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Durante a votação, por 64 oportunidades governistas chamaram de golpe o impeachment de Dilma

Minhas primeiras semanas de São Paulo já seriam agitadas. Mal havia completado um mês no novo endereço quando um grupo neonazista marcaria um ato no vão do MASP, vejam só, em defesa de Jair Bolsonaro. A pauta não era nordestinos como eu, mas lembro de, naqueles dias, encontrar nos postes da Paulista panfletos contra a xenofobia. E, claro, temi que aquele fosse o início de um movimento que me expulsaria para o “sonho feliz de cidade” do qual eu vinha.

O sábado chegaria e, para meu alívio, apenas uma dúzia de manifestantes atenderia ao chamado.

Radicais sempre existiram, sempre existirão e meu receio se focava na representatividade da qual gozavam. Confirmar que eram capazes de mobilizar apenas 0,0001% da cidade na qual residia me trouxe a tranquilidade almejada.

Neonazistas apoiarem Bolsonaro não implica em Bolsonaro apoiar neonazistas. Mas a família Bolsonaro não esconde de ninguém o apoio que rende aos militares que comandaram a ditadura brasileira entre 1964 e 1985. E dois desses fizeram questão de homenagear estes ao votarem o impeachment de Dilma Rousseff em 17 de abril passado. Seus apoiadores argumentam – com um mínimo de razão – que ditadores e torturadores também foram homenageados pelos governistas. E focam o contra-ataque em Carlos Marighella.

Consultei as notas taquigráficas da Câmara e encontrei, em contraponto às duas homenagens feitas pelos bolsonaros, duas reverências ao guerrilheiro, feitas por Valmir Assunção, do PT baiano, e Glauber Braga, do PSOL fluminense. Somados, os lados representam apenas 0,77% da Câmara dos Deputados. Ainda que seja considerada a quantidade de votos recebida para se estar lá, a direita leva vantagem, mas não deixa de se mostrar insignificante como a esquerda, vencendo a disputa por 0,94% a 0,35%. Jean Wyllys, o deputado que cuspiu, errou o alvo e saiu correndo? Representa parcos 0,25% dos votos que aquela casa possui. Jandira Feghali, que não pode ver um microfone aberto e faz escândalo a favor do PT? Nanicos 0,12%.

O também polêmico Getúlio Vargas foi lembrado por Hermes Pacianello, que votou “sim”, mas veio a ser homenageado por Afonso Motta, que votou “não”. Cuba seria citada como um mau exemplo por JHC, que votou a favor do processo. A Coreia do Norte receberia uma segunda menção na voz de Fausto Pinato, que também votaria pelo impeachment e seria o único a colocar a Venezuela na discussão.

Excluída a barulheira mais radical, no entanto, restam números preocupantes. E nada tem a ver com as 59 oportunidades em que Deus seria citado, afinal, é este o país com o maior número de cristãos do mundo.

O que deveria preocupar de verdade? Os 11 parlamentares que, a essa altura do campeonato, defenderam que a presidente seria uma gestora honesta. Ou ainda as 64 oportunidades em que o microfone seria usado para gritar que o Brasil sofria ali um golpe de Estado, enquanto os desmentidos da oposição não passariam de nove, deixando ecoar, sem obstáculos, a versão que interessa aos criminosos no alvo do impeachment.

A coisa chegaria a tal absurdo que os governistas nem citavam mais o processo, mas o que chamavam de “golpe”, e a mesa ainda assim contabilizava o voto, como quando Leo Brito, do PT acreano, se pronunciou:

O SR. LEO DE BRITO (PT-AC.)
Em respeito à democracia; em respeito à soberania do voto de 54 milhões de brasileiros; em respeito à Constituição; na luta por um Brasil melhor, sem recuar, sem cair e sem temer, meu voto é “não” ao golpe, Sr. Presidente.

O SR. FELIPE BORNIER
Deputado Leo de Brito, do PT do Acre: voto “não”. Total: 33 votos.

A oposição segue achando que discurso no jogo político não passa de um detalhe. O PT estava ciente da derrota quando seis dezenas de apoiadores foram ao microfone pagar o mico de chamar de golpe o mesmo processo que pediram contra todos os ex-presidentes que antecederam os petistas. O opositor, mesmo ciente da vitória, e mesmo porque estava em número muito maior, deveria ter usado o microfone ainda mais vezes para desmentir um governo desacreditado. Apoio público não faltava.

Tirar o PT da presidência é uma luta tão complexa quanto mantê-lo fora. O petista sabe disso. A oposição ignora. E a guerra está apenas começando.

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