Há quatro meses, ao voltar de uma festa, minha irmã e seu marido foram derrubados da moto. Mas não: o motorista que os fez cair não estava bêbado, apesar de ter assumido total responsabilidade pela irregularidade que cometia. Contudo, menos de dois minutos após o acidente, uma caminhonete dirigida por um playboy embriagado passou por cima da motocicleta arrastando-a pela avenida. Só parou porque a população por perto aos berros abriu a porta do veículo e deram a ordem. Por sorte o casal já havia se levantado e pouco aconteceu além do susto. Tivesse o tal bêbado saído dois minutos antes, minha irmã e meu cunhado possivelmente não estariam mais por aqui.
Imediatamente recordo de amigos meus. Amigos bem próximos. Eles sabem quem são pois costumam ler estas palavras. Não são pessoas desinformadas, não são pessoas fúteis, não são playboys, nada disso. São pessoas de bem, engajadas, estudadas, graduadas e pós-graduadas. Publicitários, jornalistas, advogados. Numa confraternização de final de ano estavam lá, uns 3 ou 4, confessando aos demais, achando certa graça até, que costumavam dirigir bêbados ao voltar de suas baladas. Poderia algum desses meus amigos ter atropelado a minha irmã e arrastado sua moto pelo asfalto? Que passam pela mesma Engenheiro Roberto Freire quando voltam do Sargent Pepers, disso não tenho dúvidas.
Tenho alergia a crustáceos. Descobri na adolescência. Um dia comi uma lagosta, quase que minha garganta fecha e deixo de respirar. Aquele prato saboroso poderia ter me matado. Desde então não sei o que é comer algo como um caranguejo. Nem sofro por isso. E olhe que vivemos na terra do camarão. Meu amigos vivem me convidando para acompanhá-los em restaurantes especializados em frutos do mar e nem me impedir de aceitar o convite essa alergia me impede. Chamo o garçom de lado, peço um filé à parmegiana e me sacio. Não há guloseima no mundo que valha mais que a companhia dos meus amigos.
Tudo isso para dizer o quanto acho absurdo a choradeira que estão fazendo com o bombom de licor. Dezenas de milhares de vidas vão embora todo ano por conta de pessoas que dirigem bêbadas e estão achando ruim porque não poderão mais comer bombom de licor e pegar no volante. Olha que problemão: você quer comer o bombom de licor e não pode porque vai voltar dirigindo. Agora conta o quanto isso é sofrível para minha tia que perdeu o filho mais velho por conta de um motorista bêbado que o atropelou. E nem argumente que a multa é alta pois nem multa deveria ter. Era para ser cadeia sem fiança para pessoas assim.
Há quase 20 anos, lembro muito bem, polêmica igual ocorria por conta do cinto de segurança. Todo mundo achava um absurdo ser obrigado a usá-lo. Era incômodo. Amassava a roupa. Apertava. E olha que o não uso do dito cujo só prejudicava quem o deixava de usar. Já um bêbado pode levar embora a vida de muita gente. Mas vejam que maravilha: hoje todo mundo usa cinto de segurança e nem acha ruim.
Outro argumento absurdo é defender que tal da lei seca só alimenta mais corrupção da parte dos policiais. Se o pensamento for este, rasguem logo a constituição. Porque toda lei é passível da ação de corruptos. E não podemos deixar de criá-las porque tais vermes podem usá-la em benefício próprio. O erro não está na lei, mas nos bandidos. Combata-se então estes, e não essa.
Por quase fim: sabe aquele avião que caiu em São Paulo ano passado? Quantas pessoas morreram mesmo? Duzentas pessoas? Foi triste, não foi? Eu fiquei alguns dias mal com a notícia. Creio que você ficou também. Menos que quando derrubaram as torres gêmeas no onze de tetembro. Afinal, lá três mil vidas se foram. Triste, não é? Agora anota este número: 254 mil. Não é 254 e pronto. É 254 MIL, assim, em caixa alta. Mais que os pagantes de três finais da Libertadores da América no Maracanã. Mais que a população de Mossoró. Quase a mesma quantidade de mortos do tsunami que destruiu parte da Ásia há alguns anos. Anotou? Pois bem… Foi a quantidade de brasileiros que morreram no trânsito de 2000 para cá. Destes, pelo menos 125 mil foram vítimas do álcool. Dá para se revoltar com o bombom de licor? Que tal transferir a revolta para o comercial da cerveja?
A lei seca é mais que bem vinda. É extremamente necessária. Se não há escola, colégio, faculdade ou mestrado que coloque na cabeça das pessoas, sejam elas pedreiros, jornalistas, publicitário ou advogados, que beber e dirigir mata e mata muita gente, que o medo da multa, ou ao menos do guarda que lhe extorquirá, os coloque na linha.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 4/07/08 às 0h30 nas seções Capas, Política & Economia. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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Isso mesmo Marlos. Mamãe escreveu um texto sobre isso pra um jornal da paraíba essa semana. Ela fala o que parece que ninguém entende: não é proibido beber, vc pode beber até cair. Só não pode dirigir em seguida.
E pra aqueles que dizem ” mas nem uma dose de wisky? nem duas taças de vinho, nem um chopp?!?!”, é muito fácil. Pergunta se eles deixariam um filho ou a própria mãe ser operada por um médico que tomou 2 taças de vinho, uma cervejazinha no almoço, ou uma dose de wisky pra relaxar antes da cirurgia? NÃO DEIXARIAM MESMO!
É a mesma coisa, direção exige concentração, habilidade e destreza altamente prejudicadas pelo alcool. Nunca mais quero voltar alcoolizada dirigindo. Bebo pouco e quase nunca mas, na próxima, voltarei de táxi ou de carona contigo!
concordo, tudo poderia ser bem mais simples sem hipocrisia… sabem que nao devem beber e dirigir, sabem que tem um efeito no tempo de reaçao e ainda assim o fazem…
quanto ao uso do cinto, o nao uso do mesmo nao só pode prejudicar a quem nao o usa como a outros passageiros do veiculo que estejam usando o cinto ou nao. até mesmo um pacote que vc deixa solto dentro do carro pode virar uma arma fatal no impacto de um acidente. pensem nisso e procurem transpotar objetos no porta-malas.