
Ouçam o Papa e sigam seus conselhos. Se vocês são católicos, façam por onde merecer este crachá. Não usem camisinha. Jamais. Só façam sexo por amor. E somente depois do casamento. Nunca se divorciem. Se adoecerem e precisarem de algum medicamento, não usem curas adquiridas por conta de pesquisas com células-tronco. Prefiram morrer a se curar pelo resultado de alguma destas pesquisas demoníacas. Condenem o aborto a todo custo. Se infelizmente chegarem a ser vítima de um estupro, dêem a luz às suas pobres crias. Não aceitem a união entre homossexuais. Batam no peito e digam que na igreja de vocês nenhum gay ou lésbica troca alianças. Tenham na mulher um ser inferior que não pode celebrar missa, que não pode ser um papa. Nada disso é problema para mim. Vocês que são católicos que se entendam.
Mas entendam uma coisa: há as leis dos homens e há as leis de Deus. Vocês devem obediência primeiro às de Deus e só então às dos homens. Há outras religiões que condenam o consumo de carne de porco, proíbem o trabalho aos sábados ou obrigam pagamento de dízimos. Nem por isso existem políticos ligados a estas religiões pedindo para que mudem a lei e se proíba aos brasileiros o consumo de qualquer carne, ou ainda os obrigue a entregar aos templos dez porcento daquilo que ganham. Se o evangélico paga, assim o faz por levar a sério a palavra de seu pastor, e não porque esta escrito na constituição. Tomem seus padres como exemplo e sigam suas palavras. E esqueçam Brasília pois lá é feita a lei dos homens.
Destaco aqui uma visão racional sobre o casamento. Temos duas pessoas. Essa duas pessoas querem assinar um contrato onde dizem: “tudo aquilo que construirmos juntos pertencerá a nós dois, de forma que se um falecer, o que sobreviver herdará todos os bens.” Isso é um casamento. Já a grinalda, o buquê, a óstea, a água benta, a marcha nupcial… Tudo isso é um ritual. Por que negar a duas pessoas o direito de assinarem este contrato? Podem ficar com o ritual todinho para vocês, mas não neguem o direito ao tal contrato a ninguém. A vida não é deles? Deixem os pobres coitados em paz.
Mas, continuando, entendam outra coisa: este é um Estado laico. Quem não é católico (como eu, que sou ateu) não precisa se sentir um pecador por usar camisinha, pode defender a legalização do aborto, a pesquisa com células-tronco ou o casamento homossexual. Lembrem-se: quem os proíbe de fazer isso não é Lula, mas sim o Papa. Se o Papa já os proíbe, por que diabos vocês precisam que nosso presidente assine isso num papel? A palavra dele por acaso vale mais que a de Bento XVI? Então segurem a onda de seus irmãos de fé e deixem em paz todos aqueles que não são da mesma religião de vocês.
De resto, continuem achando que nós viemos de Adão e Eva, que há mais chances de um santo fazer milagres do que a pesquisa com células-tronco ajudar um paralítico a andar, e continuem repetindo mantras aos céus para que seus desejos se realizem. Se vocês estiverem certo, vocês vão para o céu e eu para o inferno. Do contrário, nem se preocupem: a seleção natural se encarregará de nossos destinos.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 23/05/08 às 21h57 nas seções Atitude & Comportamento, Destaques. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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Críticas construtivas são mais que bem vindas. Mas, por favor, evitem o anonimato. Contudo, cada caso será estudado em separado.






