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Até quando jornalistas políticos repetirão a mentira de que Temer não recebeu qualquer voto?

Eu havia sido contratado para atualizar o Twitter do candidato. Mas, já no primeiro dia, me deram pouco mais de três horas para conseguir uma câmera fotográfica profissional e correr até a Praça do Relógio. A missão: fotografar Henrique Eduardo Alves, que buscava o 11º mandato na Câmara Federal, ao lado de Dilma Rousseff, que almejava o primeiro na Presidência do Brasil. Seriam dados a mim não mais do que 15 minutos, ou todo o tempo que a candidata petista reservaria ao Rio Grande do Norte naquele primeiro turno de 2010.
Como, ainda assim, ela conquistaria 51% dos votos na apuração seguinte?
Nem o próprio Lula levava a sério o trabalho do PT potiguar. Inexpressivo, apoiava naquela eleição o candidato do PSB que seria derrotado por Rosalba Ciarlini, uma das piores gestoras da história do RN. A votação de Dilma viria em peso do interior, onde carro na rua atinge muito mais resultado do que tempo de TV.
Por dois meses e meio, por terra, água e ar, rodaríamos mais de oitenta municípios. Por inúmeras vezes, em mais de 120 atos, flagraria eu populares em dúvida se a candidata proposta pelo PT de fato tinha condições de governar o Brasil. Em todas as manifestações, os nomes do PMDB faziam reverberar no sertão e no litoral nordestino que Lula era Dilma, que Dilma era Lula, que, se o Nordeste aprovava o trabalho de Lula, deveria votar em Dilma.
A foto que fiz ficou péssima. A petista não participaria da carreata pelo centro de Natal, mas apenas do comício ao final. E viria rodeada de um antipático escudo de assessores que impedia qualquer aproximação. O próprio Henrique Alves teve dificuldades para cumprimentá-la. Era o meu primeiro dia de trabalho. E a última vez que veria Dilma ao vivo.
A jornada se encerraria a dois dias do primeiro turno, após viagens que somaram 25 mil km. E contaria com um convidado ilustre: o ainda deputado federal Michel Temer encerraria a busca pela Vice-Presidência ao lado do amigo que, dois anos depois, presidiria a Câmara dos Deputados. Sem um muro de assessores, sem a arrogância petista, sem a antipatia de Dilma e com disposição para apertar qualquer mão a ele estendida, inclusive a minha.
O plano – Henrique não escondia de ninguém, nem o próprio Temer – era dar o suporte a dois mandatos do PT na Presidência da República, aguardar do petismo, em 2018, a retribuição da gentileza e finalmente fazer do peemedebista presidente do Brasil. Cético, jamais acreditei que a esquerda aceitaria figurar na fotografia menor da urna eletrônica. O desprezo que hoje explicitam pela figura do vice confirma que meu ceticismo tinha razão de existir.
Diariamente, ainda leio da parte de jornalistas políticos que Michel Temer assumirá a Presidência sem qualquer sufrágio recebido, quando o peemedebista não só obteve os mesmos 54,5 milhões de votos conferidos a Dilma, como conquistou grande parte deles, conforme testemunhei, inclusive no Nordeste, onde o PT concentra mais forças até hoje.
A imprensa brasileira precisa acordar para a realidade. E passar finalmente a retratá-la.

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