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Categoria: Artigo

Quem não está pronto para um presidente negro?

“Será que o Brasil está pronto para ter um presidente negro?”, disse o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal a artistas reunidos na casa de Caetano Veloso, essa semana.

A pergunta não é nova, foi feita durante toda a primeira campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. É uma daquelas questões que, à primeira análise, soam como filosóficas mas, em menos de dois minutos de ponderação o interlocutor já está rindo do quão ridículo é esse questionamento.

Em primeiro lugar, a sociedade nunca está pronta para uma quebra de paradigma, e é justamente esse o motivo de existirem os paradigmas: o costume. Se a sociedade estivesse pronta então a mudança não se faria necessária (nem possível).

Em segundo lugar, a argumentação de que a sociedade não está pronta para lideranças de etnias não-brancas já caiu por terra há anos, só os progressistas e socialistas latino-americanos não perceberam. O próprio Joaquim Barbosa foi ministro da mais alta corte de justiça deste país, foi presidente dessa corte e liderou o maior julgamento da história do judiciário brasileiro, o Mensalão – e foi louvado pelo trabalho que fez, idolatrado até. A nação mais poderosa do mundo foi liderada por oito anos por Barack Obama, um homem negro casado com uma mulher negra. Ambos louvados e admirados mundialmente. Pessoas de todas as nacionalidades celebram Usain Bolt como um líder esportivo e Stevie Wonder como um dos maiores músicos ainda em atividade. Os Estados Unidos teve, sob a presidência de Obama uma Secretária de Justiça também negra, Loretta Lynch. E um detalhe estrondoso, nenhum desses líderes foi questionado pela sociedade com relação à cor de sua pele. Só a esquerda falou nisso.

A história moderna deixa claro, a única parcela da sociedade que não está pronta para lidar com quebra de paradigmas é a esquerda. É o grupo que não admite o fim da categorização de pessoas pela cor da pele, não admite que aspectos culturais sejam patrimônio de toda a humanidade, e sim patrimônio de etnias específicas. Essa parcela da sociedade, sob o pretexto de defender a igualdade, perpetua a luta de classes.

A pergunta do ex-ministro Joaquim Barbosa é pura e simplesmente uma estratégia política. Ele já está se reunindo há um bom tempo com a classe artística brasileira, a mesma classe que em 1989 fez o “coro dos artistas” e cantou o “Lula-lá”. Uma reunião na casa de Caetano Veloso é mais claro do que uma reunião na casa de um senador petista. Joaquim Barbosa já é candidato pela esquerda e já entrou na guerra para angariar o voto de classes, e começou pelos eleitores negros.

Em último lugar é preciso lembrar que, à semelhança dos Estados Unidos, o Brasil também quebrou um grande paradigma na última década, ao eleger a primeira presidente mulher da história do país. E o resultado foi devastador, não apenas para a Economia e a Política como também para as próprias causas femininas. Dilma Rousseff abriu guerra até mesmo contra a língua portuguesa, cunhando o termo “presidenta” para o cargo que ocupava. A dificuldade em entender que o século XIX já acabou é hercúlea para os progressistas.

O Brasil está pronto sim para ter um presidente negro, resta saber se a esquerda está pronta para um mundo onde os maus políticos são criticados, inclusive os políticos negros. De outra forma, a eleição de Joaquim Barbosa será a fagulha que o progressismo precisa para iniciar uma guerra racial no Brasil.

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Quando o STF perceberá que ele próprio é um grave problema do Brasil?

Foi de uma interpretação do artigo 86 da Constituição, assinada por Celso de Mello em 1992, que Rodrigo Janot tirou a desculpa para não investigar Dilma Rousseff enquanto ela fosse presidente da República. Como o “pau que dava em Chico” também “dava em Francisco“, a mesma postura precisou ser legada a Michel Temer, ignorando citação ao presidente interino em grampos que derrubaram-lhe dois ministros.

Crimes graves como este, a Suprema Corte brasileira nem se preocupou em se debruçar sobre. O mesmo, no entanto, não valeu para a confecção de dois bonecos infláveis usados num protesto em São Paulo. Na caricatura exposta, além do rosto do procurador-geral da República, estava lá o de Ricardo Lewandowski, então presidente do STF. Tornando inevitável a questão: aqueles 11 ministros não percebiam que a própria casa deles é um dos maiores problemas do Brasil?

No outro absurdo, uma canetada atropelando instâncias não só tirou Paulo Bernardo, marido da senadora petista Gleisi Hoffmann, da cadeia, como colocou em dúvida o sucesso de algumas dúzias de investigações tocadas pelo Ministério Público com o auxílio da Polícia Federal. Mas o caso está longe do isolamento. Foram os próprios guardiões da Constituição que a ignoraram para permitir prisões antes do trânsito em julgado. Na sequência, monocraticamente, o mesmo Celso de Mello decidiria que, se o juiz quisesse, a regra seria exceção.

Mesmo quando havia figuras polêmicas em jogo, e o Supremo contava com o apoio da opinião pública para permitir-se uma leitura fria dos acontecimentos, lambanças jurídicas foram cometidas, perdendo em razão para personagens como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro – no primeiro caso, reconheceram a inexistência de lei que tivesse sido infringida e destacaram que abriam ali uma exceção para enquadrar o peemedebista; no segundo, negaram imunidade parlamentar a uma fala em plenário horas depois de confirmar imunidade a um tweet publicado pela deputada Jandira Feghali.

