Não julgueis para não ser julgado, é o que diz a passagem bíblica. Sempre achei tal passagem um absurdo. Porque me julgo um ser racional, e sei que a maior diferença entre ciência e religião é que a primeira incentiva o auto questionamento, enquanto a segunda o condena. Mas como quem não deve não teme, só foge do julgamento aqueles que alguma culpa no cartório devem possuir.
O problema do caso da família Nardoni não é o julgamento, mas a condenação sem tal. E por mais que se esforcem para convencer a eles mesmos que estão sendo imparciais, no momento em que lotam a calçada de avós que há 15 dias perderam uma neta ainda criança, avós estes que são pais que dias depois viram um filho ser apontado como principal suspeito do assassinato de tal neta, já condenaram não só o pai, não só a madrasta, não só os meio-irmãos, não só os avós, mas toda a família ao julgamento hipócrita de uma sociedade hipócrita, que não quer justiça, mas o sadismo de em coro chamar alguém de assassino, sem julgamento justo, no meio da rua para aparecer na TV, como bem mostrou matéria do Jornal Hoje de sábado passado.
Sabe quando você já foi apresentado a alguém mas não recorda direito de sua fisionomia ao ponto de correr o risco de cruzar com a figura numa praça de alimentação qualquer sem nem notar sua presença? Pois é… Apesar de estar ciente da importância (seja isso bom ou ruim) de pessoas como Arthur Virgílio, César Maia, Delfim Neto ou várias outras figuras da política nacional que bem ou mal devemos conhecer, corro o risco de dividir uma sala de embarque em algum aeroporto com os mesmos e desperdiçar a chance de passar a limpo bastante coisa. Mas pergunta se não consigo fechar os olhos e desenhar numa folha de papel as “entradas” do couro cabeludo de Alexandre Nardoni, ou a roupa que o mesmo usou quando foi ao shopping naquele sábado a noite pagar alguma conta acompanhado da esposa e filhos.
Queria que o mesmo esforço que tiveram para explicar cada detalhe deste crime sórdido fosse utilizado para explicar à população de uma vez por todas o que significa caixa 2, propina, peculato, improbidade administrativa, ou até mesmo como funciona esse tal “juros” que tanto falam. Queria que tivessem plantado duzentos repórteres na frente da casa dos pais de Renan Calheiros. Ou que diariamente
nos informassem o que anda comprando cada gabinete de Brasília.
Mas o que mais me esclareceu a TV nos últimos dias é que Alexandre não quis jantar na noite em que foi preso, que preferiu dormir no chão da cela, que hoje de madrugada três carros com vidro escuro saíram da garagem de seu prédio, que o casal está dormindo na casa dos pais, etc…
Por que Ana Maria Braga não entra com links aos vivo para mostrar a ocupação da UnB pelos estudantes de Brasília? Por que Sônia Abrão não faz enquetes nas ruas querendo saber o que a população acha da CPI dos cartões corporativos? Por que desperdiçam tanto tempo neste caso que necessita sim de justiça, mas que em nada mudará a vida dos brasileiros, diferente de outras tantas pautas mais importantes, como as inundações no Nordeste, a dengue no Rio de Janeiro, a forma como mais uma vez o governo acoberta um escândalo político em Brasília?
Eu não aceito, mas até entendo que atitudes doentias possam ocorrer em momentos de desespero. Não perdôo, mas entendo quando me contam que pais brigam e descontam de modo cruel em seus filhos o sufoco momentâneo que passam. Ou, em outra leitura, entendo quando um bandido invade um lar e mata uma pessoa, uma criança até, quando acuado. Não perdôo, não aceito, acho que deve ser julgado e condenado, mas entendo que isso é possível de acontecer, até mesmo pelas fraquezas humanas.
O que de fato é incompreensível em toda esta situação é a postura da imprensa, hipócrita como jamais foi. Porque, diferente dos envolvidos no crime, não estavam em momento de desespero quando decidiram agir como agem. E tempo para seu tocar de se papel, de suas atitudes, e para voltar atrás no que fazem, possuem de sobra, diferente dos poucos minutos em que se desenrolou a tragédia com esta pobre criança.
Esse caso em muito já superou os exageros da cobertura da Escola de Base. A diferença é que na época não se tentou disfarçar uma imparcialidade que hoje, por mais que neguem, também inexiste. Porque quando transformam a vida de uma família que teve um ente querido assassinado, e outro acusado de assassinato, em reality show, é porque já os mandaram para o paredão (com trocadilhos) há muito tempo.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 14/04/08 às 8h28 nas seções Capas, Mídia & Comunicação. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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Críticas construtivas são mais que bem vindas. Mas, por favor, evitem o anonimato. Contudo, cada caso será estudado em separado.






