Porque a doutrina começa tantas vezes no berço, ou poucos segundos após o balbuciar das primeiras palavras, sempre tive a sensação que, assim como ocorre com homossexuais, as pessoas já “nascem” religiosas. Para entender melhor o que quero dizer: eu simplesmente não recordo o dia em que passei a acreditar em Deus. Como se desde sempre eu fosse assim.
Mas lembro do dia em que deixei de acreditar. Ou ao menos me prometi deixar. Porque de fato não prometi a mim, mas a Ele, com “E” maiúsculo. Cena bem de filme: uma janela, lágrimas aos olhos, um pai perdido aos 9 anos, uma adolescência depressiva, dentes trincados, e a indignação por ver tantas de minhas preces ignoradas. Assim como uma vez, aos 12 anos, arranquei forças para não bater 3 vezes na madeira quando um pensamento ruim me viesse à mente, interrompendo assim sintomas de um distúrbio obsessivo que só vim descobrir a existência uma década depois; naquele fim de noite prometi que não rezaria para seu ninguém, e que isso não se converteria em acontecimentos ruins que abalariam meu bem estar. E mesmo que algo de ruim acontecesse, seria tudo fruto de uma infeliz coincidência, e não uma vingança divina amaldiçoando-me por minha revolta.
O sol nasceu e nada de ruim aconteceu. E outro sol, e outro sol. E minha vida seguiu normal. Entenda por isso: altos e baixos. Infelicidades vieram, assim como felicidades também. E hoje credito tudo que ocorre em minha vida a seres humanos, sejam eles os que me rodeiam, ou eu mesmo. Sejam estas ocorrências boas ou ruins.
Mas isso foi bem depois de ser batizado. E de pedir muita benção a meus tios. E de fazer minha primeira eucaristia. De participar ativamente de todas as aulas de religião numa tradicional escola católica. De me confessar para um padre. De não faltar a uma aula de catecismo e de me crismar, com direito a tomar o microfone e declamar alguns dizeres na cerimônia.
Quando penso em seleção natural, não penso apenas em borboletas pretas que se beneficiam da poluição numa Inglaterra industrializada. Penso também no jovem rancoroso que trata a todos os companheiros de estudo com desdém e, quando menos percebe, não consegue um aliado que tope dividir com ele as responsabilidades de um TCC. Penso numa pessoa ingrata que por muito tempo recebeu benefícios de mão beijadas e de repente deixa de recebê-los. Penso em todos aqueles que não medem a conseqüência de seus atos.
Não vou citar nomes ou detalhar fatos pois pessoas próximas do protagonista passam constantemente os olhos nestas palavras. Mas falo de alguém muito bem quisto por pessoas bondosas. Pessoas que mudaram sua vida para melhor, muito melhor. Um dia este alguém se entupiu de despeito, e passou a destratar todos estes que tanto lhe queriam bem. E se distanciou. Isso há tempos. Dias atrás soube do paradeiro deste alguém. Soube que passou por momentos delicadíssimos. Não porque Deus quis castigá-lo, mas porque todos nós estamos sujeitos a momentos delicados. Contudo, quando algo de ruim lhe aconteceu, estava ele isolado, no seu mundinho. De tal modo que até hoje está afogado nas dificuldades geradas por aquela passagem.
A diferença? Não tivesse este alguém destratado todos aqueles que lhe queriam bem, não teria faltado quem lhe desse uma mão. E sem esperar nada em troca. Isto é a seleção natural. Ofereceram tinta preta, mas ele preferiu continuar uma borboleta branca no meio da poluição. Por puro orgulho idiota.
As últimas palavras que ouvi ontem antes de dormir foram as do bispo pernambucano excomungando todos aqueles que se envolveram no aborto da criança (estão falando “garota” na matéria, mas o certo é dizer “criança”) de 9 anos de idade, 1,36m, 36kg, que esperava gêmeos após sucessivos estupros que seu padrasto cometia desde 2005.