Ironia do destino, Eduardo Cunha só se tornaria vital para o governo petista após mais uma presepada aprontada pelo STF, quando, em outubro de 2015, negou à oposição a possibilidade de contestar no plenário um eventual arquivamento do processo de impeachment. Resultado? O próprio presidente da Câmara, com poderes inéditos, passou a negociar diretamente com Dilma a absolvição no Conselho de Ética.

Na sequência, e numa desesperada tentativa de se salvar o natimorto segundo mandato de Dilma, ditaria passo a passo como queria o rito do impeachment, em desavergonhada ingerência nos poderes alheios. Aquela decisão renderia à petista um mês como uma presidente zumbi politicamente derrotada, mas com tinta na caneta para gerar prejuízos bilionários à nação.

Desde o Mensalão, em 2005, todos os nomes indicados à casa nasciam de um interesse político do PT. Até hoje, a corte vem esquecendo a postura técnica que deveria manter. E praticando o mesmo ativismo que critica em trabalhos como os de Sérgio Moro e Joaquim Barbosa. Contudo, em benefício de quem já tem benefício demais. Justo aqueles que não costumam estar do lado da Justiça.

Texto escrito em julho de 2016, revisado em abril de 2017.

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Onde estamos, hoje

A História do Brasil é feita de ciclos que se repetem de forma bem teimosa. Economia baseada em commodities: do açúcar ao café, do pau Brasil ao ouro; resistência a modernidade: das cidades com o mínimo de urbanismo possível à resistência em abandonar a escravidão (sendo um dos últimos países a proibir tal prática); política sem participação popular: do Império aos governos antidemocráticos de Getúlio e dos militares; exploração econômica baseada em tributos: da alta taxação do sal no séc. XVIII ao preço exorbitante da gasolina hoje.

 

Um outro ciclo também pode ser observado em nossa História, revoltas populares. Em 1684 o Brasil viveu o episódio da Revolta dos Irmãos Beckman, quando os irmãos Tomás e Manuel juntaram um grupo de 68 homens e se levantaram contra o governo do Maranhão, que monopolizava o comércio e, assim, estrangulava os comerciantes da região. Em 1710 ocorreu a Revolta do Sal, ocasião em que um proprietário de terras formou um pequeno exército e investiu contra o monopólio do comércio do Sal, artigo de primeira necessidade à época pois servia de alimento para o gado e também para a conservação de alimento por toda a população. Esses dois episódios são exemplos menores de uma grande lista conhecida por todo brasileiro que já estudou a História do Brasil no ensino primário.

Porém uma característica une todas as revoltas e guerras de nossa história. Da Inconfidência Mineira à Guerra dos Mascates, da Conjuração Baiana à Sabinada… todos os eventos ocorreram por insatisfação popular para com a alta carga de impostos acompanhada de má prestação de serviços públicos.

Essa lição é vital para que tenhamos segurança em nosso país. A população não consegue conviver por muito tempo com um governo inapto e guloso. E é onde estamos, hoje.

No momento em que escrevo este texto ocorre no TSE o julgamento da chapa Dilma-Temer. Se desenha um cenário [literalmente] bizarro. Quatro ministros do TSE tendem a absolver a chapa pois consideram que Caixa 2 é uma questão restrita a “crime eleitoral” e, assim, não é grande o bastante para gerar “instabilidade política” ao afastar um Presidente da República.

O Poder Executivo está desmoralizado há séculos. O Poder Legislativo já nasceu desmoralizado no Brasil. Restava, por parte da população, respeito apenas pelo Poder Judiciário, aquele que não se discute, se obedece. Esse respeito acabou.

O episódio onde o então Presidente do Senado, Renan Calheiros, deu um chá de cadeira em um oficial de justiça e, ao fim, acabou por não receber sua intimação foi um marco em nossa história. Se apagou a aura da Justiça.

Juntou-se a esse episódio medonho o fatiamento do impeachment de Dilma Roussef, a negativa em prender Renan Calheiros, a liberdade (inacreditável!) de Guido Mantega, a fuga de Joesley Batista organizada pela PGR e agora o fechar d’olhos para a campanha de 2014 que foi feita totalmente com dinheiro de propina.

E a carga tributária do cidadão que assiste o julgamento do TSE é de 33%.

Os 3 Poderes da República estão ignorando que vivemos o cenário perfeito para uma revolta. A população não aguenta mais viver sob o julgo de uma República antropófaga, um Estado que se alimenta da carne de seu próprio povo.

Ouço a cada dia mais pessoas pedindo por Intervenção Militar. Ouço a cada dia mais pessoas pedindo pelo fim do Congresso. Fora Todos. Constituinte. Diretas. Qualquer coisa mas alguma coisa por favor.

É preciso atenção pois onde estamos, hoje, é à beira do abismo.

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Sérgio Moro e Deltan Dallagnol têm na Lava Jato algo que a Mãos Limpas não tinha: a internet

Antonio Di Pietro está para a Itália como Sérgio Moro está para o Brasil. O primeiro coordenou a operação Mãos Limpas, que serviu de inspiração para a Lava Jato. Há tempos, circula na web um artigo assinado pelo juiz brasileiro delineando essa relação. Trata-se de uma leitura simples e rápida, indicada a qualquer interessado em entender o diferencial dessas para outras operações.

Contudo, o material escrito por Moro peca ao tratar a Mãos Limpas como um sucesso de poucas ressalvas. Em recente entrevista ao Estadão, Di Pietro surgiu como um servidor público ainda perseguido pelas forças políticas que levaram Berlusconi ao poder, jogando um balde de água fria em toda a investigação. O magistrado alerta para um momento que parece se reprisar na Lava Jato, quando os principais investigados usam os artifícios que restam para alterar leis e jogar o discurso contra os procuradores.

