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É triste constatar que a opção mais segura seria um terceiro mandato para Rodrigo Janot

Eugênio Aragão é ainda subprocurador-geral da República, mas foi o último ministro da Justiça nomeado por Dilma Rousseff para o cargo. Mais precisamente quando faltavam dois meses para ela ser afastada da Presidência da República. Na ocasião, Deltan Dallagnol o considerou o maior inimigo da Lava Jato.

Em Brasília, a operação é comandada por Rodrigo Janot, que toca os trabalhos com o ritmo que as autoridades com foro privilegiado adoram. Neste último domingo, Aragão usou as páginas do Estadão para detalhar como uma longa amizade entre a dupla acabou em maio passado, já após Michel Temer assumir interinamente o comando do país.

Pelas palavras de Aragão, Janot:

  1. Cogitou indicar o “maior inimigo da Lava Jato” para uma vaga no STF.
  2. Sugeriu a Aragão que mantivesse alguma discrição se quisesse de fato o cargo.
  3. Revoltou-se ao ser chamado de desleal por Aragão.
  4. E entendeu que a deslealdade teve por motivo principal a pessoa de Lula.

Segundo o Estadão, Janot, usando o recesso como escudo, negou-se a comentar o depoimento.

O Antagonista traduziu a pauta como uma forma de o grupo ligado a Lula emplacar uma narrativa pela buscar um novo PGR. E exigiu desde já um terceiro mandato para Janot.

Mas há quem prefira entender que toda a pauta foi trabalhada justamente pelo grupo ligado a Janot. E que, com isso, o PGR conseguiria que veículos tão militantes como o Antagonista defendem-se o trabalho feito nos últimos quatro anos pelo procurador.

Em quem confiar? Talvez uma leitura da situação ajude.

De fato, na primeira instância, a Lava Jato não só chegou a Lula, mas a empresários tão ou mais poderosos do que ele. Em Brasília, contudo, só parece haver sede de Justiça contra adversários do PT. Num primeiro momento, esse alvo foi Eduardo Cunha. Desde a queda de Dilma, o ministério de Temer foi posto nessa posição.

Para Lula estar tramando contra Janot, ele precisaria colocar os interesses pessoais acima dos interesses do partido. Justo numa semana em que trabalha com o PT uma candidatura presidencial na esperança de, assim, blindar-se de uma prisão. Pois é… Faz pouco sentido.

Para Janot estar por trás da manobra, ele precisaria referendar grotescos ataques à própria imagem. O problema é que essa não seria a primeira vez.

No primeiro semestre de 2016, Renan Calheiros foi flagrado num grampo colhido por Sérgio Machado. E contra quem o delator solta o verbo naquela gravação? Rodrigo Janot. O mesmo Janot que usaria todos aqueles áudios para pedir a prisão de Calheiros, José Sarney, Cunha e Romero Jucá. Quanto aos xingamentos proferidos pelo ex-presidente da Transpetro, manteve um silêncio semelhante ao reservado agora a Aragão.

Talvez o Antagonista tenha ingenuamente mordido a isca. O que não invalida a conclusão.

Pois o maior inimigo do Brasil não é mais o presidente da República, um gestor na mira das mais histéricas militâncias. Mas o Congresso, que não só exerce forte influência sobre este presidente, como trabalha a todo tempo para sabotar a Lava Jato.

Liberar a cadeira de Janot é dar mais poder a este mesmo Congresso.

Até 2019, as opções do brasileiro serão:

  1. Continuar em Brasília com a Lava Jato sob os cuidados de um PGR tão trapalhão.
  2. Entregar essa escolha aos políticos investigados por ele. Assim, desponta o risco de nascer mais uma vergonhosa madrugada como aquela que depenou o projeto contra a corrupção proposto pela própria Lava Jato.

Sim, é possível mexer em time que se ganha. Mas não é aconselhável deixar essa decisão a cargo do time que está atrás no placar. Manter o atrapalhado Janot no comando de tudo – até pelo menos a renovação programa para as eleições de 2018 – pode ser a alternativa mais segura.

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