Veja bem… Temos uma família que passou pelo trauma enorme de ter um pedófilo estuprando a própria enteada. Temos uma mãe que descobre que a filha está grávida de seu marido. Temos uma criança que viveu por 3 anos o pior horror que uma mulher pode sentir. Temos uma equipe médica que precisa sujar suas mãos matando fetos gêmeos. E temos uma criança de 9 anos sucessivamente estuprada que sofreu um aborto. Há alguém feliz com seu papel neste triste enredo? Não há. Aborto não é algo que se comemora. Ninguém é feliz abortando. Ninguém sai melhor de um aborto do que entrou. Mas é um remédio amargo que às vezes é preciso que se tome.
E o que o faz o bispo pernambucano? Inferno, com o perdão do trocadilho religioso. Vem à TV para excomungar todos os envolvidos. Houve um mínimo de sanidade e excluiu a criança de sua condenação. Mas pegou todos eles, a grande maioria no pior momentos de suas vidas/carreiras, e simplesmente os excomungou, sem procurar saber a história de cada um deles, se doam sangue, se fazem caridade, se dão bom dia ao cobrador do ônibus, se devolvem o troco quando vem a mais, se rezam a noite antes de dormir. Simples assim.
A seleção natural agirá, não tenho dúvidas. Até as pessoas mais religiosas que conheço estão condenando o radicalismo do bispo. Sua atitude mais gera antipatia do que traz pessoas para o caminho da fé. Não tenho dúvida, se o personagem Jesus existisse, colocaria uma pedra em suas mãos e perguntaria se teria o padre coragem de atirá-la em qualquer um dos personagens desta tragédia. Eu teria, e não seria no estuprador, possivelmente uma pessoa extremamente doente.
Hoje lembrei de tudo que vivi e que relatei no quarto parágrafo, mais acima. Como falei, por 16 anos fui bastante religioso. Só há 11 venho seguindo esta doutrina mais, digamos, científica. Queira eu ou não, passei mais tempo de minha vida devotando Jesus, e não Darwin. Mas nunca me arrependi desta primeira etapa de minha história. Até hoje. Porque hoje senti nojo. Hoje tive vontade de voltar no tempo. De vomitar todas a ósteas que ingeri. De cabular todas as aulas de religião. De devolver todas as bençãos que recebi de meus tios, de meus avós. De dizer ao padre: “eu até errei em minha vida, mas não é a gente como você que eu devo qualquer satisfação.”
Que a equipe médica que cuidou do caso continue salvando mais e mais vidas (não os vejo como alguém que tirou a vida de dois fetos, mas sim alguém que garantiu a vida de uma criança de 9 anos). Que a família encontre a paz o quanto antes. Que os psicólogos ajudem ao máximo esta criança a superar este terrível trauma. E que este maldito bispo uma dia venha a público pedir perdão por seu radicalismo.


Eu li sua matéria, e vc deve saber q este assunto é bem polêmico, e que provalvemente terá recados com pessoas discordando de vc 100%, e algumas outras q concordem. Mais acho q é justamente esta a sua intenção, colocar sua opinião sem se importar se está nadando a favor da maré, ou contra.
Vc tem uma forma de pensar, digamos q eu concorde com vc em termos.
A respeito da atitude que o bispo tomou com a ‘criança’, concordo com vc, pois ela não teve culpa, foi uma fatalidade q aconteceu. Uma criança de 9 anos NÃO tem o corpo totalmente formado, portanto, estaria correndo um grave risco de vida, e se esses bebês nascessem, pense o trauma q sofreriam ao saber q foram gerados de forma tão brutal.
Não sou a favor do aborto, mais tem excessões, tenho uma cabeça q me faz raciocinar, e me colocar na pele desta família, neste caso sim, concordei com o aborto pq foi necessário.
