24/03/2006 - Por Lelo Macena - Repórter - Para a Gazetaweb.com
Sexta-feira, 24 de março de 2006, uma data que pode marcar para sempre a história musical de Alagoas. De hoje até domingo, a primeira edição do Festival da Música Independente (FMI) vai reunir, em Maceió, alguns dos principais nomes da nova produção sonora - e autoral - do Brasil. Será um encontro como nunca se viu por aqui, com 24 atrações entre grupos e artistas locais e de várias partes do País, que se revezarão nos palcos do Teatro Deodoro e do Armazém Uzina, em Jaraguá. Para se ter uma idéia do alto nível da programação, estão confirmadíssimos nomes como Tom Zé (BA), Cidadão Instigado (CE), Wado (AL), Sonic Jr. (AL), Duofel (SP), Projeto Cru (SP), Mopho (AL), Autoramas (RJ) Vibrações Rasta (AL) e Bonsucesso Samba Clube (PE), entre outros.
A abertura da “maratona”, logo mais à noite, no Deodoro, tem tudo para se transformar num dos momentos inesquecíveis do festival. Pela primeira vez em Maceió - ele passou pela capital alagoana em 1960, mas não fez uma “apresentação” propriamente dita -, o baiano Tom Zé, arauto-mor da transgressão sonora, promete uma performance antológica para os felizardos que conseguirem garantir ingresso para o show, desde já um dos mais concorridos do FMI.
“Olhe, diga ao pessoal daí que venha para o show sem medo, porque vai começar cedo e acabar na hora. Eu vou chegar e cantar enquanto o público tiver interesse. Podem ficar tranqüilos que, antes da vontade de fazer xixi, acaba”, avisa, por telefone, de São Paulo, o irreverente Tom Zé. Em sua apresentação, o baiano de Irará vai mostrar canções de seu mais recente disco, Estudando o Pagode - Tom Zé na Opereta Segregamulher e Amor (Trama, 2005), mas não só. “Como nunca cantei aí, vou mostrar alguns ‘hits’, umas coisas que as pessoas não ouviram, músicas que são a espinha dorsal da minha carreira”, diz ele.
A noite de estréia do FMI trará ainda os alagoanos Chau do Pife e Tororó do Rojão, além dos pernambucanos do Bonsucesso Samba Clube. “Nesse show, basicamente, faremos o lançamento do nosso segundo CD, Tem Arte na Barbearia”, diz Rogério Homem, o Roger Man, do Bonsucesso. Para ele, o FMI é mais uma vitrine para as bandas que buscam consolidar, no Brasil, o mercado “alternativo” de música. Roger avisa também que algumas faixas do primeiro álbum do grupo estarão no repertório preparado para a apresentação em Maceió. “Vamos tocar também O Samba Chegou, que já é uma espécie de hino da gente, assim como Zumbi Chamou, que é um afrobeat, e Derrapar. Aqui em Recife, se a gente não tocar essas músicas, a galera mete pedra”, comenta, por telefone.
No itinerário, Jaraguá
Após a abertura - que ocupará as áreas interna e externa do Deodoro -, o festival muda de cenário e segue, amanhã e domingo, para o bairro do Jaraguá, mais especificamente para o Armazém Uzina. Lá, 20 bandas sobem ao palco para desfilar seus repertórios, frutos das mais variadas influências. No sábado, é o cantor, compositor e instrumentista alagoano Basílio Sé quem abre a noite. A banda que o acompanha tem o reforço do guitarrista Toni Augusto, conterrâneo que durante muito tempo morou em Salvador e voltou, agora, a fincar raízes em Alagoas.
Na seqüência, o Experiência Ápyus, do Rio Grande do Norte, que toca pela primeira vez em Maceió, vem representando a cena roqueira de Natal. Há apenas dois anos na batalha, a banda já se prepara para lançar seu segundo disco, cujo estilo será pautado pelo pop rock, mas sem deixar de lado a pegada roqueira. “Essa apresentação em Maceió será muito importante para a gente, pois é uma oportunidade de mostrar o nosso trabalho em outro Estado”, diz Marlos Ápyus, violonista e líder do grupo - cujo set list terá músicas do primeiro CD e novas versões preparadas para a segunda bolacha. “Tem Samba Feio e Pobre Demais, que são bem suingadas, estilo Jorge Ben, Baladas Curtas, que está sendo cantada pela galera de Natal, e Só por Ela, que é um funk cheio de groove”, adianta Marlos.
“Estamos preparando um repertório especial para apresentar no festival, inclusive estávamos até ensaiando agora”, diz Luiz Bueno, do Duofel, de São Paulo, antes do embarque rumo a Maceió. “Nós costumamos dizer que o Duofel tem duas famílias: a família paulistana e a família alagoana, de modo que é sempre uma expectativa muito boa a de nos apresentarmos em Alagoas”, diz ele. No show, a dupla fará um apanhado de várias fases de sua carreira, com destaque para as composições do novo CD, Precioso (Fine Music, 2005).