Nosso Estado pode até se denominar laico mas, bem no início da nossa constituição, primeiro parágrafo, primeira fala do script, no tal preâmbulo, nos empurra - goela abaixo - uma piada sem graça que é o motivo subliminar pra esse tipo de interferencia acontecer…
“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de …Deus…, blá, blá, blá……”
Tudo bem, é tudo muito lógico: cada um cuida do seu próprio nariz e ponto. Eu também acho que deve ser assim. Aliais, a única civilização que defende isso até hoje é aquela dos cristãos reacionários. Veja bem, meu caro Apyus, sugiro que você vá defender seu pondo de vista lá no Irã, garanto que você vai ficar morrendo de saudades desse papa rabugento. Quanto a laicidade do estado, veja só que maravilha, foi invenção de Jesus Cristo, aquele carola, que disse “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Não foi o estado que se separou da Igreja, foi a Igreja que se afastou dos assuntos do estado (isso não é palpite, é fato). Um pouquinho de história e a gente descobre fácil fácil que os cristãos absolveram o que havia de melhor na cultura grega e romana (no caso a filosofia e o direito) e acrescentaram a moral que herdaram dos judeus. O Ocidente, aliais, é uma mistura dessa três coisas: filosofia grega, direito romano e moral judaico-cristã. Se você quer anular uma delas em nome de uma civilização laica (laica, no caso, é eufemismo pra atéia) é bom dizer como pretende fazer isso, porque já foi tentado antes e foi um fracasso monumental. E, sim, está sendo tentado de novo na Europa e, incrível!, está fracassando de novo (dê uma pesquisada no Google sobre a islamização da Europa e a iminente reação cristã). Quanto ao cidadão que reclamou do nome de Deus na constituição, segundo o censo de 2000, o número de ateus brasileiros era de 7,3%. Como é que você quer excluir a crença de 92,7% da população de um país da constituição do mesmo? Era o que faltava… Só pra concluir, quanto à possibilidade de morrer e ir para o inferno, honestamente, eu, como católico, estou pouco me importando com quem escolhe, por conta própria, acreditar que ele não existe. Só quero saber o que essas pessoas pretendem fazer com a gente enquanto ainda estamos aqui na terra mesmo.
Obs. ah, mais uma correção: se o aborto não é liberado no país, não é porque o papa proíbe não. É porque 65% dos brasileiros são contra. Eu sei, eu sei, isso não é argumento. Mesmo se a maioria fosse a favor, particularmente continuaria sendo contra e defenderia que o estado também o fosse. Mas, em democracia, é sempre bom considerar o que o povo pensa em vez de sair botando a culpa no papa por não termos atingido ainda a paz perpétua kantiana.
Olha Audius… Eu mesmo solto uns 5 “ai meu Deus” por dia quando algo dá errado. Evito escrevê-los, mas confesso que a tentação, sem trocadilhos, é forte. Mesmo quando escrevo “ige” ao achar estranho algo que me contam no MSN, esqueço que estou abreviando o “Virgem Maria”. Ou, quando cansado, escrevo “aff”, esqueço que assim o faço por abreviar o “Ave Maria”. As nossas interjeições estão quase todas contaminadas de uma cultura católica que, assim como um chiclete para lá de mastigado, já perdeu o sabor e sobrou apenas a borrachinha bailando sob a língua. O pior é que acho que vou morrer usando tais termos. Quero crer que o uso de tal termo na constituição tem bem menos significado do que desconfia nossa vã filosofia.
Segundo, o engraçado é que não discordo muito de ti, nem acho que você discorda muito de mim com estes argumentos. Apesar de ser ateu, tenho 90% de certeza de que Jesus Cristo existiu. Só não acredito nos seus super poderes. Nem nos efeitos que as orações causam em terceiros (porque creio que quem ora pode fazer um bem enorme a si mesmo, assim como quem faz terapia uma vez por semana. Pelo menos essa costuma ser de graça, né?).
Sobre o “César ao que é de César”, acho um caso interessante. Estudei 8 anos em colégio católico e tive 5 professores. Lembro pelo menos de três deles (e olha que fiz primeira eucaristia e crisma com direito a falta zero em todas as aulas de catecismo) ter ouvido que tal frase era apenas mais um sintoma do amor infinito de Deus, que queria que amássemos tanto a César quanto a ele. Precisou que eu migrasse para uma escola caça-níquel para finalmente comentarem a conotação política de tal passagem, e que provavelmente teria sido ela a gota d’água para a perseguição a Jesus. Mas olha… Nessa época, esses professores de cursinho usavam o mesmo fato que você usou não como uma defesa de Cristo pelo Estado laico, mas como uma manobra golpista (só para usar um termo da moda) dele contra Roma. Logicamente uso aqui um conhecimento de 2º grau e já se vão quase 10 anos desde que isto foi me dito. Mas não descarto que as intenções dele possam ter sido realmente boas, o que não as impediria de caírem em mãos erradas, dando início à Idade Média.