A preocupação é válida e o alerta deve ser absorvido por todos os envolvidos, desde os agentes federais aos próprios entusiastas da operação. Mas a Lava Jato possui algo que a Mãos Limpas não possuía nos anos noventa: a internet.

No Brasil, forças políticas, em especial as de esquerda, aparelharam basicamente qualquer setor que concentre formadores de opinião: imprensa, professores, movimento estudantil, sindicatos e a classe artística como um todo. Mas não conseguiram controlar a internet como gostariam. Sim, há ainda um exército de blogs e bots acionáveis nos momentos-chave. Mas todos esses cobram um preço por sua existência e nem sempre há grana em caixa para ativá-los.

Resultado? É na internet que as mentiras dessa militância, ou mesmo do governo, são desmascaradas. É na internet que as maiores manifestações são convocadas. É na internet que se protege a imagem de Deltan Dallagnol e sua trupe da máquina de propaganda estatal.

Não é uma guerra fácil e ela está longe de ser vencida. Mas, por mais que a milésima repetição de uma mentira a transforme em verdade, basta apresentar a realidade para que todo aquele trabalho sujo suma pelo ralo.

Se os corruptos brasileiros quiserem de fato melar a Lava Jato, precisarão ser bem mais hábeis que os corruptos italianos. Mas, até aqui, quem tem 90% de aprovação popular é Sérgio Moro.

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O mundo só superará a atual tensão política quando você sair da sua bolha de concordância

O que está acontecendo com o mundo? Por que de repente ele virou essa fonte inesgotável de tensão política? O que trouxe a humanidade a este ponto?

Qualquer um que alegue ter a resposta possivelmente mente – inclusive – para si mesmo. Mas, na busca pela verdade, acho salutar que tenhamos cada um nossas próprias desconfianças. E eu, claro, tenho cá minhas dúvidas.

Pois o caminho para a verdade é repleto de dúvidas. E essa não é apenas uma frase de efeito para as redes sociais. É a lógica usada por René Descartes ao fundamentar, ainda no século XVII, aquilo que seria batizado de “método científico”.

Pelas regras do procedimento, só se encara como algo próximo da verdade o que já restou evidente. Ou seja, já foi testado em todos os cenários possíveis, mas em nenhum deles foi devidamente desmentido.

Três séculos depois, Karl Popper concordaria que o bom cientista deveria focar-se na contestação de si mesmo. Pôr à prova as próprias crenças deveria ser a principal missão do pesquisador. E só com o fracasso dessa viria o sucesso deste.

Mas tal lógica não limita-se às paredes dos laboratórios. Ela faz parte do cotidiano de basicamente qualquer ser vivo que aprende com erros. Afinal, até animais irracionais evitam repetir experiências traumáticas – vide gatos escaldados que temem água fria.

Viés de confirmação

A busca pela verdade, contudo, e infelizmente, nunca esteve imune a vícios. Um de seus maiores algozes é caçado sob a alcunha de “viés de confirmação”. Trata-se do hábito de subverter o que Popper pregava focando-se apenas em resultados que corroboram a hipótese. E é aqui que mora o perigo.

Pois a prática rende ao erro contornos de acerto. E, por facilmente confundir-se com a verdade, o resultado ganha defensores apaixonados, transformando o equívoco em algo indiscutível, quase um dogma.

Tal fenômeno é observado na sociedade há milênios. Os mais céticos enxergam nele, por exemplo, a origem das religiões – os deuses só seriam onipotentes porque os devotos ignorariam os inúmeros eventos em que tais divindades falham miseravelmente.

Mas a tecnologia vem potencializando o efeito da droga. Aos 31 anos, Eli Pariser foi um dos primeiros a perceber o fenômeno. E, em 2011, após um punhado de experimentos, lançou The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You (em tradução livre, algo como “A Bolha de Filtro: o que a internet está escondendo de você”).

Bolha de filtro

Há meia década, o co-fundador da Avaaz.org surgia em livro incomodado com os algoritmos implementados com o objetivo de tornar a experiência na internet mais prazerosa. Graças à engenharia do software, qualquer conteúdo que agradasse o visitante ganhava destaque, enquanto o material mais incômodo era posto em segundo, terceiro ou quarto plano… Até chegar ao cúmulo de sumir.

Os exemplos observados partiam de sistemas de busca como Google e Yahoo, mas atingiam também redes sociais, como o Facebook ou Twitter. Nessa época, botões de “dislikes” já eram raros, os sistemas registravam apenas reações positivas, como “curtir”, “amar” ou “favoritar”. E, a depender do perfil de quem estava conectado, o conteúdo apresentado poderia apresentar um significado diametralmente oposto.

Assumidamente progressista, Pariser notou que seus amigos conservadores aos poucos desapareciam da vivência digital. E, ao consumir publicações compartilhadas por colegas, deparava-se com um exército de concordância, dando origem ao que chamou de “bolha de filtro”.

Essa anomalia apenas se intensifica com a postura dos próprios usuários, quando se dão a silenciar ou bloquear desafetos sempre que algum nível de desconforto é atingido.

O perigo, entretanto, não era o que estava dentro da câmara de eco, mas o que o sistema escondia lá fora. Pois, uma vez que ampliava-se o uso de algoritmos semelhantes, as bolhas fragmentavam-se ainda mais, e as chances de a realidade – ou a verdade – ser eclipsada apenas cresciam.

