A primeira vez que pensei sobre isso o fiz numa manhã enquanto assistia a Aurélio Miguel ganhar sua medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul. Tinha então 6 anos de idade. Fiz a pergunta ao vento e não obtive resposta. Desde então, nunca mais vi ninguém tocar no assunto e só recordei nestes últimos dias graças ao coro dos descontentes que anda fazendo reclames blogosfera afora (ou adentro, vai saber).
Tentando ser mais objetivo: aquele garoto de seis anos de idade em 1988 achava extremamente absurdo aquele quadro de medalhas. Porque nele:
- O que importa não é competir, é vencer
Por mais que o Brasil tenha 25 medalhas de bronze, basta que um queniano ganhe uma medalha de ouro na maratona para que surja numa melhor colocação que nosso país. - Porque permite que pessoas como Michael Phelps sozinhas valham mais que muitas nações
Só para ficar num exemplo dentro do mesmo país: acho que não há nada mais fantástico na história do esporte que o Dream Team de 1992 formado pela seleção estadunidense de basquete masculino. Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Scott Pipen, Charles Barkley, Pat Ewing, John Stockton, David Robinson, etc. São profissionais tão grandiosos que para nenhum deles precisei procurar no Google o modo correto de digitar seus nomes. E olhe que se passaram 16 anos e nunca fui assim muito interessado em basquete. Some todos estes grandes nomes. Segundo o quadro de medalhas, Michael Phelps vale catorze vezes mais que a soma. É justo?
Não. Não é justo. Não é justo que países que têm tanto talento para a natação sejam considerados 14 vezes maiores que países que possuem o mesmo talento para o futebol, que só distribuirá duas medalhas de ouro. Ou você realmente acredita que a Jamaica possui um aparato esportivo melhor que o brasileiro? Do contrário, seria o caso de criar novas modalidades só para papar mais no quadro. Que tal medalha de ouro para embaixadinhas? Podia ter também uma modalidade só para cobrança de pênaltis. Ou ainda o escanteio sincronizado, com a competição por equipe, individual geral, individual por aparelho e dupla mista. Podia ter também futebol peso leve, peso pena, peso médio e peso pesado. Ou você acha justo que Romário corra para cabecear em meio à defesa dos gigantes suecos (ops… esqueci que ele fez gol de cabeça no meio dos vikings em 94). Bom… Assim fosse, tenho certeza, Ronaldo Gaúcho seria nosso Michael Phelps. Porque teria medalhas no futebol estilo arte, futebol estilo força, equilíbrio de bola com o nariz, chute de bola no travessão, maior garoto propaganda na disputa por quantidade de patrocinadores, maior garoto propaganda na soma dos patrocínios, cabelo mais inovador e maior atleta na competição de beleza ao contrário.
Por isso acho uma extrema bobagem o que andam gritando pessoas que inclusive admiro, como Marcelo Tas. Esporte é entretenimento, e só deveria ser priorizado pelo poder público quando todo o resto de nossas necessidades básicas estivessem em dia. É assim na Europa, porque há de ser diferente aqui? Ou você acha que tivemos jogos olímpicos quando das duas guerras mundiais? Quando o o cinto aperta, investimentos em saúde, habitação, segurança, etc, continuam, mas no esporte e na arte são cortados. E a proporção há de seguir assim para dias de paz. Só no dia que sobrar muito dinheiro devemos nos preocupar em cultivar nossos Michael Phelps.
Até lá, torçamos pelo melhor. Se o melhor for brasileiro, massa. Se não for, será mesmo assim divertido. E justo.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 17/08/08 às 10h43 nas seções Esportes & Jogos, Notícias. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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