“Será uma noite especial. Tocar com Xique Baratinho e Cidadão Instigado vai ser show de bola”, vibra o catarinense/alagoano Wado, por telefone, depois de uma sessão de surf no quintal de sua casa, na Praia de Garça Torta. Ele conta que o show servirá também para lançar o seu terceiro disco, A Farsa do Samba Nublado (Outros Discos, 2004), em Maceió. Após uma temporada no Rio de Janeiro, Wado volta a fixar residência na capital alagoana e já se prepara para seu quarto trabalho. “O disco já está composto, só falta gravar. Quero lançar ainda no primeiro semestre”, diz.
No show, Wado promete tocar alguns “hits” de sua carreira - para matar as saudades dos fãs, bastante carentes de apresentações suas aqui na terrinha. “Será um show eclético. Vamos misturar os três discos e certamente Ontem eu Sambei, Tarja Preta, Uma Raiz Uma Flor e Alagou As não vão ficar de fora”, antecipa ele. Bastante aguardado pelos fãs que conquistou na cidade, o Cidadão Instigado é outra banda que faz sua estréia em palcos alagoanos. O show servirá para o grupo cearense lançar aqui seu segundo CD, o elogiado E o Método Túfo de Experiências (Slag Rcords, 2005). “Nosso show será em cima do nosso novo disco, mas devemos tocar uma ou duas do primeiro [O Ciclo da Decadência]. Ainda vamos nos reunir para definir nosso set”, diz o guitarrista Fernando Catatau, um dos mais requisitados músicos brasileiros da atualidade. “O FMI é fundamental para esse circuito do qual fazemos parte. Ainda mais aí no Nordeste, onde as coisas são mais difíceis de acontecer. Espero que dê certo e que o evento entre no calendário nos próximos anos”, diz Catatau, de São Paulo, por telefone. Então é só esperar as execuções ao vivo de O Pobre dos Dentes de Ouro, Os Urubus só Pensam em te Comer e Calma!, além de outras pérolas experimentais da turma cearense.
Depois de um ano afastado dos palcos, o Xique Baratinho está na expectativa para o show de amanhã. “Já nos apresentamos duas vezes este ano, depois que voltamos a fazer shows, mas o FMI será especial para nós”, diz Tárcio Rodrigues, o baterista da banda. “Será uma oportunidade de dividirmos o palco com grandes nomes da cena nacional. Também queremos mostrar ao público novos arranjos e novas músicas que farão parte do nosso segundo CD”, avisa. Ele ressalta a releitura de Horrível, de Alceu Valença, e o arranjo preparado para Fliperama, uma homenagem a Tom Zé. “Mas também tocaremos as mais conhecidas, como Arataca, Nega Fulô, Ctrl + Alt + Del e Alto da Corana”, enumera. A noite terá ainda as apresentações de Marcelo Cabral e Trio Coisa Linda - acompanhado de seu coletivo sonoro, o músico mostrará novas composições no FMI, as quais farão parte de seu segundo CD, em fase de gravação -, do roqueiro-country Cícero Flor e do craque Beto Batera, com seus convidados.
Bandas alagoanas no encerramento
No domingo, a programação do Festival da Música Independente (FMI) começa mais cedo, às 18h20. A abertura será com o Santa Máfia, do vocalista e guitarrista Wilclei (ex-Surto). Em seguida, o reggae do Vibrações Rasta promete levar sua legião de fãs ao Armazém Uzina. Ao todo, serão 11 atrações na última noite do evento. Destaque para os alagoanos do Mopho, Sonic Jr. e Living in the Shit.
“Cara, é um prazer voltar a tocar na minha terra, ainda mais num evento de alto nível como esse”, afirma o alagoano Juninho, do Sonic Jr. Ele se diz cheio de gás para lançar aqui o seu novo disco, Pra Fazer o Mundo Girar. “Tô instigado para mostrar meu novo trabalho em Maceió”, diz Juninho. No repertório, canções do novo CD e músicas conhecidas do seu público, como A Casa da Madame e Acelerou, Bateu. De São Paulo, o Projeto Cru traz o virtuosismo rítmico de Simone Soul, o baixo de Alfredo Bello e os sopros de Marcelo Monteiro. Os pernambucanos do Negroove vêm na seqüência. No repertório, canções autorais - como Exu Aspartame e Caipora Maturi - e releituras de composições de Gilberto Gil e Luís Melodia. O grupo Pedra de Raio, que tem à frente as ex-Comadre Florzinha Telma César e Renata Mattar, fará sua estréia no FMI. “A expectativa é muito grande. Afinal, é nosso primeiro show”, diz Telma. No repertório, músicas da tradição popular, com o acompanhamento de Flávio dos Santos (zabumba), Isaías Francisco (percussão), Thomas Rhorer (rabeca), e Simone Soul.
O Amor é Feito de Plástico, Não Mande Flores e A Geladeira. Os fãs do Mopho podem ficar tranqüilos: estes e outros sucessos estão no set list do grupo. “Esse evento é histórico para a gente. As bandas alagoanas sabem disso”, diz o guitarrista João Paulo.
O FMI será encerrado pelo Living in the Shit. “Será o show mais longo do festival. Provavelmente só vamos parar de tocar quando o dia clarear”, promete Eduardo Quintela, um dos pioneiros do rock alagoano. Antes, porém, o público ainda vai poder conferir o rap de Vitor Pirralho e o rock rural de Cícero Flor, além dos cariocas do Autoramas. Vai perder?
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 30/03/06 às 7h51 nas seções Arte & Cultura, Clipping, Experiência Ápyus. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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