Gosto é como esfíncter: cada um tem os seus 42

48 visita(s) | 30.03.2009 | 7h16 | Por Marlos Ápyus |
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Boogie Nights é um dos filmes mais bacanas que já vi. Conta a história do submundo do cinema pornô nos anos 70. Lá pelas tantas, o diretor dos filmes termina mais uma de suas obras toscas e comenta emocionado algo como: “Este filme ficou sensacional. No futuro, quero ser lembrado por ter feito este trabalho”. Na mesma hora caí na risada. Não sem deixar de me incomodar o contraste entre a minha gargalhada e a emoção do personagem.

Foi quando lembrei do dia que ouvi pela primeira vez o então “finalmente finalizado” segundo álbum de minha banda, a Experiência Ápyus. Para cada faixa, uma história me vinha à mente. “Nostalgia” surgiu quando dirigia e ouvi no rádio uma homenagem ao então falecido rapper Sabotagem. “Nossa Casa” veio fruto de um agradável sábado a noite entre amigos. “L” se tratava de uma canção que fiz para uma ex-namorada. “Impaciência” nada mais era que o fora que levei de uma outra garota. E por aí ia. Cheio de referências, com o Papa Bento XVI declamando “fazei isto em memória de mim”, com a guitarra emulando sutilmente a abertura do Jornal Nacional, com um vocal citando de longe “Ela é Carioca”, com um solo de guitarra altamente inspirado em hits de Michael Jackson nos anos 80… Na conclusão da audição, pensei: “Pode ser até que eu não faça sucesso com estas canções e desista da música hoje mesmo. Mas um dia mostrarei isto a meus filhos e tenho muita fé de que os mesmos se orgulharão de mim.”

Alguma semelhança com o diretor dos filmes pornôs? Várias. Apesar de todo orgulho que sentia pelo trabalho realizado, não tenho dúvidas que, filmado este momento, e apresentando o mesmo a um maestro de orquestra sinfônica, por exemplo, arrancaria risadas inesperadas assim como arrancou em mim Boogie Nights.

Em Alta Fidelidade, o personagem principal defende que as pessoas não gostam uma das outras pelo que elas são, mas pelo que elas gostam. Talvez por isso o dito cujo de maneira quase obsessiva passe as duas horas do longa gravando fitas cassetes com canções para serem presenteadas. No seu universo, a música é a base para se gostar de alguém. O que talvez ele não entenda é que aquelas cinco canções não são registradas pensando no bem do presenteado, mas sim buscando uma conexão que possa existir entre ambos. Eu já vivi isso, quando presenteei uma ex-namorada com as “antologias” dos Beatles mesmo nunca tendo visto ela comentar nada sobre os quatros rapazes de Liverpool. Era quase um teste: se ela gostasse daquilo, nossa relação seria fortalecida. Mas, até onde lembro, o presente serviu muito mais para a mãe dela.

Sim, é verdade: nós gostamos muito mais das pessoas pelo que elas gostam do que pelo que elas são. Foi assim que fiz a maioria dos meus amigos. Se o cara dizia que gostava de cerveja, vaquejada e rapariga, eu logo me afastava. Mas se cantarolava alguma canção do Pearl Jam, eu esticava a mão e… Prazer! Marlos Ápyus. Mas se é assim, significa que é certo ser assim? O problema é que nós temos mania de achar que o nosso gosto é o melhor do mundo, e esquecemos que, dependendo do referencial, nós não passamos de uns bostinhas aguardando num vaso uma descarga daquelas.

Jackson, assim como Maurício, tocava em bandas de pagodes “quebradeiras”. Luís era um vaqueiro que sempre chegava à aula de botas e com a calça manchada de estrume de vaca. Pablo é um dos playboys mais tiradores de onda que conheço. Thalles era outro. Andréa era tão fresca que achava nojento molhar o pão no café. Thiago aprontava tanto que virou persona non grata no Pittsburg. Leonardo, outro dia, contava vantagem de voltar dirigindo bêbado de uma festa. A vantagem que Rodrigo conta é de ter iniciado várias pessoas na maconha. Maria tem como maior ídolo ninguém menos do que Xuxa. Nicolas é fã de metranca. Anderson vive de bermuda e barba por fazer, faça chuva ou sol. Daniela fuma duas caixas de cigarro todo santo dia. Luciana prefere quando o filme é dublado. Ana se apaixonou pelo cara mais sem futuro que conheço.