O impacto na sociedade era óbvio: indivíduos cada vez mais convictos de seus posicionamentos, estivessem eles equivocados ou não. Afinal, entregues ao viés de confirmação, eram expostos a ainda menos divergências.

Radicalização

Seis anos depois, é possível dizer que o óbvio se concretizou? Bom… Basta olhar o mundo. A discussões parecem ou não mais acaloradas? O radicalismo de lado a lado parece ou não mais evidente? Ainda que discordem mais umas das outras, as pessoas parecem ou não mais convictas de suas crenças?

É difícil encontrar exemplos que hoje soem mais moderados do que similares de tempos atrás. Donald Trump certamente tem uma voz mais radical que a de John McCain. Do outro lado, o tom de Bernie Sanders é muito mais incisivo que o dos Clinton ou Obama. No Brasil, Marcelo Freixo é muito mais radical que Fernando Haddad. E Jair Bolsonaro, que Ronaldo Caiado.

Se antes havia Al-Qaeda, agora há Estado Islâmico. Se antes havia MST, agora há black blocs. Há 25 anos, Michael Jackson usou o Super Bowl para protestar: “It don’t matter if you’re black or white“; ano passado, Beyoncé aproveitou o mesmo evento para dar visibilidade ao Black Lives Matter, grupo militante que chegaria a matar policiais americanos dali a alguns meses.

Claro, o recorte acima pode ser só mais um vício de confirmação. Mas juro que busquei lembrar-me de contrapontos que se tornaram mais moderados no período, e simplesmente não me ocorreram.

O que diabos está acontecendo com o mundo? A tecnologia facilitou o contato entre semelhantes, o que proporcionou a estes grupos menores sentirem ojeriza pela divergência dos demais. E, trancados numa rede de concordância, alimentam ódio contra qualquer discurso que sugira-lhe freios.

E o que fazer?

Sim, algo muito perigoso está em jogo. No passado, movimentos semelhantes e possivelmente menos intensos findaram em tragédias planetárias. Um desfecho parecido soa hoje ainda distante, mas a sensação de que novos passos são dados na mesma direção incomoda um tanto a mais a cada novo nascer do sol. Restando, então, uma questão vital: o que fazer?

Ao confrontar o dilema, de imediato lembrei de palavras ditas por Stephen Hawking em campanha publicitária da British Telecom, em 1993. Confesso não saber se são deles ou do redator contratado pela marca. Mas quero crer que um dos maiores físicos da história não emprestaria a voz a um texto do qual discordasse.

Originalmente, foi dito:

“For millions of years, mankind lived just like the animals. Then something happened which unleashed the power of our imagination. We learned to talk and we learned to listen. Speech has allowed the communication of ideas, enabling human beings to work together to build the impossible.

Mankind’s greatest achievements have come about by talking, and its greatest failures by not talking. It doesn’t have to be like this. Our greatest hopes could become reality in the future. With the technology at our disposal, the possibilities are unbounded. All we need to do is make sure we keep talking.

Abaixo, arrisco uma tradução:

“Por milhões de anos, a humanidade viveu como animais. Então algo aconteceu desencadeando o poder de nossa imaginação: nós aprendemos a falar e a ouvir. O discurso permitiu a comunicação de ideias, possibilitando a seres humanos trabalharem juntos para construir o impossível.

As maiores realizações da humanidade surgiram do diálogo, e seus maiores fracassos da recusa em conversar. Não tem que ser assim. Nossas maiores esperanças podem se tornar realidade no futuro. Com a tecnologia à nossa disposição, as possibilidades são ilimitadas. Tudo o que precisamos fazer é nos certificarmos de que continuemos conversando.

É por demais irônico, para não usar termos mais dramáticos, que justo a tecnologia seja a principal suspeita de nos impedir de “continuar conversando“. Mas será que, como sugeriu Hawking, nós nos certificamos em suficiência?

Enfim…

O que fazer? Voltar a conversar. Voltar a confrontar o desconforto da discordância. Ouvir, ainda que nada consigamos absorver das palavras ditas. Desbloquear o divergente, seguir novamente o contraponto, termos a consciência de que é enorme o risco de não sermos os donos da razão, e colocarmos à prova justamente as nossas maiores crenças.

Do contrário, prepararmo-nos para uma situação ainda pior. E ela já está péssima.

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“Petrolão” e “pedalada”: dois termos ingênuos que amenizaram os crimes cometidos

O governo Dilma Rousseff preferia chamar de “contabilidade criativa”, mas, desde a primeira geração dos “Meninos da Vila”, com Robinho enrolando zagueiros no Santos, que os analistas econômicos apelidaram a manobra de “pedalada fiscal”. Naquele tempo, o jornalismo já evitava dar o devido nome aos bois chamando pelo nome certo os crimes noticiados.

A falta de coragem para denunciar com termos mais incisivos permitiu ao PT, pouco mais de uma década depois, elaborar um questionamento cínico que só seria possível graças ao eufemismo: pedalada fiscal é crime? Ora… Basta experimentar a mesma questão com a expressão “fraude contábil”.

Mas esse não seria o único erro estratégico dos opositores aos governos petistas envolvendo nomenclaturas inadequadas. A Lava Jato, por exemplo, começou em 2008 investigando – como o próprio nome entrega – um lava jato. E colheria as provas muito lentamente até que, em abril de 2014, entraria na Petrobras. Quando foi conhecido o conteúdo da primeira delação bombástica, a de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da estatal, as redes sociais passaram a chamar o esquema investigado de Petrolão.

