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Em vez de lutar por presídios melhores, a imprensa insiste em liberdade para criminosos

A imprensa segue aproveitando as chacinas nos presídios brasileiros para avançar com a ideia de que se prende muito no Brasil, ainda que isso não faça o menor sentido. O trecho abaixo, retirado de matéria publicada na Folha de S.Paulo, desenha bem o movimento. Versa sobre a Lei de Drogas, que endureceu a pena para traficantes, mas hipocritamente beneficiou o usuário que financia o tráfico:

“Em 2005, antes da lei, 14% dos crimes pelos quais os presos foram condenados ou acusados eram relacionados ao tráfico. Em 2014, esse número subiu para 28% –um incremento da ordem de 349% em números absolutos.

No mesmo período, entre 2005 e 2014, o número de homicídios no país aumentou 125%, fazendo do Brasil o triste recordista mundial em assassinatos, com quase 60 mil mortes em 2015. O percentual de presos condenados ou acusados de homicídio nas prisões, porém, caiu de 11% para 10%, mantendo-se estável ao longo de uma década.”

É possível tirar algumas conclusões desses dados? Sim. Mas uma reorganização dos números facilita o trabalho.

  1. Em termos absolutos, enquanto o total de homicídios cresceu 125% no Brasil, o de bandidos presos por tráfico de drogas cresceu 349%.
    E aqui já há um problema. Compara-se a ocorrência de um crime (homicídio) com a capacidade do Estado de punir quem cometeu um outro crime bem mais leve (tráfico de drogas).
  2. Em termos relativos, enquanto a fatia presa por homicídio manteve-se estável, variando de 11% para 10%, aquela detida por tráfico de drogas dobrou, de 14% para 28%.
    Ora, se as prisões por tráfico mais que quadruplicaram em termos absolutos, mas apenas dobraram em termos relativos, é porque fala-se agora de um universo bem maior de detenções. Neste universo maior, se o total de condenações por homicídio manteve-se estável, é um sinal de que, em números absolutos, as prisões por homicídio cresceram, talvez o dobro, quem sabe até mesmo os 125% observados no aumento de homicídios. Mas estes últimos detalhes não podem ser afirmados apenas com o que diz a matéria.

E o que concluiu a Folha de S.Paulo?

“Com isso, o instrumento da prisão não só tem baixo impacto na redução da violência, como tende, no médio prazo, a agravá-la.”

Em outras palavras, a Folha diz que prender um número maior de traficantes não reduziu o total de homicídios, ainda que ela não tenha em mãos dados sobre o aumento do tráfico de drogas, mas apenas da quantidade de traficantes presos. Foi além, e disse que a prática tende a aumentar a incidência de outros crimes, como o homicídio.

É uma conclusão descabida de um imprensa mais interessada em militar do que fazer jornalismo.

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