A notícia é até antiga, mas o que você sente ao ler que um jovem foi assassinado por conta de R$0,40 (quarenta centavos de real)? Que tal situação é absurda pois a vida não tem preço? Não. Este é o seu segundo pensamento. O primeiro é de que uma vida se foi por conta de uma quantia muito pequena de dinheiro. Só depois você se toca que mesmo se fosse o milhão de reais do Big Brother, ainda assim não seria maior que o valor da vida de alguém.
Mas essa não é nem a questão que quero debater. Quero apenas saber: o que você pensa quando descobre que uma pessoa só doa sangue para fazer concurso público gratuitamente? Provavelmente reprova tal atitude. Não tão quanto a do marginal que tira uma vida por conta de quarenta centavos, mas reprova. E eu pergunto: por quê?
Pergunto mais: por que, para fazer o mal, a pessoa deve ser recompensada, e, para fazer o bem, não?
O quê? Você nunca percebeu? Ou nunca ouviu a expressão: “Fulano foi para a cadeia de graça”? Talvez seja só uma expressão, não é mesmo? Mas pense bem: se você quer fazer maudades, você pode muito bem virar um matador de aluguel (que cobra mais que quarenta centavos, por favor). Já para fazer o bem, você precisa atuar junto a uma organização sem fins lucrativos. Por que, para fazer o mal, eu posso alugar meus serviços, mas, para fazer o bem, eu não posso ter fins lucrativos?
Comecei a me questionar assim quando li num panfleto que os doadores não deveriam doar sangue apenas para fazerem concurso público gratuitamente. “Porque a bondade não deve ser recompensada”, foi o que pude obter como resposta ao me tocar que este tipo de pensamento norteia grande parte de nossa sociedade. A começar pela igreja e seu sem sentido voto de pobreza; passando pelas políticas culturais, que prevêem nas leis de incentivo remuneração para todas as partes envolvidas numa produção cultural, menos para seu gestor; e servindo de base em todo e qualquer ato humanitário.
Diz a lenda, a recompensa educa bem mais que o castigo. Por isso não se deve bater em crianças quando cometem ruindades, mas sim presenteá-las ao agirem corretamente. O mesmo serve para adestramento de animais. No entanto, nossa sociedade pensa o contrário. Assim, para agir de boa fé, tantas vezes o indivíduo precisa praticamente simular um pedido de desculpas: “Queria deixar bem claro que não estou ganhando nada ao doar metade da minha fortuna para esta boa causa”. Qual o problema se tivesse ganhando algo? Porque se fizerem como Bono Vox, Xuxa, Madonna e Angelina Jolie, que trocam boas ações por mídia expontânea, ou como a Rede Globo, que foi acusada ano passado de debater de seus impostos boa parte das doações recebidas pelo Criança Esperança, provavelmente ficarão mal na fita.
Concluo este festival de interrogações com mais algumas: se doador de sangue pagasse meia entrada no cinema, faltaria tanto sangue em nossos bancos? Se cada edificação ganhasse um desconto no IPTU proporcional à quantidade de árvores existentes em seu terreno, teríamos uma cidade cada vez menos arborizada? Se fosse criado um ranking de consumo de energia, onde, digamos, os 10% que menos consomem fossem remunerados com parte dos lucros da companhia energética, teríamos tanto desperdício de energia? Poderíamos pensar da mesma forma quanto ao desperdício de água?
Enfim… São só algumas idéias.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 28/03/08 às 0h39 nas seções Atitude & Comportamento, Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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gostei!
Mas cara… Realmente, os doadores não deveriam doar sangue tão somente para fazerem concurso público gratuitamente.
A espontaneidade seria o mundo perfeito, e décadas atrás essa era uma questão que me irritava bastante: por que diabos a pessoa tem que ser recompensada pra fazer o bem?
Atualmente concordo 100% com teu pensamento, e me arrisco até a ir mais adiante. Todo mundo, pessoa fisica ou juridica, deveria sim ser recompensada por fazer o bem.
Afinal é da natureza humana, o cara trocar uma lata de leite para assistir jogo de futebol. Se é por ai, então juntemos o inutil ao necessário e premente.
Vejamos por um lado, aproveitando as noticias oficiais que nos chegam pelas mídias… O país vai muito bem, obrigado. A arrecadação de impostos do governo federal em fevereiro foi superior a do ano passado (na mesma época), mesmo com a extinção da CPMF. Todo mundo reclama de carga tributária… De outro lado tem gente que precisa de ajuda na saúde, independente de raça, cor, credo ou classe sosial, muitas vezes morrendo antes de chegar sua vez em filas de doação de órgãos.
Por que não:
- Esticar a licença maternidade para as mães que doarem o excesso de leite materno para os bancos de leite públicos?
- Dar desconto no imposto de renda, e/ou outros tipos de incentivos fiscais, para quem de forma expontanea doar regularmente sangue e medula, e se declarar oficialmente doador de órgãos quando partir dessa pra melhor?
- Oferecer o mesmo tipo de incentivo as empresas que investirem parte de seus recursos em melhoramento de projetos educacionais, num esquema talvez “adote uma escola publica”? A redução da carga tributária no faturamento desses - ao menos em tese - seria refletido no preço final de seus produtos.
E por ai vai mais um sem fim de idéias simples nesse sentido… Deu uma vontade da bexiga de ligar pros sujeitos que votei nas ultimas eleições pra debater o assunto. Afinal esse tipo de coisa só vai pra frente se a sociedade oragnizada se movimentar.
Parece utópico, mas uma mão lava a outra e todo mundo sai ganhando.