Era um filme bem idiota. Um museu de história natural que ganhava vida e atormentava o segurança do edifício. Mas não era nada muito além do que eu queria num domingo a noite onde buscava relaxar e aguardar uma segunda-feira dos infernos. Contudo, mesmo se tratando de uma comédia, me tirou de tempo um ser histérico que da poltrona em frente à minha incomodava toda a sala do cinema com seus comentários inoportunos em altíssimo volume.
Todo o público presente girava a cabeça buscando o responsável por tamanho incômodo. E naquele momento acreditava eu ser aquele que precisava fazer o serviço sujo de pedir ao bagunceiro que se comportasse (já que de nada adiantou esperar alguma atitude da administração do Cinemark). Assim sendo, em tom não muito amigável - confesso - mas com estas palavras, pedi ao dito cujo que se controlasse. Foi quando o desgraçado se levantou e se revelou um brutamonte questionador de minha masculinidade, chamando-me para a briga. Não tendo uma tréplica de minha parte, voltou a se sentar.
Não sabia ele que minha mão buscava em minha bolsa uma tesoura que sempre carrego para aparar minhas unhas segundos antes de alguma apresentação. E o algoritmo era simples: encaixava a ferramenta entre os dedos indicador e médio e, com a ponta da tesoura aplicava uma tapão de direita que lhe perfurava ouvido e atingia o cérebro. Antes que sua namorada em prantos percebesse o ocorrido, e a administração do Cinemark acendesse as luzes, já estaria eu no estacionamento arrancando a toda para me livrar da arma do crime. As câmeras de segurança me filmariam e eu daria alguns depoimentos nos telejornais. Alguns trabalhos atrasariam, mas depois que eu entrasse com as dezenas de recursos que a lei me permite, retomaria as atividades sem qualquer problema. Porque não sou pobre. Porque tenho um diploma que só me servirá nessas horas. Porque vivo no Brasil. E até porque muitos concordariam que bagunceiros no cinema merecem a morte.
Mas não. Apesar de todo este plano maquiavélico ter sido lido e relido três vezes mentalmente, decidi engolir o sapo e abandonar a sala de cinema tão magoado que hoje, meses depois, ainda sei relatar a cena com inúmeros detalhes. Porque eu estava equivocado e há sim justiça no Brasil? Não. Porque um dia meu pai me ensinou que há coisas erradas e certas. E que devemos fazer as certas e evitar as erradas.
Mas nem sempre tenho essa consciência. Infeliz, ou felizmente, no mesmo momento em que a justiça deixou de ser inoperante. Como na vez que por dois segundos cruzei o sinal vermelho, fui fotografado e agraciado com um prejuízo de quase meio salário mínimo. Horas de trabalho suado escorrendo por conta de um par de segundos. A verdade é que eu podia ter em dois telefonemas para uns conhecidos ter livrado essa multa. Mas lembrei da lição paterna e achei por bem abrir a carteira. Quer saber o resultado? Hoje, quando acende o sinal amarelo, em vez de acelerar, eu freio.
A justiça educa. E nós, quase que por um instinto animal, tantas vezes só nos deixamos aprender quando sentimos na pele a dor que a falta de disciplina nos causa. Como meu sobrinho de dois anos de idade, que adorava apertar todos os botões do aparelho de som daqui de casa mesmo sob os protestos dos pais. Até que no fim de semana passado puxou de cima do som um CD que servia de base para uma pilha de mais de quarenta outros. E assim viu toda uma indústria musical desabar sobre sua testa, levando-lhe às lágrimas. A justiça foi feita. Por vias das ironias do destino. Mas a verdade é que atualmente o moleque não mais se aproxima do microsystem.
Hoje me arrependo do episódio do cinema. Porque nenhuma justiça foi feita. Não porque não me senti vingado das ameaças de surra. Mas porque não reeduquei o bagunceiro de forma a fazê-lo entender que aquela não era uma postura adequada para o momento e lugar. Devia eu ter cobrado atitude da administração do Cinemark. Não encontrando nela, poderia subir a patente e conversar com a do próprio Midway Mall. E assim ir galgando degraus até um dia, em sendo o caso, papear com o Papa. Mas tenho certeza que o pobre lanterninha, mesmo mirrado e sem porte físico para desmoralizar o brutamonte, já teria agido de forma a solucionar a questão.
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