Sérgio Moro muito se esforçou para explicar às instâncias superiores, ou mesmo à imprensa, que em jogo não estava a saúde financeira da empresa, mas uma relação promíscua entre poder público e iniciativa privada, que não se restringia a uma estatal, ao país ou mesmo ao passado recente. Nada disso comoveu o STF, que abusou do argumento para tirar de Curitiba temas que não mostrassem ligação direta com a Petrobras. Desta forma, por exemplo, a roubalheira da Consist e os estragos no setor elétrico foram remetidos para São Paulo e Rio de Janeiro respectivamente.

Todavia, foi justo em depoimento à justiça fluminense que Otávio Marques de Azevedo deu detalhes da falcatrua até então pouco conhecidos. Segundo o ex-presidente da Andrade Gutierrez, o PT tinha por norma tomar 1% em propina dos projetos que conseguia para as empreiteiras que o financiava. E isso não dizia respeito a uma estatal específica, mas a todas as obras do Governo Federal.

Lembra ou não lembra o argumento de Moro?

De uma siderúrgica na Venezuela, Azevedo cita algo próximo dos R$ 15 milhões ao PT. De Belo Monte, dez vezes mais: R$ 150 milhões. Valores achacados apenas da Andrade Gutierrez.

Onde os números podem chegar? Só a primeira fase do PAC, por exemplo, consumiu mais de meio trilhão de reais. Ou seja: se de fato seguiu à risca a própria norma, o programa usado pelo petismo como vitrine para eleger Dilma superaria em no mínimo 5 vezes o bilhão em propinas.

Isso não é grave, é gravíssimo. E “Petrolão” soa um termo pequeno demais para simbolizar tamanha gravidade.

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O espírito social

Na semana que se passou, em uma reunião na escola da minha filha eu conheci mais uma pessoa dentre tantas outras que, embrenhadas da vontade de viver em uma sociedade mais justa, se alinham à esquerda política como única via possível.

O professor da minha filha é um profissional muito bom, gosta das crianças e dá aulas com conteúdo inteligente. Minha filha o adora. Eu também o adoro, claro. Ele é o típico universitário socialista, cabelo comprido, roupa surrada, barba… e a vontade de ver a classe mais pobre da sociedade tendo oportunidades e ferramentas para vencer na vida.

Infelizmente a propaganda política da esquerda é um engodo. É apenas uma isca que atrai os bem intencionados e depois os transforma em militantes de uma causa que visa beneficiar apenas seus líderes.

Seria excelente termos uma linha política que utiliza todos os meios – legais e democráticos – para beneficiar a parcela mais pobre da sociedade ao invés de distribuir privilégios a quem já venceu na vida. Porém essa linha não existe na prática política, só na propaganda. E é aí que o professor da minha filha se vê praticando exatamente o oposto do que é necessário para ajudar os mais pobres. Ele é grevista.

Em quatro meses de ano letivo ele já acumulou mais de 30 dias de greve. Professor do ensino fundamental, responsável pela educação de crianças de nove e dez anos, grevista. Professor de escola pública, onde crianças que precisam adquirir conhecimento ficam, em boa parte do tempo, apenas brincando pois o professor faltou.

A reunião na escola foi marcada pela coordenadora porque, na segunda-feira, alguns alunos fizeram (de brincadeira?) um protesto na hora do recreio pedindo #ForaProfessorGrevista. O professor, na volta do recreio, disse a esses alunos que eles são muito inocentes e não devem brincar com coisa séria pois, as greves das quais ele participa são em favor dos direitos dos mais pobres, ou seja, é pelo bem dos próprios alunos.

Eu tento sempre manter diálogos abertos, me nego a torcer o nariz pra alguém só por discordar de mim. Converso com o professor da minha filha, falo pra ele que não concordo com a postura dele mas que, mesmo assim, ele está de parabéns pela capacidade docente que tem. Mas sempre deixo claro que sou absolutamente contrário a greve de professores. Educar é uma tarefa vital ao desenvolvimento humano. Se a categoria quer melhores condições de trabalho então que cobre de seu sindicato uma maior representatividade e efetividade, afinal, o Sinpro é um dos sindicatos mais fortes deste país de 16 mil sindicatos.

E assim segue o jogo da política de esquerda. Vende a ideia de que é defensora do social, e quando chega ao poder se torna algoz da sociedade. O professor que faz concurso da Fundação Educacional e, depois que assume, faz greve. O sindicato que elege seu corpo organizacional mas, ao invés de utilizar seus funcionários para pressionar os governos, utiliza os professores.

A defesa dos mais pobres não pode ser um fim em si mesmo, deve ser um objetivo que guia a cada um de nós que luta por um Brasil melhor.

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Dos “20 do MASP” ao “milhão da Paulista”, a saga de um Brasil que não se entregou

Era também uma tarde de um domingo de verão. Por volta de 1.800 pessoas confirmaram presença no protesto via redes sociais. Mas apenas 20 apareceram no vão do MASP para exigir que o envolvimento do ex-presidente Lula junto ao Mensalão fosse apurado. A imprensa, já com o petismo escorrendo pelo poros, reportou cinicamente o que presenciou naquele 13 de janeiro de 2013. As duas dezenas de manifestantes viraram motivo de piada na internet. Mas aquilo que se pretendia aniquilá-los de vez apenas serviu para unir o grupo – que passou a atender pela alcunha de “Os 20 do MASP“.

