Arquivos da Seção ‘Atitude’

Quem não fez piada com a morte de Michael Jackson que atire a primeira criancinha indefesa no Boris Casoy

220 visita(s) | 03.01.2010 | 11h32 | Por Marlos Ápyus |
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Ficou famoso o caso de uma grande amiga minha que anos atrás viveu um breve romance com um pedreiro que reformava sua residência. Se até hoje rolam piadas com o ocorrido, imagina então na época o que não aconteceu. Ao ponto de até ela mesma, hoje em dia, relembrar às gargalhadas aquele curto verão.

No Twitter eu provoquei: daí sua irmã mais nova começa a namorar um gari e você, crítico do Casoy (e defensor dos fracos e oprimidos) levará super numa boa, certo? Errado. Você ficará incomodado. Mesmo que não queira. Mesmo que não admita. Mesmo que não perceba. Porque nem os garis gostariam de ser garis (o são por ser o jeito). Porque realmente é uma profissão cruel que todos gostariam de ter condições de não precisar recorrer a ela para sobreviver. Porque pela primeira vez na vida você será obrigado a não ignorá-los.

Eu sinceramente não sei qual é a do Boris Casoy. Nunca acompanhei os noticiários por ele ancorados. Sei apenas que vejo chutes de pernas destras e canhotas indo em direção às suas costas. E sei que quando os ataques surgem de ambos os lados, salvo raras exceções, estamos falando de ótimos jornalistas. Continue lendo »


O que faz a tolerância zero

35 visita(s) | 02.05.2009 | 10h17 | Por Marlos Ápyus |
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Assembly era, se brincar, a cadeira mais chata de toda a faculdade. Porque era uma linguagem que estava para a programação assim como o latim está para a nossa língua. Tem sua importância por servir de base para as outras linguagens, mas é arcaica, está em desuso. E ainda era pior: a aula começava as 7h00 da manhã se seguindo por mais dois horários. Resultado: não era raro o professor começar a lecionar com a presença de apenas três alunos de uma turma de trinta. E a maioria só vinha a chegar por volta das 8h00 mesmo. O que fez ele? Tolerância zero.

Quando soava o alarme de início das aulas, o professor iniciava a chamada como se fosse um tiro de partida: “André, Bianca…” Não respondia, era brindado não com uma, mas com três faltas referentes aos três horários do dia. Era injusto? “Injustiça maior sou eu começar a aula falando para as paredes!” Mas ocoreu um acidente e o trânsito estava péssimo? “É justamente para isto que você tem direito a 15 faltas por semestre.” Mas você mora longe? “Na véspera de minhas aulas você vai dormir mais cedo para acordar mais cedo e chegar aqui mais cedo!” E os 15 minutos de tolerância? “Não sei se você notou, a tolerância aqui não é 15, a tolerância aqui é zero!”

O professor era tão sacana que na caderneta online ele já assinalava falta para todos os alunos. Quando soava o alarme, iniciava a chamada e, para aqueles que respondessem, desmarcava a falta.

Horrível, né? Pois é… A partir da terceira semana da aplicação da tolerância zero, não tivemos notícia de nenhuma aula que se iniciou com menos de 27 alunos presentes. E o professor dava aula muito bem.


Toda bondade há de ser premiada

68 visita(s) | 10.04.2009 | 15h55 | Por Marlos Ápyus |
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Toda bondade há de ser premiada. Esta frase surgiu em minha cabeça quase que como uma iluminação. Parodia, e provoca, o “Toda nudez será castigada”, título de um dos maiores sucessos do cinema nacional (que eu nunca vi e não faço a menor idéia do que se trata). Mas a frase em si me fez pensar. Tanto que acredito ter chegado a hora de escrever. E aqui tentarei colocar em palavras tudo que por minha cabeça passou desde então.

Chocolate demais dá dor de barriga. Vento demais varre. Calor demais derrete. Frio demais congela. Beleza demais ilude. Inteligência demais isola. Saúde demais expõe ao risco. Dinheiro demais corrompe. Ciência demais frustra. Fé demais cega. Amor demais derruba. Tristeza demais mata. Energia demais explode. Música demais ensurdece.

Tudo demais, seja isso bom ou ruim, prejudica. Até hoje só encontrei uma exceção: justiça. Quanto mais justo algo for, melhor ele é. Ao ponto de me fazer acreditar que a justiça plena é o alicerce de um mundo utópico. O que está longe de ser um problema. Pois adoro a passagem que diz:

A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois. Caminho dez e o horizonte afasta-se dez. Por mais que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia, então? Justamente isto: para que continue caminhando.

Caminhar em direção ao horizonte seria caminhar em direção do que é justo. Um mundo bom é um mundo justo. Um ser humano bom é um ser humano justo. Um deus bom é um deus justo.