Sobre o que você falou sobre a legalização do aborto, vamos brincar com os números. 90% dos brasileiros são cristãos, e 70% são contra o aborto. Há pelos menos 20% que devem ser católicos e a favor do aborto ao mesmo tempo. Mas esse não é nem o caso. De cada 100 brasileiros que venham a ler essa nossa discussão, 70, apesar de conseguirem ler, não saberão dizer sobre o que estamos falando pois são analfabetos funcionais e não sabem interpretar textos. Não quero nem bater na semelhança entra a porcentagem de analfabetos funcionais no Brasil, e a porcentagem de pessoas que são contra o aborto. Mas só convidar ao seguinte raciocínio: vá às ruas e pergunte a estas 70 pessoas se são a favor de que elas não paguem impostos. Acho que no máximo umas três dirão que são contra. Se a vontade dessa maioria fosse feita, o Brasil quebraria. Não acho que com isso devamos impor a vontade da minoria como num regime ditatorial. Mas que simplesmente não acho correto tiramos como sábia toda e qualquer vontade do povo.
Não tenho dúvidas, todos os pontos que citei no primeiro parágrafo um dia estarão todos em conformidade com a lei. Inclusive outros, como a legalização de boa parte da drogas, por exemplo. A Igreja Católica, com o discurso que se recusa a se atualizar, perderá esta guerra. Contudo, o que a luta do Papa nos toma é tempo. A própria aprovação da pesquisa com célula-tronco esta sofrendo com isso. Vai ser aprovada, mas está parada na mão de um dos juízes até o dia em que ele decida declarar seu voto. E o que eu não sei é se ainda estarei aqui para viver esta realidade, ou se atrasarão ao máximo estes dias.
Contudo, voltando ao que falei sobre vencer ou perder esta guerra, e acho que é nisso que você concorda comigo, acho que a Igreja não precisava estar neste campo de batalha angariando críticas como as minhas. Se mantivessem o foco no seu próprio discurso independente do posicionamento político da nação, talvez tivessem ainda mais fiéis simpáticos às suas causas.
Confundi católicos com cristão no rolé das porcentagens, mas acho que você entendeu o que quis dizer.
E quando falei 5 professores, entenda: professores de religião.
Caro Apyus, que a frase de Cristo é a base da laicidade, não existem dúvidas. É a doutrina da Igreja e, de fato, confio mais nela do que em professores de cursinho. Quanto à vontade da maioria, concordo em todos os pontos e deixei claro em meu comentário: se a maioria fosse a favor do aborto, eu seria contra e defenderia que o estado também o fosse. Volume não faz verdade. Mas releia o seu texto e veja a idéia embutida nele. Você está simplesmente sugerindo que a maioria da população brasileira se recolha silenciosa, vá pro quarto rezar e deixe os assuntos do estado sob o controle da minoria iluminada. Se você exclui 70% da população de um país do debate público, se o povo não tem direito sequer de opinar, bem, nessa democracia eu não quero viver não. Já a afirmação de que o pensamento da Igreja Católica está com os dias contados, desculpe, mas trata-se de um raciocínio perturbado. A menos que você tenha se posto fora da história e visto o fim dela, é impossível fazer uma previsão dessas. Ou melhor, ela vem sendo repetida há pelo menos cinco séculos. É o que está por traz da teoria hegeliana. Funciona assim: o sujeito enxerga a história de traz pra frente. Vê primeiro o fim, com a utopia já alcançada (que pode ser o socialismo de Marx ou os paraísos cientificistas de Francis Bacon), daí volta para o presente, onde seu papel é trabalhar para construir o futuro utópico, pouco importando o que ele tenha que fazer para alcançar esse resultado. O passado então se encaixa na teoria, sendo a história da luta de classes ou a evolução da espécie. Seu pensamento, então, meu caro, não é nem um pouco original. É só uma distorção da realidade, enxergada de traz pra frente. Se essa visão vai prosperar ou se os pensamentos tradicionais vão reencontrar seu lugar na sociedade, honestamente, não tenho a mínima idéia. Como católico, acredito que o fim da história depende de um ato de vontade de Deus, não das teorias de meia dúzia de “iluminados”. Mas isso é só uma crença pessoal.