IMG_6529Dois anos de uma agenda de protestos depois, a imprensa teve que se render. O G1 fechou as contas da PM em 2,3 milhões de pessoas nas ruas de ao menos 160 cidades de todos os estados do país exigindo o fim da corrupção e o impeachment de Dilma Rousseff. Na primeira tentativa de resposta do governo ao 15 de março de 2015, um novo panelaço se ouviu na noite das maiores cidades da nação. A cereja do bolo ocorreu já na manhã desta segunda. Renato Duque, o homem que contou com esforços pessoais de Lula para sair da cadeia, foi novamente preso, dessa vez na décima etapa da operação Lava Jato. Internamente, o PT teme que ele não tenha força para esconder o que sabe, como no passado tivera Delúbio Soares, entendido pelo partido como um herói por topar ir à prisão sem denunciar o ex-presidente.

O jogo virou

Fui destacado pelo Implicante para, em campo, registrar a história do dia de ontem sem intermediários. E ela começa, num tempo em que tanto se falou de seca, com chuva. Nada de outro mundo, mas o suficiente para já amarrar em casa alguns amigos que não estavam com a saúde em dia e temiam uma piora. Chegamos ao metrô num grupo bem menor que o acertado por Whatsapp. Mesmo assim, nos vimos obrigados a dispensar o primeiro trem rumo à Paulista pois já se encontrava lotado meia hora antes do combinado.

Harry Potter não é trouxa.

O grande temor era o fiasco, era a constatação de que os 100 mil previstos pelas redes sociais se dissolveriam na garoa fraca de um fim de semana abafado. Mas a descida na Consolação já dava o tom do que viria: gritos e “apitaços” animavam um mar de gente vestido em verde, amarelo, azul e branco. Era nítido, no entanto, que se tratava de um grupo desacostumado a eventos do tipo. Os gritos eram desencontrados, assim como a dinâmica. Enquanto uns iam, outros já voltavam. Contudo, o que poderia refletir desorganização entregava algo cada vez mais raro em manifestações do tipo (vide o que ocorrera dois dias antes): espontaneidade. Tanto que o primeiro canto a ser largamente entoado partiu de uma senhorinha ao nosso lado que lembrava a todos que estava lá a serviço de ninguém: “Eu vim de graça!”

Ao final do primeiro terço da Paulista, finalmente encontramos um caminhão com microfones e discursos. A estrutura era pequena, atingia apenas a fração de pessoas mais próximas ao veículo, de fato é impossível acreditar que alguém graúdo estaria por trás daquilo. Opta-se por cantar o hino da Independência em vez do hino Nacional. Um sindicalista tenta falar e logo é vaiado. Assim como alguém que tenta apresentar um discurso em tom religioso. Os aplausos pareciam estar guardados para “Ronaldo Fenômeno”, que recebe o microfone, pede mudanças, mostra a camisa em que assume ter votado em Aécio e sai de lá ovacionado.

Mais próximo ao MASP, uma cena curiosa funciona como retrato deste momento político: enquanto Lucas Salles, novo repórter do CQC, tenta fazer sua graça em uma reportagem e é constantemente vaiado por quem não esqueceu as pautas petistas que o programa levou ao ar durante a campanha; Léo Lins, repórter do The Noite, programa do ex-CQC Danilo Gentili, que jamais se furtou de qualquer crítica ao PT, é abraçado e dá autógrafos.

Enquanto repórter do CQC é hostilizado...

...repórter do The Noite dá autógrafos e faz selfies.

Humans of Protesto

Quem é John Galt?

Um homem vestido de espartano questionava a representatividade de Dilma. Um garoto fantasiado de Harry Potter dizia não ser “trouxa” (um trocadilho com a forma como os humanos são tratados perante os bruxos da série). Uma faixa dizia não aceitar mais socialismo. Outra lembra que Toffoli, ministro do STF, é suspeito (por ter trabalhado como advogado do PT em ao menos 3 campanhas). Uma placa estampa os dizeres “Je Suis Caminhoneiro”, em referência não só ao massacre do Charlie Hebdo, mas também à primeira grande greve do segundo mandato de Dilma. Eram cartazes bem humorados, mas que denotavam algum nível de consciência do noticiário. Eu mesmo precisei assumir minha ignorância e perguntar aos meus pares quem era o John Galt questionado por uma manifestante. E a resposta rendeu uma interessante busca no Google.

Num breve exercício sem qualquer valor científico, interpelei os primeiros dez cartazes que cruzaram meu caminho. A intenção era entender um pouco o perfil de quem estava ali exigindo pautas do governo.

  1. Wilson, 61 anos, um ferramenteiro,
    pedia impeachment não só de Lula, mas também de Haddad, assim como um enfraquecimento geral do PT.
  2. Bárbara, 11 anos, estudante,
    nos ombros de seu pai, lembrava que a corrupção prejudica a educação brasileira.
  3. Antonio, 20 anos, também estudante,
    lembra que Dilma não o representava.
  4. Carlos, 64 anos, autônomo,
    queria a volta da independência entre os 3 poderes.
  5. Leonardo, 19 anos, ajudante geral,
    se dizia contra ladrões e a favor do Brasil.
  6. André Luís, 30 anos, corretor de seguros,
    se dispunha a pagar a passagem de Dilma para a Indonésia.
  7. Fabio, 33 anos, professor de inglês,
    chamava Dilma de mentirosa.
  8. David, 24 anos, enfermeiro,
    lembrava que estava lá sem qualquer financiamento, pois a honestidade dele não tem preço.
  9. Joaquim, 62 anos, advogado,
    definia golpe como a sabotagem que o PT vem fazendo do nosso regime democrático.
  10. Rodrigo, 49 anos, produtor rural,
    reclamava da prioridade que o PT vem dando à manutenção do próprio poder.

Duas horas de caminhada depois, finalmente encontramos uma esvaziada referência a intervenção militar.