Notícia que virou novela. Tem que ter bandido, mocinho e um capítulo por dia!
O melhor a fazer é deitar em uma rede e ir ler um livro. Mas quanto ao noticiário, não vejo alternativa, não. Vai fazer o quê? Passar ópera no lugar do JN? Ninguém vai ver. Ao contrário do que dizem por aí, é o expectador que faz a TV, não o contrário. A Globo civiliza, o público é que é selvagem mesmo.
O que vc precisa entender é que a roubalheira já faz parte da cultura brasileira (o trocadilho não foi intencional), e o povo no íntimo está disposto a conviver com isso. Mas assassinato não é socialmente aceitável. Ainda mais quando se trata de inocentes menores.
É compreensível que a mídia responda aos anseios da população, garimpando cada minuto deste caso. É isso que rende propaganda.
Se vc quer mesmo mudar alguma coisa, comece transformando a postura passiva da reclamação em atos. Aja, conscientizando, cobrando, dando informações, … . Quem sabe a próxima geração tenha uma consciência um pouco melhor sobre o que realmente interessa a coletividade.
Livia, toda generalização é contestável… Então aceite minhas palavras como simples argumentação às suas, e não como enfrentamento gratuito.
Não se choque, mas o assassinato é sim socialmente aceitável.
As Carolinas que morrem (da mesma, ou até de pior, forma) todos os dias em favelas não causam tanta comoção, nem - muito menos - interesse da mídia.
Da mesma forma, outras Carolinas - e outros inocentes menores - que tem sua dignidade assassinada a cada segundo, quando são jogadas para o mundo do crack, da prostituição, da condição de pedinte em semáforos, e etc.
Nossa mídia é eficaz em vender condenação antecipada, vide o trágico caso da Escola Base, gente que não teve direito a mesma cobertura televisiva para se defender publicamente em horário nobre. Não defendo que seja a mesma situação posto que, a cada dia que passa, as evidências desse brutal assassinato comprovam o óbvio.
Como já foi mencionado, é notícia que virou novela.
Que seja feita a justiça pelas mãos da justiça, e não através de prévio linchamento moral.
Roubalheira…
O samba também faz parte da cultura brasileira. Muitos não gostam de samba. Eu curto samba. Samba remete a malandragem. Malandragem - de certa forma, sob certo aspecto - remete ao ilícito. Roubalheira é ílicita. Não, eu sou brasileiro, curto samba, mas não curto roubalheira.
Claro que é um silogismo sem o menor sentido…
A roubalheira - infelizmente - faz parte da cultura de muitos e continuo me recusando a aceitar isso como fato corriqueiro e sem solução, apesar de ter convicção que esse mundo não tem jeito. Afinal, em recente pesquisa, quase a totalidade dos entrevistados se mostrou contra a corrupção, ainda que 70% desses declarassem que participariam da mesma bandalheira se tivessem um alto cargo público.
Não me mobilizo mais como antes fazia, mas passei a fazer um trabalho de formiguinha com os mais próximos para que esse tipo de pensamento vá sendo abolido aos poucos em gerações futuras. Talvez seja esse o caminho para fugir de generalizações do tipo.
Me chamam atenção duas frases: a primeira, no próprio texto, quando você diz que “Nossa mídia é eficaz em vender condenação antecipada” e a outra no comentário em resposta a Lívia “a postura da imprensa, hipócrita como jamais foi”.
O que está me revoltando ultimamente não é mais nem o caso em si, mais a forma que os veículos o tem abordado. Faz plantão na escola onde a menina estudava, falar com crianças fazendo perguntas imbecis do tipo “você gostava de Isabella?” “tá com saudades dela?”. Acho uma falta de postura e uma desmoralização com a profissão.
E ouço de estudantes: é isso liberdade de expressão? e isso imparcialidade de notícia?
E fico me perguntando: quando vamos parar para assumir nosso papel de sociedade? Quando vamos aprender a não dar audiência a certo tipos de coisas? A votar corretamente? A ter nobreza de caráter e sermos íntegros nas coisas de espírito até as últimas consequências?
Perfeito texto! O melhor comentário que vi até agora.
Certamente, Brito Jr. (Apresentador de um programa matinal na Rede Record - maior emissora a explorar “O caso Isabella”) depois de lê-lo deixaria essa criança descansar em paz e iria se ocupar com pautas como as que você sugere.
Parabéns!