E sobre vc não acreditar em Deus, sei q oq eu disser aqui não vai mudar da água p/ o vinho oq vc pensa, mais só vou falar uma coisa, o sol nasce p/ todos, independente de vc crer n’Ele ou não, mais sentir a Sua presença é algo q vai além do natural, é algo sobrenatural, e isso, só quem crê n’Ele sente.
Estou convidando pessoas que queiram me ajudar com essa iniciativa: Movimento “Me Excomunga, Senhor!”
Vamos esvaziar a Igreja Católica.
http://www.orkut.com.br/Main#Community.a...
A idéia é começar pelo orkut e depois criarmos uma comunidade independente.
Hmmm… Não sei se sou a favor deste tipo de movimento. Deixa eu explicar: odeio quando algum religioso vem tentar me converter à sua religião. Acho inclusive que este é o segundo maior mal da humanidade. O primeiro seria tentar extingüir um grupo por conta de sua cultura (que aqui cabe a sua religião). Esvaziar a Igreja Católica? Parece um pouco dos dois. Um pouco de “se converta ao ateísmo”, e um pouco de “vamos acabar com os católicos”. Quando acho que a “Igreja Evangélica”, não os evangélicos, é muito mais passível de questionamentos e até mesmo de protestos.
Marlos, veja a coisa (a criação da comunidade) pelo lado “cômico”, cômico no sentido mais aristotélico: de expurgar os vícios da raça humana. É no mínimo, divertido, se é que ha diversão nisso tudo!?!
Como humor negro, até passa. Acho que por isso aprovei o comentário. O medo é alguém levar a sério demais a brincadeira.
Marlos… O que esperar de declaração sobre esse assunto, saindo da boca de alguém que detem um alto cargo do clero ? É chover no molhado se indignar em relação a isso.
Não que eu defenda cegamente aquele senhor mas, até onde pude acompanhar, tudo isso me pareceu pauta de imprensa pra vender jornal, e dar ibope pra emissoras. Concordo com quase tudo que você postou, mas aquele senhor não convocou a imprensa para emitir sua opinião. O origem da polêmica se deu em sentido contrário, pelo fato da imprensa ter corrido atrás de opinião óbvia.
Um paralelo bem simplista seria a hipótese do Governo impor merenda somente a base de carne de porco nas escolas públicas, e correrem atrás de um rabino pra saber a opinião dele… hehehe
É que nem ser picado por uma cobra, ser mordido por tubarão, e jogar toda culpa no animal sem assumir a sua própria de ter invadido espaço alheio. O bicho tá lá quieto no lugar dele, sua dieta passa longe se basear em seres humanos, é só não provocar.
Perguntaram… Ele exerceu o direito de liberdade de expressão dele, baseado em suas convicções.
Por mais que critiquemos, as regras daquela ingreja são claras, e como não estamos mais na idade média, em discordando, ninguem vai mais pra fogueira… Basta se “desfiliar”, já que aquela doutrina não atende aos anseios.
Sou um crítico (longe de ser ferrenho) de religiões, mas convenhamos. Não dá pra se pensar em um catolicismo light, um islamismo diet, nem um judaismo zero caloria. Não dá pra imaginar fé como um protocolo de intenções…”Ok Deus, vou ser bonzinho e só quero coisas boas pra mim”…
Fé é um processo complexo, você sabe bem disso, e passa longe de ser facilmente entendido ou aceito de pronto. Conheço muitos casos de gente posta às piores provas, e nem por isso arredaram um milimetro de sua crença. Dava pra passar horas aqui debatendo isso.
É estranho debater por aqui… hehehehehehehehe… Parece que vai faltar espaço pra escrever mais, por isso prefiro encurtar a conversa pra gente retomar um dia, quem sabe.
Grande abraço
No dia que escrevi sobre assunto, poucas eram as publicações que trataram do assunto com comentários, e não somente reverberando a notícia. E só escrevi porque achei que estava sendo pouco debatido o tema (já meio que me prometi evitar entrar em assunto muito discutido porque facilmente se encontra alguém por aí levantando argumentos bem mais interessantes que o meu). Só no dia seguinte a coisa pegou na net e começaram a eclodir vários artigos a respeito.