Apenas após duas horas de caminhada, encontrei um primeiro cartaz – na verdade, um caminhão com uma faixa – defendendo intervenção militar. Estranhamente, num clarão em frente ao MASP, onde deveria ser o ponto de maior concentração. Era evidente o incômodo de quem passava à sua frente e logo buscava sair dali. Um grupo de mais ou menos 150 pessoas, alguns vestindo o “verde oliva”, defendiam que, por o sistema estar completamente contaminado de corrupção, só uma drástica quebra com ele colocará o Brasil no rumo. Usando uma interpretação própria da Constituição de 88, acreditam estar fazendo algo legal. De minha parte, acho natural que, em um grupo que chegue ao milhão de indivíduos, uma pequena parcela deles se entreguem a ideais mais radicais. Acho estranho, no entanto, que justo naquele ponto a imprensa se concentrasse. Em um segundo caminhão, do outro lado da rua, algumas dúzias de repórteres cinematográficos buscavam gerar ali um recorte do evento. Na ponta dele, o repórter do CQC xingado minutos antes gravava mais um depoimento para o programa que, acredito, irá ao ar mais tarde.

A batalha contra os “jornas”

Os protestos envolviam também o pode judiciário

Parece apenas um apelido carinhoso para com os jornalistas, mas é como parte da internet vem apelidando o profissional de comunicação que não faz seu trabalho de forma exemplar, se permitindo, mesmo que disfarçadamente, um viés governista. Na volta para casa, já com acesso completo a TV e internet, buscamos entender melhor o que testemunhamos lá do meio. Um estranho ruído de motor que ouvimos ao longe? Uma centena de motociclistas que cruzaram a Paulista se somando ao protesto. Um helicóptero que cortava o céu a todo instante? Era a polícia militar fotografando a manifestação para chegar ao número apresentado ao final. O engarramento na saída do “palco da festa”? A talvez mais simbólica cena de toda a tarde: caminhoneiros que partiram de Santos com suas famílias para se somarem à multidão.

No entanto, parte da imprensa parece não querer aprender a lição dada pelos “20 do MASP” e insistem em praticar a pauta proposta pelo PT. Na TV, uma repórter da Rede Record levanta bolas para Cardozo cortar, reclamando da desproporção do evento de São Paulo com as demais cidades do país (e ignorando que essa desproporção já começa pelo tamanho da população). Na internet, o Datafolha retira da gaveta o polêmico métodoutilizado para contar multidões em manifestações. Por que não o usaram para medir as manifestações de junho de 2013?, pergunto-me sem chegar a uma resposta. No site do PT, com o auxílio de alguns eufemismos, o partido da presidente da república acusa a rede Globo de tramar um golpe, mesmo a emissora evitando ao máximo pronunciar a palavra “impeachment” em sua cobertura.

Je Suis Caminhoneiros

Só às 21 horas temos contato com um trabalho jornalístico digno de aplausos. Por 27 minutos, o Fantástico viaja pelo país para mostrar que a manifestação atingiu todo o Brasil, mesmo que mais concentrada na região sudeste. Identifica os pontos negativos, mas reforça que foram ofuscados pelos positivos. Se há algo que se pode questionar é a postura crítica à ideia de impeachment, mas finalmente o canal se permitiu entrar no debate. Como ele está apenas começando, há tempo para essa postura ser revista.

Na semana passada, juntamente com a Reaçonaria, convidamos o Movimento Brasil Livre e a Turma do Chapéu a assinar um manifesto em defesa de uma cobertura limpa no Dia 15. Por mais ingênua que a iniciativa soasse, ela chegou a 13 mil curtidas apenas neste site. A ideia era alertar a imprensa da responsabilidade que tinha para com o dia de ontem. Mas, igualmente, denunciar à população da malícia de algumas reportagens, como a que inesperadamente deu vida aos 20 do MASP, também signatários do texto.

Não se esperava com isso revolucionar a imprensa brasileira em uma semana, mas fechar um pouco mais o cerco ao mau profissional de comunicação. Sempre que um grande acontecimento vem a público, há toda uma batalha de informação travada na mídia. A internet vem sendo o campo onde cidadãos livres conseguem fazer a fiscalização que parte do jornalismo se nega. Who watches the watchmen? Aqui na web essa missão vem cabendo aos usuários das redes sociais. Ela não vem sendo cumprida exclusivamente com acertos, mas é certo que a verdade possui bem mais sustenção que a mentira, o que nos faz crer que, ao final, o bem prevalecerá.

Quando virá este final? Antes para uns, depois para outros. Que este 15 de março represente o fim da primeira batalha de uma grande guerra que apenas se inicia. Um batalha que colocou um país em debate; uma guerra que pretende colocar o país no rumo. Ontem, um em cada 10 paulistanos tomou chuva e sol para passar a tarde em pé exigindo decência do governo. Ontem, um em cada 100 brasileiros foi às ruas pedir a queda de Dilma, de Lula e do PT. Mas jamais esqueceremos que isso começou com apenas 20 pessoas no vão do MASP. E que a imprensa nacional fez pouco caso do fato.

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Sete testemunhas já entregaram que Dilma sabia do Petrolão ou do uso de caixa 2 em 2014

O primeiro a abrir a boca foi o doleiro Alberto Yousseff, ainda antes de Dilma Rousseff ser reeleita. Em depoimento à Lava Jato, disse que Lula e a sucessora eram coniventes com o esquema corrupto que corroía a Petrobras. Na ocasião, a Veja adiantou a capa com o furo, o que forçaria uma resposta veemente da candidata no último programa eleitoral.