“Quanto ao cidadão que reclamou do nome de Deus na constituição, segundo o censo de 2000, o número de ateus brasileiros era de 7,3%. Como é que você quer excluir a crença de 92,7% da população de um país da constituição do mesmo?”
Ainda estou tentando entender onde que eu reclamei ou defendi essa exclusão insana……….
Caro Segundo,
“Cada um cuida do seu próprio nariz e ponto” é defendido por cristãos reacionários? A igreja se afastou dos assuntos do Estado? Laico é eufemismo para ateu? Tem certeza mesmo disso, meu caro? Não quer pedir ajuda aos universitários?
Se for entrar pela seara do “Basta um pouqinho de história…”, enfim…
Discutir baseado em números absolutos é um caminho tortuoso para se utilizar como direcionamento de qualquer debate mais racional.
Senão vejamos. Quem são realmente esses 92,7% que o senhor me acusa de querer excluir a crença?
Eu não ousaria tanto, não teria tanta petulancia para tal, meu caro.
O senhor quer insinuar que 92,7% são crentes em Deus? Eu poderia inferir que toda essa massa não tenha outro tipo de fé, mas ai eu incorreria no mesmo erro que o senhor. Como um dá o melhor que tem, para o próximo…
Eu poderia até cair no ridiculo de brincar de matemática.
Se 92,7% da população são cristãos (e somente isso, segundo seus numeros), infere-se que o mesmo são cristãos convictos. Tomando-se como base alguns eventos de massa dos ultimos meses:
1) Quanto foi a expectativa de público - e o publico presente - para a missa papal no campo de Marte ano passado?
2) Qual o público da marcha para Cristo promovida pelos evengélicos esse ano? (dica: foi maior que o ítem acima)
3) Qual o publico presente no show 0800 do Rolling Stones no Rio de Janeiro? (dica: foi maior que os ítens acima)
4) Qual foi o publico da parada do orgulho gay do final de semana que passou? (sem comentários)
Etc…, etc… etc…
Tá vendo? Brincadeira ridicula e sem o menor propósito com a conversa, né?
Mas voltando ao foco da questão, Marlos não fez mais do que destacar um pacote de opções positivas de uma determinada religião.
Pelo que entendi, segue quem quer e estamos conversados. Nada mais do que isso. E, cá pra nós, como o mundo seria realmente melhor, se católicos se recolhem-se somente as suas orações e deixassem o Estado determinar medidas de conduta civil para todos os cidadãos, sem excessão. Ateus, ubandistas, espiritas, islamicos, e toda a sorte de seguidores de outras crenças - que residem nesse país - assim o fazem, e o mundo não se acaba por conta disso.
Como bem dito na discussão, é questão de conduta moral. Há de haver justiça para todos, justiça igual para pessoas diferentes. Leis que garantam acesso a politicas de Estado ao cidadão, devem existir. Da mesma forma, de acordo com a moral de cada um, utiliza-se da legislação quem bem quiser. Trazer para o debate público, uma posição de convicção (baseada em fé pessoal) como justificativa para qualquer projeto de lei é por si só questionável.
Uma “democracia” onde 30%, que não são “iluminados” pela graça do Criador (pobres pecadores com o inferno como destino certo), não tem seus direitos garantidos, também não me serve. Há muito que discussões dessa monta, estão carentes de uma abordagem mais séria - e urgente - por parte de todos nós.
Suspeito que homossexuais não tem a minima intenção de entrar de véu e grinalda em igreja para serem abençoados por padres. Por outro lado, há de pensar em algum mecanismo juridico que garanta aos mesmos algum tipo formal de proteção juridica em caso de união civil.
Enquanto estudos de célula-tronco ficam paralisados por conta de opiniões teológicas de uma “beata” de paletó, milhares morrem sem esperança de cura para o mal que os assola. Se alguns acolhem isso como “vontade divina”, outros tantos enxergam como um dádiva de Deus, Ele ter dado iluminação ao homem para avançar a ciencia. Encaro isso como livre arbitrio… “Tu é católico, Deus é contra isso, se tu quer seguir em frente, vá… Depois tu te resolve lá com Ele”. Apesar de, desde o inicio dessa celeuma, estar bem claro que só seriam utilizadas células enviadas para descarte, com mais de 3 anos de tempo de “vida”, após autorização dos pais, e com a garantia que estas não teriam a minima possibilidade de vingar em caso de implante.
