Ficou famoso o caso de uma grande amiga minha que anos atrás viveu um breve romance com um pedreiro que reformava sua residência. Se até hoje rolam piadas com o ocorrido, imagina então na época o que não aconteceu. Ao ponto de até ela mesma, hoje em dia, relembrar às gargalhadas aquele curto verão.
No Twitter eu provoquei: daí sua irmã mais nova começa a namorar um gari e você, crítico do Casoy (e defensor dos fracos e oprimidos) levará super numa boa, certo? Errado. Você ficará incomodado. Mesmo que não queira. Mesmo que não admita. Mesmo que não perceba. Porque nem os garis gostariam de ser garis (o são por ser o jeito). Porque realmente é uma profissão cruel que todos gostariam de ter condições de não precisar recorrer a ela para sobreviver. Porque pela primeira vez na vida você será obrigado a não ignorá-los.
Eu sinceramente não sei qual é a do Boris Casoy. Nunca acompanhei os noticiários por ele ancorados. Sei apenas que vejo chutes de pernas destras e canhotas indo em direção às suas costas. E sei que quando os ataques surgem de ambos os lados, salvo raras exceções, estamos falando de ótimos jornalistas.
O que Boris Casoy falou sobre os garis não é nada mais que um acidente envolvendo uma piada. Que, como qualquer piada, não merecia ser levada a sério.
Acidente porque o áudio não devia ter vazado. Piada porque a intenção do apresentador era nitidamente arrancar sorrisos de seus companheiros de trabalho. E inapta a ser levada a sério porque todos nós fazemos piadas sem graça com assuntos inadequados – quem não contou ao menos uma com a morte de Michael Jackson que atire a primeira criancinha indefesa.
Eu mesmo já montei uma banda fictícia chamada “Odeio Aleijados” cujo o intuito único era causar gargalhadas provocando o politicamente correto. Isso não significa que eu odeie deficientes físicos, ou que não entenda as dificuldades que enfrentam. Significa apenas que o falso moralismo daqueles que os tratam como pobres coitados é digno da mais chula ridicularização. E por mais que esta minha piada, ou a do Boris, não tenha a menor graça, eu defenderei até a morte nosso direito de contá-las.
No mais, a solução não é deixar de fazer humor. É lutar incansavelmente pela diminuição da desigualdade social. Sei por amigos intercambistas que nos EUA é comum que faxineiras cheguem ao trabalho dirigindo Pajeros. Por aqui os garis bebem café em lata de refrigerante retirada do lixo. E o humanista que o estudou, ignorando que o salário de gari em muitos casos é maior que o piso do jornalismo, em vez de mostrar que com alguns centavos eles compravam copos plásticos e assim conservavam melhor sua saúde, optou por também beber para que o tomassem como igual.
Pois eu só tomarei um gari por um igual no dia em que este país for decente o suficiente para que eles cheguem ao trabalho dirigindo uma Pajero. Até lá, o Boris estará tristemente certo: eles serão o mais baixo da escala de trabalho, infelizmente. E piada maior, pelo menos para mim, está por conta de todos aqueles que acham esta situação digna. Os garis, tenho certeza, não acharão a menor graça disso.



Quem não fez piada com a morte de Michael Jackson que atire a primeira criancinha indefesa no Boris Casoy: http://is.gd/5KGWi
[Este comentário só vai passar porque foi boa a sacada de quem o comentou. Mas cuidado com a baixaria]
Que merda! Um blogueiro sem escrúpulos defendendo o preconceito do alto de sua estupidez… O mais baixo na escala da Internet!
[Comentário censurado por conter ofensas ou ao autor do artigo ou aos comentaristas do mesmo]
Ow, queria ver o comentário censurado acima,
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Sobre o comentário acima: “defendendo o preconceito”, é? É… além da situação dos garis, a capacidade de interpretação de textos do brasileiro médio também é… uma… vergonha.