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Dilma não é honesta e seu impeachment é fruto de uma luta que merece ser respeitada

Na lógica parlamentar, o Senado é a câmara encarregada de representar os estados da federação, por isso possui o mesmo número de senadores independente da quantidade de eleitores. Quanto à Câmara dos Deputados, é chamada de “a casa do povo”, afinal, tenta espelhar a representatividade de cada população – ainda que com algumas distorções.

Se causou escândalo a qualidade dos discursos dos deputados que votaram o recebimento do impeachment de Dilma Rousseff, é preciso ressaltar que eles somam mais votos do que a presidente (enquanto ela recebeu 54,5 milhões, eles contam com 58,1 milhões), que poderiam ter até mais se não fosse o quociente eleitoral, e que gozam de plena legitimidade para tocar o processo. A maior parte deles, inclusive o polêmico Jair Bolsonaro, ao menos desde a eleição de 2006, fazia parte da base parlamentar que pedia voto à petista (e ao antecessor). Mais do que isso: esse apoio não vinha de graça, mas mediante acordos criminosos e financeiros entre os envolvidos.

Que esses acordos nasciam da ganância autoritária petista, que, para não ceder politicamente, preferia comprar, tantas vezes em dinheiro vivo, o apoio necessário para governar. E para isso recorria ao “baixo clero”, ou aos deputados mais baratos, dando cada vez mais espaço a políticos toscos e corruptos.

Que, na véspera da votação, essa presidente, numa missão assumida por Lula em um hotel 5 estrelas de Brasília, estaria comprando por R$ 2 milhões, de novo em dinheiro vivo, cada voto restante. Que Lula escapou do hotel quando a oposição pediu uma busca e apreensão no Royal Tulip. Que todos os deputados governistas chamaram essa presidente de honesta apostando na completa ingenuidade de quem acompanhava a votação.

Que, numa estimativa inicial, pois trata-se de uma negociação feita por baixo dos panos, cada voto do governo teria custado aos cofres públicos pelo menos R$ 340 milhões. Que, ao todo, Dilma e Lula comprometeram o equivalente a dois anos de Bolsa Família para evitar o impeachment. Que esse grupo tentou mudar leis para evitar a cadeia, refugiou um investigado da polícia federal no Palácio do Planalto e perseguiu fiscais cumpridores de seu dever. Que esse grupo ameaçou de morte pelo menos três jornalistas conhecidos meus, três jornalistas que precisaram se exilar – um deles, em uma tribo indígena – ou teriam o mesmo destino de Celso Daniel, Toninho do PT, José Carlos Arruda e outros oito mortos em situações mal explicadas.

Que o impeachment não começou ontem, mas há 18 meses quando alguns poucos milhares de manifestantes, sem qualquer central sindical, sem qualquer apoio na imprensa, sem mortadela ou ajuda de custo por parte do governo, foram às ruas protestar contra o grupo corrupto desenhado no parágrafo anterior. Que, em 18 meses, toda uma batalha argumentativa foi travada: primeiro, foi preciso provar a crise; segundo, que a crise foi provocada por esse grupo; terceiro, que a provocação ocorrera em decorrência de esquemas de corrupção; quarto, que havia provas desses esquemas; por fim, e era o que estava em votação na Câmara, que todas as provas levantadas tinham consistência e foram colhidas dentro da legalidade. Não sem antes esses manifestantes terem que dar seguidas provas de que contavam com apoio popular e organizarem, sem qualquer estrutura, os quatro maiores atos políticos da história do país.

Os deputados citavam temas que nada tinham a ver com a denúncia? Porque faziam cena para o horário político das próximas eleições e precisavam conversar em segundos com os eleitores que os colocaram lá. Mas a ata da reunião constará apenas o SIM, o NÃO, a ABSTENÇÃO ou a FALTA. E essas quatro opções dirão respeito apenas às 65 páginas do pedido assinado por três renomados juristas, que usaram um parecer votado por unanimidade pelo Tribunal de Contas da União para provar que a presidente cometeu crimes fiscais bilionários, e que esses crimes possuem íntima ligação com a crise econômica que já acumulou 10 milhões de desempregados no Brasil.

Desmerecer o acontecimento porque dois de 513 deputados homenagearam os militares líderes da ditadura brasileira é injustamente invalidar toda a jornada aqui já detalhada. Ainda mais quando, do outro lado, em um número maior, elogiou-se tiranos comunistas ou mesmo fascistas, como Getulio Vargas, um ditador brasileiro que, na sua atrocidade mais famosa, mandou uma opositora grávida para a morte na mão de nazistas.

Revoltar-se porque, no país mais cristão do mundo, a maioria dos parlamentares citou termos como “família” ou “Deus”, data maxima venia, soa caso de merecido tratamento psicológico para adolescência tardia.

O efeito mais prático do impeachment de Dilma será sentido nas próximas gestões: ou os senhores políticos passam a respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, ou sabem que perderão o mandato; ou os senhores publicitários imaginam uma eleição limpa, ou a população irá às ruas na semana seguinte e eles terminarão na prisão; ou a imprensa para de fazer o jogo do governo, ou irá à falência por puro descrédito.

Mas é possível incluir mais um: ou o brasileiro toma vergonha na cara e se informa decentemente sobre como se dá o jogo político, ou continuará levando “olé” de quem se informa.

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.” No 17 de abril de 2016, a TV mostrou a Câmara dos Deputados, e viu-se um Brasil muito problemático. Mas, se o eleitor só viu problema em um dos lados, não poderá se dizer um cidadão saudável.

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