
Na boa? O Brigitte Beréu era uma banda ruim. A bateria de André Tresse era confusa e vivia se batendo com a percussão de Jorge Negão. A guitarra de Frank Boy, apesar de ter lá seu charme, era deveras suja. O meu baixo corria com o andamento o tempo todo. Tanto meu vocal como o de Joana eram desafinados e a voz de Eider era, além de limitada, de um timbre deveras estranho. Quando a banda se enxugou em quatro músicos, e ainda passou as baquetas para as mãos mais duras de Joab Kental, o meio de campo desenbolou um pouco. Mas as letras continuaram um tanto ingênuas, e nossa arrogância ainda nos impedia de irmos além.
Alguns destes detalhes eu percebia à época, mas a grande maioria só veio á tona tempos depois de minha saída quando, com sangue mais frio, pude entender melhor o que fazíamos. Mas, agora entenda: apesar de todos os problemas citados, continuo amando tudo o que fizemos, assim como tudo, ou quase tudo, o que vivemos (musicalmente falando).
É estranho e de fato não sei explicar. Creio que é porque acreditávamos no nosso som de uma maneira que jamais voltei a ver em outra banda no RN. Mesmo no Seu Zé, que com tanto amor toca seu trabalho. Mesmo em outras bandas que hoje parecem viver bem mais para sua música, como Uskaravelho, Dvibe e Moby Dick, por exemplo. Em praticamente todo ensaio compúnhamos, todos, uma canção. E não uma canção qualquer, mas sim aquela canção que, tínhamos certeza, era a melhor já havíamos composto. Em casa ouvíamos várias e várias vezes o áudio do ensaio com a música mal gravada, mal tocada. Tínhamos idéias de arranjos, colávamos referências e, por mais limitados que fôssemos, buscávamos sempre ir além de nossos limites. E, sem falsa modéstia, tínhamos moral para encarar qualquer platéia, fosse isso bom ou ruim. Ou como explicar a maneira corajosa como tocamos uma ciranda para uma platéia do mais sujo hardcore de João Pessoa?
Tivemos alguns grandes momento. A segunda vez que tocamos no MADA, em 2001, foi mágica. Aquela noite começara com um bom show do Officina, que passou o bastão para o Detonautas pela primeira vez mostrar sua cara no RN. Depois o Leela, quando ainda prometia se tornar uma grande banda, botou um gás tremendo. Na seqüência o Embolafunk botou todo mundo para dançar e, sem deixar um segundo qualquer de respiro, emendamos 10 canções em 30 minutos, além de termos protestado contra os abusos da OMB. Mas aquela não foi nossa melhor apresentação. Uma semana depois tocamos no aniversário do Blackout, lotado, onde fizemos não 30, mas 120 minutos só de canções nossas.
Praticamente nenhuma música havia tocado no rádio, praticamente ninguém conhecia nenhuma letra, praticamente ninguém arredou o pé dali. Um ano antes, no mesmo ambiente, mas no palco maior, tivemos uma boa participação naquele que foi o melhor Festival Pop Rock Tropical, vencido pelo Peixe Coco. Seis meses depois estávamos na orla de Ponta Negra, às 5 horas da manhã, com o sol nascendo, tocando para mil pessoas, acompanhando Fred Zero Quatro, que na época era ainda tido como o 02 do Mangue Bit.
O último grande arrepio senti na calourada da UFRN no ano seguinte. Creio que umas 3 ou 4 mil pessoas lotavam o ambiente. Eu mal plugara o baixo e nos anunciaram como a atração seguinte. Qual não foi meu susto ao ouvir da platéia uma reação como se seu time do coração tivesse feito um gol. E, não sei se por isso, infelizmente entramos de salto alto. O show foi péssimo e, mal imaginávamos nós, começávamos ali uma decadência que cuminou com nosso fim um ano e meio depois.
Alguns verões se passaram e o grupo resolveu se reunir para voltar á ativa. Fui inclusive convidado a participar, mas fui o único que negou. Não concordava e ainda não concordo com a forma de trabalho do grupo, que seguia preceitos não muito profissionais como não respeitar horários, não zelar pelo próprio equipamento, ou não confundir momentos de puro trabalho com pura diversão. O que não me impediu, como ainda não me impede, de torcer pelo sucesso dos mesmos.
Em 2008 eu completaria 10 anos de banda. E, para celebrar, resolvi disponibilizar vários áudios de vários momentos da banda. A maioria das gravações é bem tosca. Há bastante registro de ensaio, fitas demos, e um primeiro disco que foi 80% gravado em casa mas que, infelizmente, não conseguiu ser lançado. A tecnologia não era potente como a de hoje em dia, o conhecimento na área era parco e a grana era pouca. De toda forma, creio que com os devidos descontos, a diversão está garantida para quem, como eu, sente saudades deste tempo. Divirtam-se.
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
Acaba aqui a primeira parte deste texto que foi publicada dia 4/05/08 às 14h22 nas seções Arte & Cultura, Capas. Você pode acompanhar qualquer resposta a este texto através do link de RSS 2.0.
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Muy saudades mesmo, inclusive dos momentos descritos de palco. Me lembro também do Domingo na Praça. Concordo com as críticas e já naquela época me palpitava tal intuição. Sntia falta de algo talvez um pouco de profissionalismo por inesperiência, o q faltava de um lado sobrara do outro: intusiasmo, energia, coletividade, suingue, força de vontade, feeling coisas que dão o “Q” para as coisas. Mais Marlos, a histórioa é que acabavamos de sair de uma tal banda Neves,tocando para 50 pessoas, ou no quarto dos fundos com violão e aquele som stério, ou ainda,lembra da Guarita? Aqueeele studio trash e tals… Logo depois,gravada uma simples fita cassete no Mundo da rua… MADA, UFRN, CASA DA RIBEIRA….4mil pessoas, 10 mil pessoas por ai vai!!!!
Nós comunicavamos muitas coisas, muitas sensações era pura energia, quimica, Aquimia… muy bueno
valews
Sim, tira do ar naum que vou comunicar os cidadãos. Muita genite me pergunta onde conseguir material…valews
Number one fan here!!!!
omi…eu só me lembro de eu moleque pentelhando nos ensaios…dançando feito um doido nos shows…se hj eu faço música, grande parte foi graças ao Brigitte…marcou. Saudades de Natal, da adolescência, das bandas supracitadas, do que quase foi uma cena, do Brigitte acima de tudo…
Rapaz, eu num achava a banda tão ruim assim não! heheheh, Mas, cada um tem sua opnião… oq importa mesmo foram os momentos (inesquecíveis) pelo qual nós passamos, e que, com certeza serão contados aos nossos netos. Massa o trabalho Marlus, ei , depois bote mais umas fotos ai!!
Vlwww!
Eu devo ter visto uns 3 shows ao todo do Brigitte Beréu. O primeiro num bar que tinha perto do Bimbo’s, em sei lá que ano era aquele. Nesse show achei a banda regular, nada demais… Mas uns anos depois vi 2 shows que vcs fizeram lá em Ponta Negra e achei massa mesmo. Como dito aqui antes, se a técnica deixava a desejar em alguns aspectos, a empolgação cobria essas falhas com folga. Uma das melhores bandas do estado que já vi ao vivo. Guitarra Jimi Hendrix, um ritmo maluco dançante a la Blind Melon…e por aí vai.
Belo tributo, Marlos… Embora as experiências vividas teimem em ficar no seu tempo e lugar, elas valem para lembrar que o que cada um é hoje foi construído no passado. Valeu! Beijos