Talvez você não saiba, mas ao fazer qualquer busca no Google, toda um rotina para lá de complexa é seguida de forma a trazer a você os melhores resultados dentre o trilhão de páginas indexadas pelo sistema. Estima-se que em torno de duas centenas de fatores são pesados antes de decidir qual o melhor resultado a se apresentar. Por exemplo: se você pesquisa pelo termo “Beatles”, primeiro o Google procura sites que trazem esta expressão no endereço e confere a eles uma pontuação. Depois procura sites que a trazem no título (o nome que aparece na janela do seu navegador) e mais uma vez soma alguns pontos. Depois conta quantas vezes ela aparece na capa do site, e lá se vão mais pontos. E segue assim por diante respondendo aos mais de 200 campos deste formulário. Ao final os pontos são somados, é feito um ranking, e na primeira página surgem os dez primeiros lugares de forma bastante justa. Tudo isso em menos de meio segundo. A eficiência deste recurso é tanta que é ela a base de todo o império construído pela empresa.
Mas apesar de de tempos em tempos ser aperfeiçoado por seus técnicos para evitar fraudes, o Google é apenas um robô, um algoritmo cuja matemática é cega para a malícia humana. Por exemplo: quando da absolvição de Renan Calheiros, internautas se mobilizaram e conseguiram guiar sua lógica para associar o termo “vergonha” ao Senado Federal. Duvida? Corre lá no Google, digita “vergonha” e verifica o segundo site que lhe é sugerido.
Juristas acham lindo quando defendem que a justiça, assim como o já citado algoritmo, deve ser cega. No papel, realmente é uma beleza. Na vida real, é o que faz com que, por exemplo, pessoas como Daniel Dantas desfilem livres pelas ruas enquanto o delegado que o investigava vai a Brasília prestar esclarecimentos.
Hoje, 06 de agosto de 2008, os onze seres superiores do Supremo Tribunal Federal, após um dia inteiro de conversa, decidiram que políticos que já tenham sido condenados em primeira instância podem se candidatar nestas eleições. Engraçado que você, reles brasileiro, se na mesma situação, não pode prestar concurso público. Entenda bem: bandido dirigir a prefeitura de qualquer município? Pode. Bandido dirigir o caminhão de lixo? Não pode!
Uma destas excelências disse que não podia atender à vontade de 88% da população pois acima desta clamor popular havia de imperar a constituição, que diz que todos são inocentes até que se prove o contrário. Beleza. Mais uma vez é lindo no papel. Então faz o seguinte, meritíssimo: pega seu carro blindado de luxo com sua chapa branca, baixa o vidro, suba pelas ruas de qualquer favela, conta até cem e volta. Todos não são inocentes até que se prove o contrário? Então prove-me que é esta sua crença subindo o morro sem proteção.
Há quase vinte anos Daniel Dantas manda e desmanda nas esferas mais altas do poder, seja no governo Collor, FHC ou Lula. Estima-se que algo em torno de 3 bilhões de reais já escorreram dos cofres públicos para sua carteira. O dito cujo foi pego no flagra tentando comprar o delegado que o investigava com um milhão de reais. Sabe o que fizeram os seres superiores do Supremo? Colocaram os óculos, enxergaram apenas as brechas da constituição e soltaram Dandan. Porque enquanto o inquérito não for perfeito, o dono da marca Oportunity não será preso. Mas como fazer um inquérito perfeito em uma constituição imperfeita?
O STF, infelizmente, age como o robô do Google, matematicamente, de forma que um mais um é sempre igual a dois. Parece bom, mas nem sempre é. Visto o caso da “vergonha nacional” citado mais acima. Se era para ser tão técnico, para quê seres humanos, então? Por que não fazer como o Google e, em vez de gastar com mármore para suas edificações, usar toda a verba para desenvolver um super algoritmo, cadastrar cada pedacinho de nossas leis em seu banco de dados, e transformar nossos tribunais em formulários digitais, onde a única função do advogado seria preencher os campos certos, com as evidências já coletadas? Daí era só clicar em “enviar” e em menos de um segundo obter o veredicto. Assim os caros meritíssimos poderiam economizar suas salivas para falar mais sobre Aristóteles, que eles tanto adoram.
A justiça há sim de ser cega. Mas não há de ser irresponsável. Todos são inocentes até que se prove o contrário. Mas nem por isso deixo de colocar cerca-elétrica em minha residência. Pois no dia que for provado o contrário, pode ser que a prova seja uma bala em minha cabeça. Pesquisei para caramba o nome da promotora, não encontrei, mas vocês devem lembrar pois não faz muito tempo. Ela usou grampos ilegais para descobrir que Fernandinho Beira-Mar planejava matá-la. O que fez a tal justiça cega? Achou um absurdo o fato de ela usar um grampo ilegal. Mais ou menos como Gilmar Mendes que achou um absurdo usarem algemas em um cara suspeito de desviar 3 bilhões. Como essa promotora ousava usar um grampo ilegal contra uma pessoa que planejava matá-la?
Sabe o que aconteceu com a promotora? Foi morta dias depois. Agora lembrem o Capitão Nascimento. Imaginem que em vez de puxar pela gola da blusa do playboy que sobe o morro para cheirar pó, ele puxa a gola do paletó do juíz. E pergunta com sua delicadeza peculiar: “Quem matou a promotora?!” O juíz, com voz trêmula, responde: “Segundo Aristóteles…” E aí o Capitão Nascimento lhe interrompe com um tapa na cara: “Aristóteles é o caralho! Quem matou a promotora foi você com sua cegueira!”
Quantos reais inocentes hão de morrer para que essa justiça abra os olhos?
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 7/08/08 às 0h58 nas seções Capas, Política & Economia. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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