Texto originalmente publicado no JH Primeira Edição de 31 de julho de 2007 onde escrevo toda terça-feira na editoria de cultura
A cena possui 85 segundos e está no YouTube. Envolve um imortal da Academia Brasileira de Letras e a banda mais popular do Brasil atualmente. Esse, de corpo presente em uma palestra, cospe farpas contra este, que só é citado no vídeo. Não há qualquer referência quanto a tempo e local da gravação, mas pode-se arriscar que se deu nestes anos dois mil, que são jovens que gritam os “urrús” no auditório, e que se trata de uma das várias “aulas espetáculos” que Ariano Suassuna costuma dar em ambientes universitários para platéias predispostas a aplaudi-lo, fale ele o que falar da Banda Calypso.
O áudio não ajuda muito, mas começa com Ariano cantando em tom de deboche um trecho de uma canção dos paraenses. O “bom-bom-bom” dele vem seguido de gritos entusiasmados de seus fãs. Lá pelas tantas, sentencia o paraibano: “O sujeito que compôs essa música é imbecil, quem canta é, e quem gosta é também”. Gostaria de saber o que Suassuna pensa de João Gilberto, que em uma de suas raras composições canta: “Bim bom bim / bim bom bom / É só isso o meu baião / E não tem mais nada não / O meu coração pediu assim, só / Bim bom bim / bim bom bom”. Ou se ele também acha imbecil quem canta algo como “esse coqueiro que dá coco”. Ou ainda “há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei na sua boca”, um verso para lá de pobre, que se utiliza dos diminutivos para forçar uma rima, mas que saiu das penas de Vinícius de Morais.
O mérito da banda Calypso não é apenas a de ser a mais ouvida do Brasil estando ativa nos ouvidos de pelo menos 14% da população segundo pesquisa recente do DataFolha. É, na verdade, o de ter conseguido isso seguindo a máxima que sempre se atribuiu ao movimento punk mas que nada mais é que um instinto de sobrevivência da humanidade: quando ninguém faz por você, faça você mesmo. E do desejo inicial de vender mil discos, sem gravadora, sem apoio da mídia, sem música na novela, sob o preconceito dos ditos formadores de opinião, já se chegou às suas nove milhões de cópias vendidas, provando que, quando há empenho, a democracia deste país permite a mobilidade social.
Além de ser a pessoa por trás do Auto da Compadecida, aquele que em 1962 foi tido pelo crítico teatral Sábato Magaldi como “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”, é mérito de Ariano Suassuna o de ser o idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Desconheço o que costuma ser dito acerca de tal movimento, mas o entendo como sendo a tentativa de pegar o que é de todos e deixar ao alcance de alguns poucos. E pelo jeito conseguiu. Não é à toa que as aulas espetáculos deste militante da cultura brasileira se dão em ambiente universitário para uma elite (metida a) intelectual.
Já participei bastante desta elite. Principalmente com o acréscimo do conteúdo dos parênteses. Foram pelo menos 12 meses em pelo menos duas cadeiras tentando definir o que diabos seria essa tal de cultura. No fim de tudo, preferi entendê-la como aquilo que é típico de um povo. E esse típico não significa imutável. O que seria típico de uma geração não necessariamente seria de outra. Já foi da cultura do brasileiro deixar suas crianças brincarem na rua, valorizar o emprego dos bancários, aceitar mais facilmente pessoas preconceituosas, acreditar em políticos, acreditar num futuro melhor. Hoje em dia já faz parte da mesma cultura o uso da camisinha, do Orkut (é uma ferramenta bastante ativa na vida da maioria das pessoas pertencentes à minoria que tem acesso à internet), assim como dançar ao som da Banda Calypso.
Penso que Ariano é apenas mais um que não aceita essas mutações. Não entende que o que hoje é erudito um dia já foi popular e nem precisou de Movimento Armorial para tanto. Senão, que interferência teve Suassuna no Jazz, hoje um ritmo admirado por uma minoria elitizada, estudado a fundo nos melhores conservatórios, mas inicialmente um som negro e popular do século XIX? Ou ainda, o que há de popular nos caboclinhos? Quantas crianças dançam ciranda hoje em dia? E que cultura popular é essa defendida por ele que só se manifesta em projetos patrocinados pelo governo, casas de shows para turistas e aulas espetáculos?
Por isso, tratar como imbecil a Banda Calypso ou quem quer que goste de suas canções é, no mínimo, uma imbecilidade. É agir de forma preconceituosa para com o gosto alheio. Mas, acima de tudo, é uma tentativa de negar a autoridade do povo sobre sua própria cultura. Pois estas mesmas canções, vaiadas hoje em dia por universitários e imortais da ABL, em algumas décadas podem (devem) virar teses de doutorados, para não dizer “frutos de estudo em aulas espetáculos”. Mas aí, provavelmente, e talvez infelizmente, será do interesse apenas de uma minoria, eu diria, ínfima.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 1/08/07 às 8h00 nas seções Arte & Cultura, Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
A segunda parte dele depende de você. Comente, ou faça um trackback de seu site. Só não deixe de participar, contanto que se use do bom senso. A moderação é feita, na medida do possível, durante o dia, e só bloqueará comentários ricos em má-fé. Pretendo responder aos mesmos no período da noite.
Críticas construtivas são mais que bem vindas. Mas, por favor, evitem o anonimato. Contudo, cada caso será estudado em separado.






Mermão, esse post tá massa demais. Disse tudo que eu queria dizer sobre o assunto. Você tocou na ferida dos metidos a besta: preconceito, arrogância! Parabéns!