O problema é que vivemos numa nação carente em justiça. A impunidade aqui reina, pauta, serve de ponto de partida. Toda sorte de delitos é cometida na certeza de que a justiça tardará e falhará. Aqueles que com isso não concordam são minoria por aqui. E esta afirmação não é algo injusto de se dizer. Porque assim como é injusto alguém matar alguém, o é outro alguém jogar lixo no chão. Logicamente estamos falando de situações de relevâncias bem distintas. Mas pense apenas no quão é mínima a proporção de brasileiros que acham correto devolver ao caixa um troco que vem a mais e entenda que praticar o bem é um norte de poucos.

Não bastasse tanta impunidade, ainda carregamos na veia a cultura de que atitudes só são corretas quando altruístas. O bem só é bem quando não olha a quem. A organização só recebe doações se for sem fins lucrativos. As crianças só podem ter esperança se a rede de TV não abater de seus impostos parte do volume que passa por seus cofres durante a campanha. O artista só pode fazer caridade se não esperar publicidade para com seu nome. E assim por diante.

Mas se as pessoas que cometem delitos só os fazem na busca de recompensas (a grana do cofre, o resgate, o silêncio de alguém que sabia demais, a manutenção do cargo, o enriquecimento, etc), por que os que andam na linha precisam agir sem esperar nada em troca? Por que não tornar a bondade um investimento lucrativo? Algo que compita de frente com o monopólio da ruindade? Algo que dê ao cidadão uma opção? Continue lendo »


Gosto é como esfíncter: cada um tem os seus 42

47 visita(s) | 30.03.2009 | 7h16 | Por Marlos Ápyus |
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Boogie Nights é um dos filmes mais bacanas que já vi. Conta a história do submundo do cinema pornô nos anos 70. Lá pelas tantas, o diretor dos filmes termina mais uma de suas obras toscas e comenta emocionado algo como: “Este filme ficou sensacional. No futuro, quero ser lembrado por ter feito este trabalho”. Na mesma hora caí na risada. Não sem deixar de me incomodar o contraste entre a minha gargalhada e a emoção do personagem.

Foi quando lembrei do dia que ouvi pela primeira vez o então “finalmente finalizado” segundo álbum de minha banda, a Experiência Ápyus. Para cada faixa, uma história me vinha à mente. “Nostalgia” surgiu quando dirigia e ouvi no rádio uma homenagem ao então falecido rapper Sabotagem. “Nossa Casa” veio fruto de um agradável sábado a noite entre amigos. “L” se tratava de uma canção que fiz para uma ex-namorada. “Impaciência” nada mais era que o fora que levei de uma outra garota. E por aí ia. Cheio de referências, com o Papa Bento XVI declamando “fazei isto em memória de mim”, com a guitarra emulando sutilmente a abertura do Jornal Nacional, com um vocal citando de longe “Ela é Carioca”, com um solo de guitarra altamente inspirado em hits de Michael Jackson nos anos 80… Na conclusão da audição, pensei: “Pode ser até que eu não faça sucesso com estas canções e desista da música hoje mesmo. Mas um dia mostrarei isto a meus filhos e tenho muita fé de que os mesmos se orgulharão de mim.”

Alguma semelhança com o diretor dos filmes pornôs? Várias. Apesar de todo orgulho que sentia pelo trabalho realizado, não tenho dúvidas que, filmado este momento, e apresentando o mesmo a um maestro de orquestra sinfônica, por exemplo, arrancaria risadas inesperadas assim como arrancou em mim Boogie Nights.

Em Alta Fidelidade, o personagem principal defende que as pessoas não gostam uma das outras pelo que elas são, mas pelo que elas gostam. Talvez por isso o dito cujo de maneira quase obsessiva passe as duas horas do longa gravando fitas cassetes com canções para serem presenteadas. No seu universo, a música é a base para se gostar de alguém. O que talvez ele não entenda é que aquelas cinco canções não são registradas pensando no bem do presenteado, mas sim buscando uma conexão que possa existir entre ambos. Eu já vivi isso, quando presenteei uma ex-namorada com as “antologias” dos Beatles mesmo nunca tendo visto ela comentar nada sobre os quatros rapazes de Liverpool. Era quase um teste: se ela gostasse daquilo, nossa relação seria fortalecida. Mas, até onde lembro, o presente serviu muito mais para a mãe dela.

Sim, é verdade: nós gostamos muito mais das pessoas pelo que elas gostam do que pelo que elas são. Foi assim que fiz a maioria dos meus amigos. Se o cara dizia que gostava de cerveja, vaquejada e rapariga, eu logo me afastava. Mas se cantarolava alguma canção do Pearl Jam, eu esticava a mão e… Prazer! Marlos Ápyus. Mas se é assim, significa que é certo ser assim? O problema é que nós temos mania de achar que o nosso gosto é o melhor do mundo, e esquecemos que, dependendo do referencial, nós não passamos de uns bostinhas aguardando num vaso uma descarga daquelas.

