Felizes daqueles que sabem rir de si mesmos

208 visita(s) | 30.01.2010 | 15h22 | Por Marlos Ápyus |
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Nove anos, dez meses e quinze dias. Foi todo o tempo que convivi com meu pai, meu ídolo maior. Como a lembrança mais antiga que trago já me remete à Bahia, onde morei dos dois aos seis anos, chuto que não curti sua presença por nem sete anos de minha vida. Passei mais tempo com meus amigos de colégio do que com meu pai, por exemplo.

Mas foi possível aprender com ele e ter para toda a minha vida algumas lições. E talvez a mais cara delas ocorreu quando entristecido voltei da escola reclamando que meus colegas de turma riam do tamanho avantajado de minha cabeça. E dele ouvi que não me importasse, mas aprendesse a rir com eles disto. Contou-me que viveu problema semelhante na sua juventude, mas que buscou curtir o momento até que a piada um dia naturalmente perdeu a graça e todos deixaram de contá-la. Diferente de se ele se deixasse magoar. Ficaria ruim para ele, ruim para as pessoas de bem que a contaram e queriam apenas se divertir, e ótimo para as pessoas “de mal” que queriam piorar seu dia e sabe lá quando se cansariam deste dever sádico.

Anos atrás estávamos todos de malas prontas e carros abastecidos para pularmos o carnaval em Tabatinga. Só faltava a frigideira. Que Luanda foi pegar em seu apartamento enquanto Rafael a esperava dentro do carro. Ao descer, ninguém mais a aguardava. Rafa só voltou a dar notícias uma hora depois. Fora largado num terreno baldio em Candelária. Além do seu carro, levaram bagagens, dinheiro, relógio, celular e toda nossa disposição para os quatro dias de folia.

Com todos abalados, lembro que pedi paciência pois tinha certeza que chegaria o momento em que todos nós estaríamos rindo daquela situação. E que bom que a primeira piada veio do próprio Rafael, já no dia seguinte, quando pediram a ele para ter cuidado na sua ida ao supermercado para comprar nosso jantar. Foi dele que ouvimos, em tom irônico, um “Por quê?!”

Feliz daqueles que sabem rir de si mesmos. Nisto, eu me julgo uma pessoa muito feliz. Todos sabem que não costumo ser a mais sortuda do mundo. Até porque não costumo esconder isto de ninguém. Mas consigo, mesmo com raiva, pensar no que estou vivendo e espremer a situação até que algo engraçado escorra dela. Como chorar em público por um chute levado na bunda de uma namorada e se desculpar dizendo que o que mais doía é que daquele momento em diante todas as músicas sertanejas passariam a fazer sentido.

Já há um tempo, o maior objeto de minhas piadas sou eu mesmo. Além do tamanho da minha cabeça, são alvos de meus ataques a minha baixa estatura, minha falta de jeito para dançar e se vestir, meu gosto para temas mais populares, meu jeito às vezes feminino até demais e qualquer outro deslize que eu venha a cometer. Não fosse a minha capacidade para olhar com bons olhos a maior parte dos problemas que enfrento, talvez fosse eu um recaldado embriagado de amarguras. Obrigado, pai, por ter me livrado deste fardo.

* * *

Seis parágrafos inteiros para dizer que não concordo com a dor daqueles que se ofenderam com as piadas “preconceituosas” do Rafael Cortez. Claro que têm o direito de não gostar, de se ofender, de não achar graça e de se retirar. A questão é que há opções e este direito não precisa se tornar um dever. Penso que todos estes seriam mais felizes se encarassem com melhor humor o bom humor alheio. E soubessem rir, mesmo que minimamente, da própria desgraça.

Em tempo: eu também não gostei muito do show do Rafael Cortez. Até porque entendo que ele está começando agora a trabalhar com stand up comedy e é nítido que falta a ele um pouco mais de experiência no entrosamento com a platéia. Mas pudemos encontrar com ele após a apresentação e se mostrou uma pessoa gente fina, serena e inteligente. E com bom senso. Assim como as demais pessoas que presenciaram sua apresentação e souberam discernir uma piada de uma ofensa.

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2 Respostas to “Felizes daqueles que sabem rir de si mesmos”

  1. Amigo, o problema é que você está pensando diferente demais e isso, em uma provincia, é perigoso. Rir? Só se for dos outros #sarcasmo

  2. Marlos Ápyus disse:

    Sobre a "mini polêmica" com as supostas piadas preconceituosas do Rafael Cortez ontem no TAM: http://migre.me/idB4

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