São todos pessoas que possuem hábitos com os quais não concordo. Mas nem por isso nenhum deixou de ser meu amigo. Uns continuam próximos, outros se distanciaram naturalmente. Contudo, se eu colocasse na prática o “só gosto de você se você gostar do que eu gosto”, poucos amigos teria eu em vida. E não se trata de fazer concessões, mas sim de respeitar as pessoas pelo que elas são. E assim unirmo-nos pela afinidades, e não distanciarmo-nos pela diferenças.

É por NÃO colocar em prática esta simples idéia que plantam-se sementes que, ao germinarem, fazem com que corintianos matem palmeirenses, abecedistas matem americanos, punks matem emos, funkeiros matem pagodeiros, neo-nazistas matem negros, palestinos matem judeus, e assim por diante.

Uma coisa é odiar algo. Outra coisa é odiar alguém só porque não odeia algo. Assim como uma coisa é algo ser ruim, e outra é achar algo ruim. Quem sou eu para setenciar que o Cordel do Fogo Encantado é uma banda ruim? Meu voto vale mais que o daqueles dez mil que lotam a praça cívica ano após ano para os verem tocar? Por isso, quando comento, digo que eu, Marlos Ápyus, pessoa física, acho o Cordel do Fogo Encantado uma farsa. Assim como acho uma farsa o prato do Estupendo, o chocolate da Kopenhagen ou filmes com um elenco majoritariamente global. Mas minha mãe nem acha e adora o “Se Eu Fosse Você 2″. Por que meu voto vale mais que o de minha mãe? Ou mais que os cinco milhões de brasileiros que correram ao cinema para assistir a este longa?

Contudo, quase ninguém que eu conheço pensa assim. E vivem não só de julgar, mas em alguns casos de já condenar, por se gostar disso ou daquilo: “Fica quieto que você gosta de Teatro Mágico”, “Eu acho deprimente essa gente que assiste BBB”, “Não discuto com quem não entendeu 2001 uma Odisséia no Espaço”, “Não acredito que você pediu no amigo secreto um boneco do Wall-E”, “É que você não fuma maconha e não tinha nada a ver você estar ali com a gente”. Já ouvi isso tudo e muito mais. E acho deveras injusto. Porque eu tolero tão na boa o fato de o cara se meter numa roda de pogo e se quebrar no meio de uma ruma de moleque de camisa preta, mas ele me recrimina porque eu fui ao show do Teatro Mágico e bati palma. Porque eu tolero tão na boa o fato de o cara não saber a diferença entre Jorge Cícero e Jessier Quirino, mas para ele eu sou um nada porque não sei a diferença entre Dostoievsky e Dr. Manhatam. Porque eu tolero tão na boa a pessoa ser fã de Smallville e ela me acha deprimente porque assisto ao BBB. Faz ela idéia que assisto ao BBB para desopilar depois de uma jornada de quase 12 horas de trabalho? E que não dá para desopilar assistindo Laranja Mecânica?

Eu prefiro gostar das pessoas pelo que elas são a viver arrotando ao mundo meu gosto pessoal como se o mesmo se tratasse de uma obra de arte lapidada há anos pela natureza e fosse assim merecedora da admiração alheia. É isso.

Para referências bibliográficas, clique aqui.

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Uma resposta to “Gosto é como esfíncter: cada um tem os seus 42”

  1. Patrício Jr. disse:

    É, rapaz, o problema é que algumas pessoas se tornam o que elas gostam. Tenho amigas frescas, mas elas não deixam isso ser maior do que têm de bom. Tenho amigos maconheiros. Mas eles sabem falar de outra coisa além de maconha. Tenho amigos intelectuais. Mas eles assistem o BBB de vez em qdo. Enfim, é só uma questão de não ser exclusivamente as coisas que vc gosta. Pq aí vc dá margem aos outros gosterm ou não de vc tendo como parâmetro seus gostos.

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