Chame isso de “moral”… Eu chamo de “insanidade mental”… De tanto repetir a mesma justificativa, Dá sempre aquela vontade de perguntar “entendeu ou quer que desenhe?”.
Há muito, não acredito em céu… Também não sou ateu já que, baseado no conceito filosófico da questão, não acredito em um “universo infinito e auto-ordenado”… Assim como outras crenças, tenho grande respeito por suas opiniões, ainda que - alguma vezes - caiam no lugar comum das mesmas frases de efeito… Não levo muito a sério a grande maioria os ateus… Até porque é dificil encontrar um ateu de longa data, com quem se possa travar um debate adorável e inteligente onde ambas as partes possam adquirir muita coisa de útil para a evolução do pensamento. A maioria esmagadora de “ateus” que conheço não passou dos 30 e duvido que tenham passado por alguma provação (sim, até a “descrença” necessita ser passada a limpo) digna de botar em questão suas posições - até então - convictas. Sou curioso demais. Me contentar com a lorota da “poeirinha cósmica” não me convence, nem enche o bucho. Afinal, o que veio antes disso?
O inferno é outra piada sem graça… Não há de haver nada pior que as piores mazelas orquestradas pelas mãos do homem (inclusive católicos), nesse breve espaço de tempo que nós alugamos esse pedaço de terra perdido no meio do universo. “O inferno são os outros”.
Ouso dizer que ainda me sinto um pouco católico. Só me divorciei da instituição.
Se houvesse céu, é muito provavel que eu não iria pra lá.
A ser vizinho celeste de Torquemada, meu caro, prefiro ir pro “inferno” com o excomungado Leonardo Boff…
Audius falou bem melhor que eu a respeito. Responderia a ele apenas a história da “provação”. “Deus me livre” ter de passar por outra tão cedo, mas já enfrentei uma barra pesada quando aos 9 anos de idade aprendi o que era um AVC ao ver meu pai sofrer um a 30cm de onde eu assistia TV. Mas só me desgrudei da veia católica quando saí de um colégio religioso e uma porção de verdades com muito mais sentido me foram jogadas na cara. Ora… Estávamos em pleno anos 90 e um professor de religião defendeu em sala que era para a gente ter cuidado com a masturbação pois poderíamos nos viciar e nunca mais gostar de sexo!
Escrevi com certa dúvida, mas confirmei agora junto ao noticiário que os votos que estão empatando o andamento da discussão sobre células-tronco são de católicos fervorosos.
No mais, não quero que 93% da população se cale politicamente. Mas que, ao abrir a boca, assim o façam como filhos de homens, e não como filhos de Deus. A constituição do reino de Deus já existe há séculos e não vejo motivo para que ela pese menos que a dos homens. Quanto a mim, só quero meu direito de ser não-católico e de não ser obrigado a seguir seus dogmas, assim como deficientes físicos têm direito a vaga em todo e qualquer estacionamento mesmo representando uma minoria que não chega a 10% dos brasileiros.
Mas sobre vontade da minoria… Pegue 100% de adolescentes que se dizem contra a legalização do aborto. Dê a elas uma gestação inesperada. Agora diga a ela que o aborto é legalizado e inclusive, em casos como os dela, é incentivado por políticas governamentais. Diga que uma equipe médica legalizada cuidará dela e a ajudará tornando este momento difícil no mais confortável, seguro e saudável possível. Isso não é uma utopia, mas o que acontece em vários estados norte-americanos. Aproveite, e ainda explique que há estudos nesses estados que provam que esta prática causou um bem social enorme, diminuindo a longo prazo indíces de criminalidade, melhorando a renda familiar e o nível educacional. Como? Um filho inesperado causa um estrago enorme em qualquer família, consumindo seu dinheiro, seu tempo, sua formação. Só depois pergunte se ela tem interesse em fazer um aborto. Isso é o que costuma fazer por lá as equipes médicas treinadas para estas situações. Nada é obrigado, mas todas possibilidades são esclarecidas. As filhas de família católica fervorosas (essas sim uma minoria) mantém-se fiel à sua fé e se negam o tratamento, o que é digno de aplausos de minha parte. As demais costumam aceitar o tratamento.