Jackson, assim como Maurício, tocava em bandas de pagodes “quebradeiras”. Luís era um vaqueiro que sempre chegava à aula de botas e com a calça manchada de estrume de vaca. Pablo é um dos playboys mais tiradores de onda que conheço. Thalles era outro. Andréa era tão fresca que achava nojento molhar o pão no café. Thiago aprontava tanto que virou persona non grata no Pittsburg. Leonardo, outro dia, contava vantagem de voltar dirigindo bêbado de uma festa. A vantagem que Rodrigo conta é de ter iniciado várias pessoas na maconha. Maria tem como maior ídolo ninguém menos do que Xuxa. Nicolas é fã de metranca. Anderson vive de bermuda e barba por fazer, faça chuva ou sol. Daniela fuma duas caixas de cigarro todo santo dia. Luciana prefere quando o filme é dublado. Ana se apaixonou pelo cara mais sem futuro que conheço.

São todos pessoas que possuem hábitos com os quais não concordo. Mas nem por isso nenhum deixou de ser meu amigo. Uns continuam próximos, outros se distanciaram naturalmente. Contudo, se eu colocasse na prática o “só gosto de você se você gostar do que eu gosto”, poucos amigos teria eu em vida. E não se trata de fazer concessões, mas sim de respeitar as pessoas pelo que elas são. E assim unirmo-nos pela afinidades, e não distanciarmo-nos pela diferenças.

É por NÃO colocar em prática esta simples idéia que plantam-se sementes que, ao germinarem, fazem com que corintianos matem palmeirenses, abecedistas matem americanos, punks matem emos, funkeiros matem pagodeiros, neo-nazistas matem negros, palestinos matem judeus, e assim por diante.

Uma coisa é odiar algo. Outra coisa é odiar alguém só porque não odeia algo. Assim como uma coisa é algo ser ruim, e outra é achar algo ruim. Quem sou eu para setenciar que o Cordel do Fogo Encantado é uma banda ruim? Meu voto vale mais que o daqueles dez mil que lotam a praça cívica ano após ano para os verem tocar? Por isso, quando comento, digo que eu, Marlos Ápyus, pessoa física, acho o Cordel do Fogo Encantado uma farsa. Assim como acho uma farsa o prato do Estupendo, o chocolate da Kopenhagen ou filmes com um elenco majoritariamente global. Mas minha mãe nem acha e adora o “Se Eu Fosse Você 2″. Por que meu voto vale mais que o de minha mãe? Ou mais que os cinco milhões de brasileiros que correram ao cinema para assistir a este longa?

Contudo, quase ninguém que eu conheço pensa assim. E vivem não só de julgar, mas em alguns casos de já condenar, por se gostar disso ou daquilo: “Fica quieto que você gosta de Teatro Mágico”, “Eu acho deprimente essa gente que assiste BBB”, “Não discuto com quem não entendeu 2001 uma Odisséia no Espaço”, “Não acredito que você pediu no amigo secreto um boneco do Wall-E”, “É que você não fuma maconha e não tinha nada a ver você estar ali com a gente”. Já ouvi isso tudo e muito mais. E acho deveras injusto. Porque eu tolero tão na boa o fato de o cara se meter numa roda de pogo e se quebrar no meio de uma ruma de moleque de camisa preta, mas ele me recrimina porque eu fui ao show do Teatro Mágico e bati palma. Porque eu tolero tão na boa o fato de o cara não saber a diferença entre Jorge Cícero e Jessier Quirino, mas para ele eu sou um nada porque não sei a diferença entre Dostoievsky e Dr. Manhatam. Porque eu tolero tão na boa a pessoa ser fã de Smallville e ela me acha deprimente porque assisto ao BBB. Faz ela idéia que assisto ao BBB para desopilar depois de uma jornada de quase 12 horas de trabalho? E que não dá para desopilar assistindo Laranja Mecânica?

Eu prefiro gostar das pessoas pelo que elas são a viver arrotando ao mundo meu gosto pessoal como se o mesmo se tratasse de uma obra de arte lapidada há anos pela natureza e fosse assim merecedora da admiração alheia. É isso.

Para referências bibliográficas, clique aqui.


Julguemos e sejamos julgados

39 visita(s) | 08.02.2009 | 11h47 | Por Marlos Ápyus |
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Um dos últimos comentários aqui deixados antes deste reboot recém realizado foi uma crítica de um internauta que dizia algo como “Concordar com 40% do que escreve Reinaldo Azevedo já diz muito sobre você”. Minha resposta foi antipática: “E se incomodar com isto diz tudo sobre você”. Logicamente não diz. Fui injusto. Assim como ele o foi. Esse tipo de injustiça meio que justifica a exclusão deste diálogo deste espaço.

Vocês já devem ter notado, onde aqui havia “comente” agora brilha um “julgue e seja julgado”. Pode parecer uma provocação religiosa, e talvez até seja. Mas no fundo é um alerta: quando digo que os livros não são tão importantes assim, os mesmo não perdem importância, mas eu me torno aquele cara que não valoriza a leitura. “Quando Pedro fala de Paulo, fala mais de Pedro do que de Paulo”. Continue lendo »