Lembro de há 20 anos, quando saíamos numa viagem de férias, ouvir meu pai “obrigar” minha mãe e meus irmãos a usarem o cinto de segurança. Sob os protestos de que o mesmo costumava amassar as roupas dos passageiros surgia o argumento de que era “melhor ficar com a roupa amassada do que com a cara”. Naquela época as campanhas pelo uso do cinto eram tão intensas como hoje é a pelo combate ao mosquito da dengue, por exemplo.
Hoje o uso do cinto já é hábito dos brasileiros, que entendem sua importância e se condenam quando se flagram infringindo tais leis. O mesmo ocorre para com o não uso da camisinha, condenado pela sociedade como um todo, inclusive da parte mais conservadora. Assim como piadas contra negros, apesar daquelas contra homossexuais continuarem sendo aplaudidas em grande escala. Em menor grau, mas já de forma considerável, também já é costume de nossa sociedade condenar moralmente pessoas que desperdiçam energia ou causam danos ao meio ambiente, seja com um veículo desregulado ou simplesmente jogando lixo pela janela do carro. E tudo isso tem ligação direta ou indireta com a responsabilidade social.
Por estes dias vi na TV alguma autoridade revelar o dado de que feridos em acidentes no trânsito custam em média, por cabeça, 35 mil reais. Se vir a falecer, esta conta sobe para 118 mil reais gastos com estrutura, seguros, leitos de hospital, medicação, honorários, indenizações, etc. Fazendo rapidamente as contas, descobrimos que este carnaval sozinho custou aos cofres públicos mais de 65 milhões de reais só em acidentes, quase todos eles por conta de motoristas imprudentes.
Bem ou mal, as pessoas já foram educadas a usar o cinto de segurança, a usar camisinha, a combater o racismo e até a respeitar o meio ambiente. E, queiramos ou não, algum resultado foi obtido, apesar de ainda estarmos bem longe do ideal. Obviamente ainda é preciso incentivar mais educação no trânsito, seja por campanhas publicitárias ou multas mais severas contra infratores. As pessoas precisam entender que aquela morte no trânsito, por mais que seja de uma pessoa que você nunca ouviu falar, causará um estrago tremendo em toda nossa sociedade. Assim como enfrentaríamos problemas com uma guerra racial ou um meio ambiente abalado ao extremo. Somos uma pequena parte de um todo que, somando nossas ações, mudam o planeta inteiro.
Acho que esta é a maior lição a se tirar do filme Tropa de Elite (sim, esta é mais uma discussão inspirada no longa-metragem). Sem querer esfregar o nariz de nenhum universitário num corpo baleado, mas com calma, numa boa, clamando serenidade. Coloca a mão na consciência e esqueça a truculência do Capitão Nascimento. Falo isso como um pessoa que defende liberdade total aos cidadãos que queiram se drogar seja por maconha, cocaína, ou o que for: qualquer pessoa que consuma droga ilícita causa sim um extremo estrago em nossa sociedade. Não por ser droga, mas por ser ilícita. Assim como o cara que queima lixo no terreno baldio contribui para o aquecimento global, ou o jovem que dirige bêbado contribui para mortes no trânsito, o descolado que queima fumo em seu apartamento contribui e muito para o fortalecimento do crime organizado neste país.
Sei que o governo deveria antes disso ter impedido a ação de tais marginais. Sei que este mesmo governo deveria tomar alguma atitude de forma a legalizar o consumo de tais substâncias. Sei e concordo. Mas porque o governo não fez sua parte devemos nós lavarmos as mãos? Acho que não. Porque no final quem perde é a gente.
Se eu consigo enxergar algum lucro para nossa sociedade no investimento deste filme, é que tal mensagem foi lançada com clareza. Mas deixa eu enfatizar: lançada. Cabe à sociedade endossar e engrossar o coro, e transformar tal postura em um hábito, como já o é o uso do cinto de segurança, por exemplo. Assim como você não joga sua lata de cerveja na areia da praia para não sujá-la (eu espero que você seja sim), torço para que você evite usar drogas ilícitas até que a lei que as condena seja revista. Até lá, busque se movimentar politicamente, faça abaixo-assinados, converse com seu vereador, escreva para seus deputados, faça soar a idéia da legalização seja por protesto, por música ou simplesmente batendo papo e comprando discussões em mesa de bar. Se for o caso, plante nos fundos de sua casa e use a colheita para consumo próprio. Só evite agir sem responsabilidade social.
Sei que este assunto soa batido, requentado, jornal de ontem. Mas não concordo que estou debatendo um filme, que tem sim seu auge e depois esfria mesmo, mas sim um problema social, que em praticamente nada mudou apesar de toda essa discussão. Contudo, nunca tive a ilusão de que em algumas semanas, como passe de mágica, nossa realidade seria outra. Todavia, sei que, mais importante que vender uma idéia, é mantê-la viva. Quanto a isto, e por acreditar nela, estou apenas contribuindo com minha parte.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 13/02/08 às 0h05 nas seções Atitude & Comportamento, Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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Lá vou eu invadindo seu espaço mais uma vez…Também gostaria de enfatizar que o problema das drogas está no fato de serem “ilícitas” e gerarem tudo o que já foi dito, nada contra quem usa!
será que essa pessoa, q ignora os efeitos negativos q a droga tem sobre si própria, é capaz de se sensibilizar com o que o seu consumo possa causar na sociedade?