Exercitando o célebro Heroes - Euforia pouca é bobagem
abr 30

Feliz do ser humano que sabe valorizar o que vive. Eis uma espécie em extinção. Ninguém é feliz, mas já foi e não sabia. O passado parece sempre maior que o futuro. O presente, como se não existisse, não conta. Os paulistas querem as praias potiguares, os potiguares, a avenida Paulista. Os europeus querem o calor, os brasilerios, o frio. Ninguém quer ficar, todos fugirão assim que juntarem uma grana. O jardim do vizinho é sempre mais verde.

Eis a palavra: fuga. Eis outra palavra: preguiça. Na preguiça de consertar o próprio jardim, foge-se não para o jardim, mas para o quintal do vizinho, sempre mais belo, mais culto, mais pomposo, com mais oportunidades, mais futuro que passado. Até que o quintal do vizinho passe a ser seu. Então descobre-se: a felicidade em seu jardim morava e ninguém sabia.

Feliz do ser humano que sabe se valorizar. A década de oitenta era a década perdida. A década de oitenta virou a década boa. Os anos dois mil querem os anos 80. Os anos 80 querem se atualizar, mas não conseguem. A década do vizinho é sempre mais bela, mais culta, mais pomposa, com mais oportunidades, mais futuro que passado.

Feliz do ser humano que sabe valorizar o próprio tempo e espaço.

Mais do que nunca quer-se o do outro. Menos do que nunca olha-se pro próprio rabo. Cada macaco, com seus rabos desvalorizados, num galho alheio. Talvez por conta da TV, talvez por conta da Internet. Não quero minha vida: quero a vida que me salta aos olhos de dentro desta caixa eletrônica. Quero ser encontrado no Google, sitonizado na cabo, aparecer no Fantástico, bater papo com o Pedro Bial. Não quero o nascer-crescer-reproduzir-morrer. Nasci em Macau: quero Natal. Nasci em Natal: quero Recife. Nasci em Recife: quero São Paulo. Nasci em São Paulo: quero Londres. Nasci em Londres: quero Natal. Aproveito e passo uns dias em Macau.

Quero o que não me pertence para, quando sob minhas posses, entender que o que me fazia feliz era o que já me pertencia desde o início. Quero o que não me pertence por medo de olhar-me no espelho. Por preguiça de consertar meu próprio espelho. Quero viver a vida que não me pertence.

Feliz do ser humano que quer viver (e vive) a própria vida.

Escrito por Marlos Ápyus

Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte

Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 30/04/07 às 8h00 nas seções Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.

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3 Comentários para “O jardim do vizinho”

  • Às 30..2007 16:10, Levino escreveu:

    rapaz, voce precisa considerar a possibilidade de muitas vezes não querer sair, não mudar, estar aparentemente bem e viver com isso, pode se chamar comodismo. eu acho bacana que os meus amigos de infancia tenham ficado em caico, e vivam bem lá, com seus cabarés, forrós, vaquejadas, politicagens, mas fico mais feliz ainda de eu ter fincado o pé por aqui, ter mudado, saído. e quero sair mais, mudar mais, ainda há tempo. deve ser complicado chegar a beira da morte e não ter certeza se poderia ter mudado algo no meio no caminho, se rebelado um pouco com seja la o que for. a vida está ai pra isso: nos dar alguns tapas na cara ou premios fantasticos. um dos dois a gente so sabe experimentando.

    • Às 30..2007 21:37, foca escreveu:

      seu blog é melhor que o meu. Quero o seu!

      • Às 01..2007 18:37, Lord Audius escreveu:

        O Levino sintetizou muito bem.

        Tem dois aspectos a se considerar nesse post… Se o gramado ao lado todo esverdeado parecer melhor que o seu……. Porra, deixa de preguiça e corre atrás de conseguir o mesmo por esforço próprio!!! hehehehe

        Outro aspecto é que algumas vezes precisamos mesmo de fuga (no sentido que foi colocado no texto) para podermos dar mais valor ao que está ao nosso alcance e muitas vezes não nos tocamos. Isso ajuda a amadurecer.

        Não acredito em felicidade como filosofia de vida, e sim como estado de espírito. Posto isso me junto a sua tese que ninguém realmente consegue ser feliz. As pessoas, na prática, estão felizes quando alcançam suas metas pessoais. E muitas dessas metas nascem a partir da cobiça pelo que nos é alheio.

        (Obrigatório)
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        out 06

        Sempre julguei inconveniente se valer da expressão “eu já sabia”, mas de fato era bem previsível que hoje todos os jornais amanheceriam comemorando a “festa da democracia”. Que está muito mais para festa do que para democracia. Porque as eleições, de fato, se transformaram numa mera gincana, onde as equipes participantes, em vez de vencer corrida-no-saco ou arrecadar alimentos não-perecíveis para doação, possuem como único objetivo conquistar votos do povo. O melhor rumo a seguir? Políticas que devemos adotar? Qual candidato há de ser nosso representante nas decisões públicas? Nada disso é relevante. Vencer é o que importa, e nada mais. Se a competição fosse estourar bolas-de-encher, estariam todos os envolvidos igualmente dispostos, e teriam igualmente contribuído para o debate político junto ao eleitorado.

        set 18

        Uma criança muito feia nasce em alguma maternidade pública. O médico espantando com a falta de beleza do bebê, num lance de indelicadeza extrema, exclama diante da mãe:
        - Que bebê horrível!
        O bebê, por sua vez, vira para o médico e responde (responde!!!):
        - Horrível é o que vai acontecer com o Midway Mall em 30 de [...]

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