Em setembro de 2015, Pedro Corrêa, ex-presidente do PP, foi mais um a testemunhar a ciência de Dilma a respeito do Petrolão. E ganharia a companhia de Delcídio do Amaral em maio de 2016. Sete meses depois, seria a vez de Marcelo Odebrecht fazer o mesmo. Em junho de 2016, Nestor Cerveró se fez claro ao dizer que Dilma mentira sobre a compra de Pasadena. Antes, a IstoÉ já havia publicado o contrato que comprovava a participação da presidente cassada nas negociações da refinaria.

Agora, Monica Moura e João Santana dizem que Dilma tinha pleno conhecimento do fato de a campanha dela fazer uso de caixa dois.

A coisa não ficou apenas no escândalo investigado pela Lava Jato. O jornalista Ricardo Noblat noticiou que a petista arquitetou a anulação do próprio impeachment. Técnicos do Governo Federal chegaram inclusive a alertá-la para que não cometesse as tais “pedaladas fiscais” que a derrubariam. Ainda no primeiro mandato, e sempre segundo testemunhas, a ex-presidente sabia do enriquecimento de Antonio Palocci, das irregularidades que aconteciam no Ministério dos Transportes, e de irregularidades no convênio com ONGs noticiadas ao Ministério do Trabalho.

Não por outro motivo, para 84% dos brasileiros, Dilma sabia da corrupção na Petrobras.

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O Escola Sem Partido chega a errar, mas o total de acertos é bem superior

Inspirado no movimento Escola Sem Partido, o Projeto de Lei do senador Magno Malta não é perfeito, mas acerta bem mais do que erra. Tais erros, contudo, se assim concordarem os senadores, podem ser vetados quando a ideia vier a ser apreciada na Casa.

Logo de cara, o segundo artigo estabelece princípios que já deveriam estar em voga, mas, na prática, são barrados justamente por interferências de correntes políticas e/ou religiosas. Ao contrário do caráter censor que vem sendo explorado por seus críticos, a lista cita por três vezes o termo “liberdade”, ampliando um leque que hoje encontra-se fechado em poucas direções. São eles:

I – neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado;
II – pluralismo de ideias no ambiente acadêmico;
III – liberdade de aprender e de ensinar;
IV – liberdade de consciência e de crença;
V – reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado;
VI – educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença;
VII – direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.

Contudo, o parágrafo seguinte soa provocador. Se vale por blindar o indivíduo de uma influência estatal a respeito das características sexuais dos estudantes, cita sem necessidade a “ideologia de gênero”, levantando a bola para a esquerda – que carrega a bandeira – chamar de censura.

Parágrafo único. O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

No quinto artigo, o PLS 193/2016 aponta o alvo para o professor. E tudo que se exige já deveria ser regra de um profissional que alega agir em nome da ciência, ou seja, do eterno confronto da pluralidade de ideias, inclusive – e principalmente – das opostas:

I – não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias;
II – não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;
III – não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;
IV – ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;
V – respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;
VI – não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula.

O oitavo artigo tenta definir como será feita a fiscalização da lei. Basicamente, o ministério e as secretarias de educação passariam a ter canais para denúncias até mesmo anônimas, e o órgão do Ministério Público à frente da defesa dos interesses da criança e do adolescente entraria em campo.

Art. 8º. O ministério e as secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato.

Parágrafo único. As reclamações referidas no caput deste artigo deverão ser encaminhadas ao órgão do Ministério Público incumbido da defesa dos interesses da criança e do adolescente, sob pena de responsabilidade.

Por fim, são enumeradas cinco aplicações da lei, que basicamente envolvem os conteúdos curriculares, os planos educacionais, as avaliações, os concursos e as instituições de ensino superior.

I – às políticas e planos educacionais e aos conteúdos curriculares;
II – aos materiais didáticos e paradidáticos;
III – às avaliações para o ingresso no ensino superior;
IV – às provas de concurso para o ingresso na carreira docente;
V – às instituições de ensino superior, respeitado o disposto no art. 207 da Constituição Federal.

Se há mais pontos polêmicos, eles surgem no texto da justificativa, que não virará lei, mas será usado no plenário para aprovar ou reprovar as ideias acima. Na própria introdução, enfatiza-se o que chamam de “moral sexual” e defende-se que se trata de uma característica “ensinada” pelos pais, algo que costuma ser frontalmente combatido pela academia brasileira.

É fato notório que professores e autores de materiais didáticos vêm se utilizando de suas aulas e de suas obras para tentar obter a adesão dos estudantes a determinadas correntes políticas e ideológicas para fazer com que eles adotem padrões de julgamento e de conduta moral – especialmente moral sexual – incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis.

No quarto ponto, por exemplo, há uma afirmação bem confusa a respeito da liberdade de expressão e que deve render uma justificada polêmica:

Não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente, sob pena de ser anulada a liberdade de consciência e de crença dos estudantes, que formam, em sala de aula, uma audiência cativa.

Mas só teme os outros quinze destaques quem sabe que perderá uma fortíssima ferramenta política se o Escola Sem Partido for adiante.

Infelizmente, a esquerda não percebe que ela própria tem bastante a ganhar caso a lei passe. Afinal, com esse texto, é possível podar até mesmo avanços totalitários dos professores mais conservadores, em especial os religiosos, forçando-os a respeitar em sala de aula uma pluralidade maior de ideias do que as que encampam.

Você pode dizer ao Senado o que pensa a respeito do projeto clicando aqui.

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