Essa maioria brasileira é contra porque não foi lhe dada opções, não lhe foi permitido questionar pois é pecado (não julgueis para não ser julgado). Não recebeu uma educação decente ou lhe foi dada o direito de ouvir os dois lados da história. Na minha escola católica, a professora de Literatura foi proibida de nos passar determinados livros. No ano que saí, ela foi obrigada a pedir que todos os alunos lhe entregassem o livro que ela tinha como base para suas aulas com a desculpa de que faria uma “revisão”. Quando os alunos receberam o livro de volta, ela havia rasgado os dois últimos capítulos! Anos 40? Não… Era 1999.
Se quer minha opinião sobre a voz da minoria, a minha é essa: uma minoria fervorosa dita as regras e condena qualquer questionamento porque julgar é pecado, porque você precisa crer sem ver. A maioria, por medo, por falta de informação, aceita calada e repete o “bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo” porque, afinal, estão todos dizendo e não serei eu que me calarei.
Caro Audius, eu não falei que todos os cristãos reacionários defendem a liberdade individual, falei que a civilização criada por eles é a única que defende isso até hoje. Eu não falei que laico é eufemismo pra ateu, usei a expressão “NO CASO” para designar os militantes que defendem a exclusão do cristianismo de debate público. E, por favor, me apresente a bibliografia onde você leu que não foi a Igreja que se separou do estado. Estou louco para me aprofundar nos seus conhecimentos históricos. Eu não quis “insinuar” que 92,7% da população nacional é crente em Deus. Eu AFIRMEI que 92,7% dos brasileiros crêem em Deus, não importando que Deus seja esse (que é o caso da constituição). São os dados do Censo 2000. O senhor por acaso tem outros números em mãos? E se eu afirmei que 92,7% da população crê em Deus, como é que o senhor inferiu que a mesma é formada por cristãos convictos? Além de seus conhecimentos profundos em História, gostaria de conhecer sua contribuição para o domínio da Lógica. Pelo visto, o senhor está revolucionando essa disciplina tão exigente.
Eu não estou sugerindo que “ateus, ubandistas, espiritas, islamicos e toda a sorte de seguidores de outras crenças” vão para o seu quarto chorar suas mágoas, em silêncio. Vocês é que propuseram, e continuam a propor, que os cristãos se recolham às suas crendices e deixem o estado sob o controle dos burocratas da vez. Em outras palavras, nem reclamar a gente pode, só rezar. Hitler adoraria esse modelo democrático. Ah, e os cristãos não estão trazendo “para o debate público, uma posição de convicção (baseada em fé pessoal) como justificativa para qualquer projeto de lei”. Eles estão defendendo a lei já existente. E “direitos garantidos” são aqueles que a constituição assegura. Portanto, amigo, casamento gay não é direito garantido de ninguém, é uma reivindicação. E quer dizer que qualquer um que se oponha à pesquisa com células-tronco é doido varrido? Acho que vou sair dessa discussão e procurar um hospital psiquiátrico. Afinal, eu sou um perigo para a sociedade.
Então você tem “grande respeito” pelas minhas opiniões, mas as considera uma “insanidade mental”? O senhor tem um jeito estranho de respeitar as coisas. E ainda quer ir para o inferno na companhia de Leonardo Boff? E o doido sou eu?
E como assim “estou tentando entender onde que eu reclamei ou defendi” a exclusão do nome de Deus da constituição? Eu só li uma vez e entendi! Vou explicar: você disse que invocar a proteção da Deus na lei é uma “PIADA SEM GRAÇA”, que nos foi empurrada “GOELA ABAIXO” (devo concluir que o “nos” se refere a toda a população brasileira, já que, perante a lei, somos iguais).
Meu caro, se você não consegue entender nem o que escreve, desista de comentar a constituição.
