Estive pensando no argumento de muitas pessoas contra o aborto que alegam que não é dado ao feto, o maior afetado (sem trocadilhos), a chance de escolha. Pois bem… Imaginemos uma situação. Você e sua mãe sofrem um acidente. Um acidente grave. Mas há uma chance de sobreviver. Contudo, só um de vocês pode se salvar. Isso pode se dar num avião desgovernado que só possui um pára-quedas. Ou num barco que afunda em águas gélidas que só possui um colete salva-vidas. Você nem precisa ser um feto. Você é simplesmente você, assim, na sua idade mesmo. Você escolhe se salvar ou salvar sua mãe?
Lembro que em casos onde a gestação põe em risco a vida da mãe, se se opta em salvar o feto, ainda assim há o risco de o mesmo não sobreviver, já que morrendo o útero que o formava, há grandes chances de morrer também o bebê.
Logicamente estou aqui argumentando dentro da situação polêmica ocorrida esta semana. Mas sim, sou a favor do aborto nas primeiras semanas de gestação em qualquer situação. Obviamente sou muito feliz por ter nascido. Mas hoje, ciente do que eu poderia ter causado à minha família, se pudesse, abriria mão de ter nascido, caso meu nascimento de alguma forma representasse um engodo à minha família, fosse por meus pais serem muito jovens e sem condições de dar a mim uma vida digna, fosse por dificuldades financeiras vividas por eles, fosse por problemas de saúde, ou até mesmo se meu nascimento viesse fruto de algum acidente com métodos anticoncepcionais e eles simplesmente não tivessem a mínima vontade de ter mais um filho.
Reinaldo Azevedo, que por enquanto foi o único “palpiteiro virtual” que vi defender o bispo até agora, acha que ao defender o aborto banalizamos nós a morte. Ele diz, com grifos dele:
A FACILIDADE COM QUE GRUPOS ORGANIZADOS DEFENDEM A MORTE ME É UMA COISA ASSUSTADORA. De certo modo, não compreendo os relevos da alma de quem sai às ruas para defender aborto, eutanásia, pena de morte… Não compreendo. Para mim, são práticas assustadoras.
Mas, dias atrás, assim como eu, ele indicou a leitura de um podcast de Diogo Mainardi. Onde era defendido, mesmo ciente das inúmeras mortes ocorridas no Iraque, que cada vez mais se enviasse soldados para o campo de batalha. Diogo escreveu:
Os americanos alarmaram-se tanto com o número [de mortes no Iraque] que aceitaram mandar mais 30 000 soldados para lá. Resultado? Em fevereiro de 2007, quando as novas tropas desembarcaram no país, registraram-se 3 014 mortes. Em agosto, elas já haviam diminuído para 1.674. Em setembro, 848. Em outubro, até a última quinta-feira, morreram 531 iraquianos.
O incoerente é que nesta hora a morte, pelo menos para eles, não parece uma “prática assustadora”. São apenas números que vão gradativamente diminuindo. Não tem família chorando, caixão chegando, naçao indignada. Jovem cheio de saúde levar bala na cabeça? Pode, mas não só pode: deve. Células que se multiplicam dentro do útero de uma mãe e que colocam em risco sua saúde? Não, isso não pode.