Notei 3 posições mais comuns dentre estes articulas:
1- A grande maioria concorda comigo em parte ou no todo. Escrevem mais com emoção do que com a razão, assim como eu.
2- Uma parte pró-aborto, até uma parte contra-aborto, acha o posicionamento do bispo bem correto junto às suas convicções, mas seguindo uma doutrina ultrapassada. Parece ser o seu caso, e acho ser esta a opinião mais serena.
3- Uma minoria mais conservadora está com o bispo e não abre mão.
O que mais me chamou a atenção é que mesmo os católicos mais fervorosos que conheço pessoalmente estão se posicionando contra os dizeres do bispo. Falo de senhores de idade que vão à missa mais de uma vez por semana, que possuem capela em suas residências, e que julgam a atitude do padre uma grosseria contra alguém que passou por momento tão delicado. Por isso falei da seleção natural. Este posicionamento gerou antipatia até nos mais simpáticos à causa.
Eu, no lugar do bispo, mesmo contra o aborto, teria reprovado sim a decisão, mas deixaria as portas da Igreja aberta para que os mesmos pudessem se arrepender e retomar o caminho da fé. Algo assim seria mais coerente com uma religião que hoje reclama (com certa razão, não posso negar) a patente pelo resto de bondade existente nos corações ocidentais.
Realmente me insiro na opção 2, mas exatamente no lado pró-aborto.
Antes de escrever o que vem no próximo parágrafo, deixa eu esclarecer… O comentário do arcebispo, na minha opinião, apesar do que eu disse no post inicial em relação a como essa polêmica foi originada, foi irremediavelmente grosseiro e inoportuno. E pensar que no lugar dele já esteve Dom Helder Câmara, que pensaria duas vezes antes de fazer um comentário desses, ainda que provocado.
Mas preciso trazer luz à razão em relação ao seu último parágrafo… Com base em link que está em um dos seus “Pensando Alto..”, o bispo agiu exatamente dessa forma como você discorreu, com o seguinte comentário no final da matéria:
“O excomungado não pode receber eucaristia nem outros sacramentos, mas isso não quer dizer que a pessoa não pode se arrepender e voltar atrás. No dia em que a pessoa se arrepender profundamente e procurar a Igreja, será absolvida e acolhida”.
As portas da igreja católica estão sempre abertas a quem se arrepender…
Grande abraço
Adorei seu post.
Não sou a favor do aborto. Tem que ficar bem claro a diferença entre “ser a favor do aborto” e ser a favor do “direito ao aborto”, este sim, sou completamente favorável.
Quem é contra, não aborte!
A propósito: Como se faz para também ser excomungada?
Abraços
resposta para o bispo…se eu fosse uma das excomungadas: ham-ram…blz…te encontro no INFERNO, então!
Realmente, esse Sr. que se diz Bispo é um alucinado inconsequente e hipocrita. Ao invez de tentar passar tranquilidade para essa criança que teve sua inocencia, aos “nove” anos de idade violada e destruida por um desgraçado, que na minha opinião – Sr. Bispo – deveria ser apedrejado em praça publica por todos os brasileiros que se ancontram em estado de indignação, como eu. O Sr. deveria estar fazendo campanha para mandar esse maldito para o inferno de uma vez, e se pudesse pedia ao representante de Deus na Terra (Papa Bento XVI), para pedir ao mestre para que esse monstro fosse vivo para o inferno, para ser violentado pelo capiroto. Mas eu também não sou bobo e acho que é bem mais fácil excomungar a família. Dá mais notoriedade, não é Sr. Bispo? Aparece no Fantastico, no Jornal Nacional.
O Sr é um Hipocrita, e com H maiúsculo.
TAMBÉM QUER SER EXCOMUNGADO.