E o trecho “que cultura popular é essa defendida por ele que só se manifesta em projetos patrocinados pelo governo, casas de shows para turistas e aulas espetáculos?” está simplesmente magnífico!
Cara…
“Penso que Ariano é apenas mais um que não aceita essas mutações.”
Bingo !!!
Não faz meu feitio “jogar confete”, mas esse trecho em especial (e - claro - a totalidade do que foi escrito) foi a análise ácida mais racional, sincera e consciente que li nos ultimos tempos sobre esse tipo de assunto - que por muitas vezes, cansa os ouvidos de ser debatido apaixonada e irritantemente entre evangelizadores de ambos os lados.
Autoriza repassar ?!? Claro, com os créditos… Aceite mais esse pitaco: merece ser enviado para outras redações de cultura; quem sabe alguém publica.
Antes que eu esqueça, parabéns pelo post…
p.s.: Quanto ao nobre sujeito, não que eu tenha antipatia total e até admiro a figura. Mas já assisti tanta aula-espetáculo “uma igual a outra” pela TV que sinceramente não acrescentaria em nada me matar pra ouvir o mesmo de sempre.
Que bom que vocês estão gostando. Podem repassar à vontade. Sem problemas.
Gosto de Ariano Suassuna. Ele tem umas tiradas legais. Mas ele não pode ser levado de todo a sério.
ariano é um escritor magnífico, mas um pensador medíocre.
clap clap clap
O calypso é peba, mas achar que todo mundo que gosta de calypso é um idiota é muita pretensão. Marlos, porisso que semrpe digo por aí qu sou seu amigo. Me acho nessas horas!
parabéns! esses textos p jornal estão muito bons. na minha humilde e leiga opinião. só acho q neste último vc deveria dizer no final “objeto de estudo” e não “fruto”, se for publicar novamente. ah, e talvez “assunto de tese”… enfim, acho q esse final pode ser melhorado. chata eu, né?
Marlos,
comentei seu post lá no meu blog. o link é http://contosbregas.zip.net/arch2007-08-01_2007-08-31.html#2007_08-02_15_10_44-8564639-0
Em gênero, em número e grau, amigo!!
Não saber ouvir Calypso, Beto Barbosa, Sidney Magal de vez em quando é não saber se divertir!! A vida não é só feita de Chicos e Bethânias!
tive um professor que dizia: “aquele que só ouve Bah é tão imbecil quanto aquele que só ouve Tchan”.
Marlitos, vc, vc… Tô com o Foca!
Na verdade, eu adoro o dramaturgo Ariano, gosto demais mesmo, ainda mais sendo nordestina.
Mas tenho pavor de Ariano Suassuna ser pensante, intelectual e formador de opinião. Quando eu tinha acabado de entrar na UFRN fui ver uma aula espetáculo dele. Começou muito bem, engraçado, divertido, aí eles começou a falar as suas famosas heresias, principalmente em relação a estética músical e ao rock. Não dá, eu lembro na época que cheguei a pensar: “esse véio tá é gagá”, mas quando vi o auditório de umas 800 pessoas batendo palma, urrando e apoiando tais idéias, notei que o negócio era mais grave.
Eu acho que Ariano criou um personagem chamado Ariano Suassuna que dá aulas espétáculos. Um personagem que é velhinho e tem opiniões pra lá de polêmicas.
Só depois de muito tempo, tive a disposição de dizer isso abertamente nas rodas de conversa. Disposição pq, meu amigo, era dizer isso e aguentar o tranco. Eu só apanhar dos meus amigos universitário…até elas entenderem e respeitarem o meu ponto de vista era sempre uma luta…
Hj em dia já é mais fácil, como Ariano aumentou o seu campo de “metição de pau” muitas outras pessoas que antes aplaudiam começaram a se sentir ofendidas tb.
Adorei esse seu professor Patrício, tô com ele e não abro.
Enfim… estou tão falante hj…
Bjs
Toda opinião fora de contexto está correta, inclusive as mais imbecis. Apesar de tardio, o legado indicará quem de fato é o imbecil.
Marlos, concordo em gênero, número e grau.
Inclusive, o Xico Sá disse sobre o Ariano: “É o pior pensador do Brasil! Pode ser o melhor escritor, mas é o pior pensador. Quando abre a boca, fala um monte de bobagem!”
E eu também acho. Fica lá fazendo manifesto contra a guitarra elétrica, mas a micro-série baseada na obra dele foi patrocinada pela Coca-cola. Sobre isso eu não o vi se pronunciar.
Um abraço.
Aliás, recomendo a todos que leiam a entrevista do Hermano Vianna na Trip deste mês. Ali sim está um intelectual que respeita todas as manifestações culturais de forma democrática e não fica tentando impor uma ditadura estética e intelectualóide para o Brasil.
Um cara que fala de cultura brasileira com muito mais sobriedade e respeito.
ariano eh um gozador. as palestras dele são muito divertidas. eh um homem muito inteligente e de humor ferino.
sobre o patrocínio da coca-cola, fialho, eu ouvi ele se pronunciar sim. foi numa palestra na unp, uns 4 anos atrás, mas eu naum lembro mais o q ele falou. certamente alguma coisa engraçada, pra gente rir.
=)
Que coisa chata, ninguém pra dizer queo Marlus é um idiota que não respeita a cultura e tals? Acho que o Ariano Suassuna virou meio que um personagem… apenas isto. Ah, obrigado pela defesa no do Aílton, kkk
O Ariano é importante para a cultura do nosso país, mas ele já está bem velhinho e caduco… Calypso é a maior banda “punk” … lol DIY!