias da carne no estado
de Pernambuco entre Olinda e Recife. Na primeira, existia sim a tal tradição
que tanto os repórteres locais teimam em repetir sempre que fazem um
link ao vivo com o Jornal Hoje, abrindo aquele sorriso maroto na Sandra Anemberg.
Mas não representava 10% do que ali ocorria, muito menos a intenção
dos que ali estavam. O que se podia ver e ouvir nas ladeiras velhas da capital
cultural do Brasil era uma porção de carros com sons superpotentes
disputando a liderança dos decibéis, na ocasião, executando
exaustivamente Anna Júlia, hit maior daquele verão. E o carnaval
era realmente o mais democrático, colocando lado a lado pobres e ricos.
Os pobres catavam latas, vendiam cachorro-quente e roubavam alguns turistas;
os ricos cheiravam lança-perfume, tomavam pau-do-índio, se embriagavam,
vomitavam onde pudessem, faziam a felicidade do vírus causador do herpes
numa - me desculpe a palavra - putaria de fazer inveja a qualquer pornô
light. Ao final, todos juntos, ricos e pobres, mijavam (e cagavam) a torto e
a direito onde pudessem, já que banheiro não era dos ambientes
mais abundantes por aquelas bandas. O Recife antigo já era mais interessante,
com bons shows em vários palcos, apesar de na manhã de sábado
servir de palco para o Galo da Madrugada, que em pouco diferia do carnaval olindense.
Outro amigo, carioca quase da gema, comentou que uma das maiores
frustrações de sua vida nasceu de sua tentativa de acompanhar
o desfile das Escolas de Samba em sua terra natal. Disse que, para desfilar,
ou desembolsada em torno de dois mil reais numa fantasia para cruzar a Marquês
de Sapucaí em no máximo 70 minutos, ou teria de nascer dentro
da comunidade da escola de samba confeccionando a própria vestimenta
e assim conquistar esse direito. Ser destaque de algum carro alegórico?
Ou sendo famoso, ou liberando muito mais verba. E mesmo a arquibancada não
parecia ser algo interessante. Os lugares que realmente pareciam valer à
pena pela proximidade com a passarela eram outra fortuna. As cadeiras mais acessíveis,
custando algo entre 200 e 500 reais a noite, ficavam lá onde a câmera
da Globo mal consegue chegar, fazendo qualquer sambista a olho nu parecer uma
pulga amestrada.
Mesmo os carnavais alternativos, como o da serra de Guaramiranga, que eu já presenciei por duas vezes, ambas me divertindo à beça, e onde durante os quatro dias só toca Blues e Jazz, não parece ser uma opção racionalmente boa. À exceção do palco na praça do Teatro Raquel de Queiroz onde, ao final do dia, ocorrem algumas jam’s, todos os shows custam um preço individual salgado como o das poucas pousadas que hospedam a elite cearense durante o evento, elite esta que teima acreditar estar na Sibéria, ao usar casacos de pele num frio estupendo de… 14 graus!
Acho que nunca gostei desta época, menos ainda que o
Natal e o Ano Novo. Até pulei alguns anos, mas nunca vi esta como uma
festa dos felizes, e sim daqueles que querem estar felizes. Quase nunca é
“conquistei um bom emprego, conclui minha faculdade, encontrei um grande
amor e agora vou comemorar”. Na maioria das vezes é algo como “minha
vida anda uma merda, meu emprego é uma bosta, nada dá certo comigo,
estou me sentindo muito só, vou tomar todas nesse carnaval”. Isso
me soa estranho. A felicidade, para mim, é algo que você deve fazer
por merecer, e não algo que começa da meia-noite da sexta para
o sábado e durará até a quarta-feira de cinzas. Mas pode
ser que tudo não passe de birra minha.
Sei que por essas, e por outras (quase todas ligadas à
falta de grana que me impede de curtir esses dias pouco democráticos)
é que prefiro viver o carnaval no aconchego do meu lar, vendo DVDs, lendo
aqui e ali algo interessante, atualizando meu blog e falando mal daqueles que
acham que estão mais felizes do que eu.
Sinto muito. Não estão.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 28/02/06 às 12h43 nas seções Atitude & Comportamento. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
A segunda parte dele depende de você. Comente, ou faça um trackback de seu site. Só não deixe de participar, contanto que se use do bom senso. A moderação é feita, na medida do possível, durante o dia, e só bloqueará comentários ricos em má-fé. Pretendo responder aos mesmos no período da noite.
Críticas construtivas são mais que bem vindas. Mas, por favor, evitem o anonimato. Contudo, cada caso será estudado em separado.






pimba! carnaval legal � aquele onde todos podem escolher como se divertir por quatro dias com a m�sica que quiser e com as pessoas que quiser. � tbm aquele onde vc tem o direito de escolher se quer se divertir ou naum. esse para mim � o esp�rito do carnaval. S� para variar, pelo quarto ano consecutivo estou gravando uma banda no carnaval. sempre divers�o garantida!