Marlos, no dia em que eu não puder mais expressar minhas opiniões e defendê-las publicamente, arrumo minhas malas e vou procurar outro canto pra encostar meu jegue. Isso é uma democracia, rapaz. É uma pena que você, que sempre considerei um sujeito esclarecido e bem articulado, esteja defendendo publicamente que a maioria da população brasileira seja excluída do debate. Isso não é papo de “coitadinho” não. Os cristãos ainda são maioria e suas opiniões prevalecem, eu sei. Mas eles não estão negando seus direitos de defender o que você defende. Ou você já sofreu perseguição do estado ou da Igreja por ser ateu? Só estou reivindicando que você reconheça minhas opiniões como legítimas, como reconheço as suas. Do contrário, estamos de lados opostos, infelizmente.
Segundo, meu caro…
Essa tática de replicar que o senhor utilizou é uma armadilha tão manjada, que vou lhe dar o prazer de não se dar mais ao trabalho de construir uma “resposta a altura” para esse pecador diabólico que certamente queimará no enxofre de satanás. Meu único prazer será apenas o de não alimentar discussão sem fim com quem se priva de abrir a mente para um debate mais racional.
Me falta tempo pra poder desenhar no momento…
Por favor, desistam dessa ironia vagabunda de “Ai, eu vou pro inferno! Ai, eu vou pro inferno!”. Um lugar que já foi descrito por Dante e é freqüentado por gente do porte de Oscar Wilde e Barbey D’Aurevilly merece um tratamento mais digno. Além do mais, certas almas só terão direito a uma sala apertada, com um ventilador de teto barulhento, onde se passa a eternidade a se discutir a obra de Leonardo Boff.
Calma galera que os ânimos estão esquentando.
Olha… O textos lá de cima, que se provou bem mais raso que o que já se prolongou aqui nos comentários, foi inspirado em duas leituras que fiz nos últimos meses/semanas. Uma do Blog do Noblat, quando da visita de Bento XVI, onde defendia que o Papa não tinha nada que tentar convencer Lula a nada pois sua própria voz já deveria ser a mais forte perante seus fiéis. E outro no seu blog, Segundo, quando com um certo bom humor você disse que só deveria satisfações ao Papa. E jurava eu que 90% do que eu escrevi aqui estaria em concordância com o que você disse. Ou você não entendeu, ou me expliquei muito mal ou de fato não concordamos. Ponho mais fé na segunda opção.
Pode ficar tranqüilo que respeito suas opiniões sim, até porque são muito bem articuladas ao ponto de me deixar sempre com uma pulga atrás da orelha, quase me rendendo e dizendo “Ok, você venceu!”. Mas é porque realmente tenho a sensação de que me expliquei mal. De que um novo exemplo meu pode se fazer mais claro e desfazer qualquer mal entendido.
Ontem pensei no caso das testemunhas de Jeová, pois elas não aceitam transfusão de sangue. E que já há vários casos (rodei a vista no Google e já surgem alguns de cara) de pessoas que morrem se negando o tratamento por transfusão de sangue. Eu particularmente acho um absurdo. Mas se é a vontade dela, eu respeito. O governo também respeita, tanto que libera do serviço militar qualquer testemunha de Jeová logo de cara. E ontem fiquei me perguntando: se estes 92,7% de cristãos citados por você fossem compostos na verdade de testemunhas de Jeová, estariam ontem os ministros lá da justiça votando se o Brasil deveria aderir às transfusões de sangue? Olha… Confesso neste ponto tenho sido injusto com os católicos porque realmente não sei se no mesmo lugar e com o mesmo apoio popular as Testemunhas de Jeová não estariam agindo da mesma forma. E com este exemplo finalmente entendo o que você quis dizer ao citar no primeiro parágrafo o islamismo. Fosse o caso, creio, mas também sem conhecer a fundo, que já estaríamos levando pedradas em praça pública por nosso bate-boca aqui.
Pelo que li, hoje, por 6 a 5, placar apertadíssimo, devem ser aprovadas as pesquisas com célula-tronco. E minha provocação (infelizmente é provocação mesmo) com os ministros-católicos é essa: mesmo estando na lei, eles podem negá-la. Basta se negar a doar seus embriões para pesquisas, ou desautorizar qualquer tratamento médico que seja fruto do resultado delas (tal qual fazem as testemunhas de Jeová com a transfusão de sangue).
