Feliz do ser humano que sabe valorizar o que vive. Eis uma espécie em extinção. Ninguém é feliz, mas já foi e não sabia. O passado parece sempre maior que o futuro. O presente, como se não existisse, não conta. Os paulistas querem as praias potiguares, os potiguares, a avenida Paulista. Os europeus querem o calor, os brasilerios, o frio. Ninguém quer ficar, todos fugirão assim que juntarem uma grana. O jardim do vizinho é sempre mais verde.
Eis a palavra: fuga. Eis outra palavra: preguiça. Na preguiça de consertar o próprio jardim, foge-se não para o jardim, mas para o quintal do vizinho, sempre mais belo, mais culto, mais pomposo, com mais oportunidades, mais futuro que passado. Até que o quintal do vizinho passe a ser seu. Então descobre-se: a felicidade em seu jardim morava e ninguém sabia.
Feliz do ser humano que sabe se valorizar. A década de oitenta era a década perdida. A década de oitenta virou a década boa. Os anos dois mil querem os anos 80. Os anos 80 querem se atualizar, mas não conseguem. A década do vizinho é sempre mais bela, mais culta, mais pomposa, com mais oportunidades, mais futuro que passado.
Feliz do ser humano que sabe valorizar o próprio tempo e espaço.
Mais do que nunca quer-se o do outro. Menos do que nunca olha-se pro próprio rabo. Cada macaco, com seus rabos desvalorizados, num galho alheio. Talvez por conta da TV, talvez por conta da Internet. Não quero minha vida: quero a vida que me salta aos olhos de dentro desta caixa eletrônica. Quero ser encontrado no Google, sitonizado na cabo, aparecer no Fantástico, bater papo com o Pedro Bial. Não quero o nascer-crescer-reproduzir-morrer. Nasci em Macau: quero Natal. Nasci em Natal: quero Recife. Nasci em Recife: quero São Paulo. Nasci em São Paulo: quero Londres. Nasci em Londres: quero Natal. Aproveito e passo uns dias em Macau.
Quero o que não me pertence para, quando sob minhas posses, entender que o que me fazia feliz era o que já me pertencia desde o início. Quero o que não me pertence por medo de olhar-me no espelho. Por preguiça de consertar meu próprio espelho. Quero viver a vida que não me pertence.
Feliz do ser humano que quer viver (e vive) a própria vida.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 30/04/07 às 8h00 nas seções Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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rapaz, voce precisa considerar a possibilidade de muitas vezes não querer sair, não mudar, estar aparentemente bem e viver com isso, pode se chamar comodismo. eu acho bacana que os meus amigos de infancia tenham ficado em caico, e vivam bem lá, com seus cabarés, forrós, vaquejadas, politicagens, mas fico mais feliz ainda de eu ter fincado o pé por aqui, ter mudado, saído. e quero sair mais, mudar mais, ainda há tempo. deve ser complicado chegar a beira da morte e não ter certeza se poderia ter mudado algo no meio no caminho, se rebelado um pouco com seja la o que for. a vida está ai pra isso: nos dar alguns tapas na cara ou premios fantasticos. um dos dois a gente so sabe experimentando.
seu blog é melhor que o meu. Quero o seu!
O Levino sintetizou muito bem.
Tem dois aspectos a se considerar nesse post… Se o gramado ao lado todo esverdeado parecer melhor que o seu……. Porra, deixa de preguiça e corre atrás de conseguir o mesmo por esforço próprio!!! hehehehe
Outro aspecto é que algumas vezes precisamos mesmo de fuga (no sentido que foi colocado no texto) para podermos dar mais valor ao que está ao nosso alcance e muitas vezes não nos tocamos. Isso ajuda a amadurecer.
Não acredito em felicidade como filosofia de vida, e sim como estado de espírito. Posto isso me junto a sua tese que ninguém realmente consegue ser feliz. As pessoas, na prática, estão felizes quando alcançam suas metas pessoais. E muitas dessas metas nascem a partir da cobiça pelo que nos é alheio.