E uma vontade estranha de ter o dobro da idade Receita para fazer durar o queijo manteiga
mai 29

Como falei posts atrás, para mim, não existe mais o "ser de esquerda", ou "ser de direita". Mas "estar de esquerda" ou "estar de direita". Ultimamente estou de direita. Mas sabe-se lá até quando o contexto me permitirá estar assim.

Roberto Solino é um dos amigos que mais respeito a opinião. Já foi meu chefe em um curto período quando estagiei na criação da Faz Propaganda. Ele comentou via e-mail meu post de sábado sobre o protesto estudantil contra o aumento das passagens de ônibus. Eu discordo em grande parte da opinião dele. Mas respeito tudo que me disse no texto abaixo e até entendo. Mas, de fato, prefiro atitudes como a do pessoal de Niterói-RJ que próximo dia 31 fará uma "greve de passageiros" e ninguém utilizará os ônibus para sua locomoção por conta da mesma causa dos estudantes daqui. Falta saber se dará certo.

Abaixo, o e-mail de Solino:

"Peço licença para discordar de você, caro Marlos, e dizer que, para mim, o protesto dos estudantes do Cefet, com todo o incômodo que causou à população, foi sim válido. E foi válido exatamente porque provocou uma reação da sociedade. Não é o caso de se discutir se a ‘imagem’ dos estudantes ficou queimada, se pediram a fogueira para os responsáveis pelo protesto ou se a passagem de ônibus não baixou. O que importa, e acho que era essa a intenção dos meninos, é que todo  mundo ficou sabendo da manifestação. Que se discutiu o assunto, que se escreveu sobre o assunto, e que o aumento da passagem de ônibus não passou em branco em declarações nos telejornais da hora do almoço.

Não vou questionar a justa indignação de quem ficou preso no trânsito. Eu também fiquei enganchado no cruzamento da Romualdo com a Miguel Castro, enquanto os ônibus aplicavam a lei do mais forte e monopolizavam o semáforo, não importando a cor que mostrasse. Eu também maldisse o responsável por aquela zorra, antes mesmo de saber o que estava rolando ali.

Mas agora deixo o meu egoísmo de lado para apoiar os manifestantes. Aliás, egoísmo é a palavra-chave desse tumulto. A mim não importava na hora o que estava acontecendo. Estavam me atrasando pro meu trabalho, me deixando estressado e isso era ‘inaceitável’. Também aos motoristas de ônibus pouco importava se eu estava tentando chegar ao trabalho ou ao hospital. Enfileiravam seus carros no cruzamento e iam passando e passando e deixando o resto do povo com a mão na buzina. Estavam cagando e andando pra a população; só queriam cumprir seus horários e depois ir pra casa. Duvido que não tenha sido esse o comportamento de todo mundo que se viu pego nessa arapuca. I, me, mine.

Pois eu ainda creio na força dos estudantes. Um protesto desse por semana, cada vez que fizessem o povo de bobo, e esse país seria muito melhor. Esqueçamos nosso conforto por um instante. Tem gente morrendo todo dia nas ruas, nos hospitais, nos presídios. E a gente finge que tá tudo bem porque temos nosso empreguinho de merda, nossa paz pequeno-burguesa, nosso futuro e nossos sonhos. Depois nos apavoramos quando a realidade vai às ruas e toca fogo em São Paulo.

"Me gústan los estudantes", cantava Violeta Parra, e eu digo: me gústan los estudantes e mais os sem-terra, os travestis, os black blocks, Miguel Bové, o PCC e quem mais que vá às ruas mostrar que o mundo real é diferente do que nos vendem e abrir os olhos da nossa bovina sociedade para problemas que de outra forma só serão percebidos quando transformados em tragédia e todo mundo ficar cinicamente se perguntando ‘o que deu errado?’.

Vamos obedecer a lei? Fazer panelaço só até às 10? Por quê? Se à meia-noite é que vai incomodar? Estou com Thoreau. O Estado, quando não cumpre os fins a que diz que se propõe, deve ser desobedecido. Estamos atravessando um mar de marasmo e isso é muito perigoso. A sociedade é um organismo vivo e também arrota e peida a seu próprio modo. Fingir que estamos num estado democrático de Direito, onde tudo se resolve pela via administrativa ou judicial é perigoso. As tensões sociais não deixam de existir só porque não saíram na tevê. A explosão de fúria pobre juvenil na França mostra bem isso.

Então, por que condenar os poucos que ainda têm coragem de chutar na canela dessa sociedade anestesiada? Por puro egoísmo, eu arrisco dizer. Porque no mundo de hoje o que importa é que ‘eu’ esteja bem. Que ‘eu’, cidadão-de-bem-que-pago-meus-impostos, ande em paz pelas ruas, enquanto os bandidos pobres ardem nas chamas das penitenciárias e os bandidos ricos nadam no dinheiro da miséria - desde que ‘eu’ não tenha votado neles.

Sei que me alonguei demais para um assunto tão pequeno como 30 estudantes interrompendo o trânsito, mas eu carrego essa maldição de nunca ver qualquer evento humano isolado de seu contexto. Não vai aqui nenhuma crítica de caráter pessoal ao que você escreveu, mas ao comportamento coletivo, inclusive o meu, de alienação do mundo em que a gente vive - como se o ‘meu mundo’ devesse, de alguma forma, ser protegido do mundo do cara que levou meu celular.

Acho que quem vai pra rua protestar, seja contra o que for; festejar, seja o que for; manifestar-se, seja como for, está dando sua contribuição para impedir um mundo orwelliano, de equilíbrio estático e eticamente desumano. Mesmo que isso me roube meia hora de trabalho ou eleve a minha pressão arterial.

Desculpe a encheção de saco. Valeu.

Solino"

Escrito por Marlos Ápyus

Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte

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dez 26

Você é Ministro do Supremo Tribunal Federal mas não sabe como proceder para causar um escândalo denunciando um possível Estado Policial na democracia que paga seu salário? Seu problemas acabaram. Preparei este tutorial que mostrará passo a passo como é fácil forjar toda esta situação.

out 06

Sempre julguei inconveniente se valer da expressão “eu já sabia”, mas de fato era bem previsível que hoje todos os jornais amanheceriam comemorando a “festa da democracia”. Que está muito mais para festa do que para democracia. Porque as eleições, de fato, se transformaram numa mera gincana, onde as equipes participantes, em vez de vencer corrida-no-saco ou arrecadar alimentos não-perecíveis para doação, possuem como único objetivo conquistar votos do povo. O melhor rumo a seguir? Políticas que devemos adotar? Qual candidato há de ser nosso representante nas decisões públicas? Nada disso é relevante. Vencer é o que importa, e nada mais. Se a competição fosse estourar bolas-de-encher, estariam todos os envolvidos igualmente dispostos, e teriam igualmente contribuído para o debate político junto ao eleitorado.

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