No mais, insisto mais uma vez que não quero excluir ninguém do debate político, mas apenas que deixem de lado suas crenças religiosas quando vierem votar na vida pública. Acho que o melhor exemplo que posso trazer é do ex-presidente Figueiredo, último general de nossa infeliz ditadura. Em uma entrevista que vi logo após sua morte, ele deixava bem claro o quanto era homofóbico e o quanto sentia nojo de homossexuais. Mas que em nenhum momento deixaria estes sentimentos interferirem em suas atitudes principalmente quando exercia o cargo de presidente da nação. Ele jamais faria sexo com um gay, talvez sequer apertasse a mão de algum, mas também jamais perseguiria nenhum deles. Conheço muito pouco do trabalho dele, mas quero crer que ela estava dizendo a verdade nesta entrevista.
No mais, acho que um mal entendido grande entre vocês dois, Audios e Segundo, está se fazendo. Tenho certeza que são duas figuras que, sentando numa mesa de bar, viram a noite acordados porque assunto com relevância não faltará no papo de vocês. Portanto, mais calma nessa hora porque religião é complicado mesmo de se discutir.
Marlos, que estorinha é essa de ânimos esquentando?
Tenho convicção que se tivessemos oportunidade de nos encontrar por ai, eu e o Segundo, estariamos tomando uma (de cerveja, leite, etc…) dando altas gargalhadas dessa caninga, eu caningando com ele, e vice-versa, ao vivo e a cores.
Não que um fosse convencer facilmente o outro de um ponto de vista mais pessoal, jamais ou até - talvez - nunca. Afinal, da forma como o conhecemos, o mundo é mundo por conta da pluraridade de pensamentos e da perfeita comunhão entre os diferentes (claro com mais um punhado de adaptações aqui e acolá), torçam o nariz um por outro, ou não.
Não formei a idéia avessa alguma do Segundo. Eu esquentaria a cabeça realmente se estivesse travando debate inútil com algum cabeça oca, caracteristica que Segundo já demonstrou aqui - e em outros posts - estar abissalmente distante de ser. Sim, assumo que isso é preconceito e “tô nem ai” de consertar esse defeito… Gente vazia me irrita, o que não é o caso desse debate.
Em tempo: não sou melhor do que gente com cabeça vazia, mas nos é destinado um tempo tão curto de passagem, que me agonia deixar de adquirir nem que seja o mínimo de idéias e abstrações de onde for possível. Pessoas de cabeça vazia também merecem ser felizes, e talvez elas vivam até com mais qualidade do que eu…
Saí do debate pelo motivo óbvio: a discussão - sob qualquer aspecto - não tem fim, e esse formato de mídia não permite o devido desenrolar mais adequado das idéias de um e de outro. A persistir no debate, daí sim, caminhariamos para um ponto de colisão sem solução remediável, e o pior, por conta da falta de uma ocasião mais oportuna para jogar as cartas na mesa de forma mais clara para que não restem dúvidas sobre o que um e outro estão tentando defender.
Marlos escreve uma coisa, eu entendo de forma rasteira e colo minha réplica. Segundo lê o que está postado, entende de forma rasteira, e manda o pensamento dele. Ai eu entendo de forma rasteira, e desse ponto em diante, o ciclo se renova.
Não… Não é culpa sua, minha, nem de ninguém… É preciso ser gênio literário para invadir a cabeça das pessoas somente com um punhado de letras impressas. Também não é desmérito não ter essa genialidade.
Abraço forte a todos
Como se diz, paz na terra aos homens de boa vontade. Acreditem, já fui ateu convicto. Uns dias de ócio e uns livros de C.S. Lewis me fizeram mudar de opinião. É que o catolicismo, para mim, é mais do que uma religião: é uma cultura inteira. Olho para o Papa e vejo a história dos santos e mártires, Isidoro de Sevilha, a conversão dos reis, São Paulo e, sim, a história da Inquisição e outros absurdos. Perto disso, casamento gay e camisinha são as coisas mais fúteis do mundo. É estreiteza de espírito ficar se prendendo ao detalhe e esquecer o essencial. Mas divago. Enfim, se estamos todos de acordo que cada um tem o direito de defende publicamente suas convicções, no essencial concordamos. E, reconheçamos, essas briguinhas de blog têm sua graça.
Obrigado pela atenção.