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O deputado que conduziu o impeachment de Collor foi cassado por erro grotesco da Veja

Em 1993, Ibsen Pinheiro era o nome que o PMDB gostaria de emplacar para vencer Lula nas eleições do ano seguinte. O peemedebista havia ficado famoso ao conduzir com certa firmeza, na Presidência da Câmara, todo o processo de impeachment que daria fim ao governo Collor. Mas uma prova entregue à Veja por Waldomiro Diniz, então “braço direito” de José Dirceu e Aloizio Mercadante, colocaria fim não apenas à candidatura, mas a pelo menos 6 anos dos direitos políticos do parlamentar.

A verdade só veio à tona 11 anos depois em artigo escrito pelo jornalista Luís Costa Pinto, editor e chefe da sucursal de Veja em Brasília quando do ocorrido.

Duas tentativas pouco convincentes de ligar o ex-presidente da Câmara ao escândalo dos Anões do Orçamento já tinham ocorrido quando Diniz entrou em contato com a redação da revista em novembro de 1993. Queria entregar aquilo que seriam as provas necessárias para incriminar o deputado do PMDB. E apresentou sete boletos de depósitos bancários – já convertidos em moeda americana – que provavam a transferência de um milhão de dólares entre contas de Ibsen Pinheiro. Por não haver salário compatível com aquela quantia, concluía-se que os valores vinham de propina.

Três horas depois, a capa da Veja começaria a ser rodada com a pergunta “Até tu, Ibsen?“. Quando 1,2 milhão de exemplares já tinham sido impressos, uma ligação tirou o sono de Costa Pinto: o chefe da equipe de checagem da revista descobriu que a conversão estava errada e os boletos somavam apenas mil dólares. Contudo, em vez de cancelar a impressão, a Veja buscou alguém que topasse sustentar a mentira, como explica em 2004 o próprio chefe da sucursal brasiliense:

“Já rodamos 1 milhão e 200 mil capas. E jogar fora 1 milhão e 200 mil capas é um prejuízo impagável (hoje cerca de R$ 100 mil). Podemos, ainda, mexer no texto dentro da revista – mas isso vai atrasar a remessa para o Rio de Janeiro e para o interior de São Paulo”, advertiu-me ele. “Vê se consegue, em dez minutos, alguém para sustentar em on essa dolarização de US$ 1 milhão”, sugeriu.

VejaBenito Gama, presidente da CPI dos Anões do Orçamento, topou sustentar a mentira.

O material foi às bancas com o erro grosseiro. Um desmentido seria publicado dias depois pela própria revista, mas a CPI o ignoraria, assim como não consideraria legal a auditoria que comprovava que o valor não fazia qualquer sentido.

Ibsen Pinheiro teria os direitos políticos cassados até 2000, quando o caso finalmente seria arquivado pelo STF. E só conseguiria voltar à vida pública em 2004, no que se elegeu vereador em Porto Alegre.

Depois de uma nova passagem por Brasília como deputado federal, é hoje deputado estadual no Rio Grande do Sul. Ironia do destino, até dezembro passado, se dizia contrário ao impeachment de Dilma.

Atualização – 30.03.2016

Amigos leram o conteúdo acima e lembraram que a versão de Luís Costa Pinto foi muito contestada na imprensa 12 anos atrás. Achei que seria mais honesto, de minha parte, acrescentar um resumo dos desmentidos. Antes, reforço as acusações de “Lula”, como era conhecido o editor:

  1. A prova recebida por Veja das mãos de Waldomiro Diniz continha um erro de cálculo que teria transformado mil dólares em um milhão de dólares.
  2. A Veja tá tinha 1,2 milhão de capas impressas quando percebeu o erro.
  3. A solução encontrada por um dos diretores executivos consistia em alguém sustentar aquela versão, reduzindo, assim, a responsabilidade da revista.
  4. Benito Gama, o próprio presidente da CPI, topou aparecer na reportagem confirmando o valor milionário.

Há um desmentido publicado por Veja e acessível na web. Em tom raivoso, a revista enumera inconsistências no relato de “Lula”, e levanta suspeitas não só sobre as intenções do ex-jornalista, mas também da IstoÉ:

  1. Primeiro, a Veja insinua que Luís Costa Pinto, o “Lula”, estaria a serviço de políticos.
  2. Depois, lembra que a Istoé repercutiu o mesmo erro publicado por Veja.
  3. A revista reforça que o erro de cálculo não foi da Veja, mas da CPI.
  4. É apresentado o depoimento da repórter que teria acordado “Lula”. Ela nega o episódio.
  5. Diz que o erro referia-se a um valor que fora apagado antes de ser impresso (uma conversão de 600 dólares que havia sido calculada em 600 mil dólares).
  6. Diz que só foram rodados 835 mil exemplares, o que desmente o detalhe de que já havia 1,2 milhão de capas impressas.
  7. Que a capa não trazia qualquer referência ao “milhão de dólares”, mas apenas a dólares.
  8. E que o julgamento que cassou o mandato de Ibsen fora político e, portanto, independia das provas levantadas.

Uma coluna do ombudsman da Folha, na mesma época, reforçaria o ponto de que o erro, intencional ou não, pouco interveio na cassação.

No entanto, o acervo da Veja foi digitalizado e pode ser conferida neste link. Na página 30 da edição de 17 de novembro de 1993, é possível encontrar alguns pontos que reforçariam o artigo publicado pela IstoÉ.

A começar pela capa. De fato não é citado o milhão de dólares. Mas o depoimento de Lula não afirmava que o valor estava estampado da capa. Apenas que seria o motivo de aquela matéria ter conquistado aquele espaço.

Edição de 17 de novembro de 1993.
Edição de 17 de novembro de 1993.

Todavia, o milhão já era citado no subtítulo da reportagem.

Página 30 da edição de 17 de novembro de 1993
Página 30 da edição de 17 de novembro de 1993

Há, na reportagem, conforme denunciado pelo editor, Benito Gama confirmando o valor e chamando a responsabilidade para si? Não só há, como as aspas reforçam que as contas foram questionadas.

Página 32 da edição de 17 de novembro de 1992
Página 32 da edição de 17 de novembro de 1993

Na página seguinte, há uma passagem ainda mais estranha. Nela, a Veja lava as mãos e joga a responsabilidade sobre o cálculo inteiramente nas costas da CPI. Se confiava na informação que rendeu-lhe a capa, por que tomaria essa atitude?

Página 33 da edição de 17 de novembro de 1993
Página 33 da edição de 17 de novembro de 1993

Na edição seguinte, a Veja desmentiria a notícia bombástica que deu naquele 17 de novembro. E mais uma vez jogaria a culpa inteiramente na CPI, apesar de ressalvar que aquele era um trabalho difícil e ainda havia 230 mil dólares inexplicados.

Página 43 da edição de 24 de novembro de 1993
Página 43 da edição de 24 de novembro de 1993

Qual era o erro? Basicamente aquele apontado por Ibsen Pinheiro ao se defender na página 33 da edição de 17 de novembro (recorte mais acima).

Página 43 de 24 de novembro de 1993
Página 43 de 24 de novembro de 1993

De resto, caberia responder à Veja:

  1. Que pouco interessa ao caso se Luís Costa Pinto, em 2004, trabalhava ou não para políticos, desde que a denúncia fosse verdadeira.
  2. O pecado não foi a publicação do dado errado, conforme também teriam feito IstoÉ, Estadão e Folha de S.Paulo. Mas a publicação do equívoco com a ciência de sua existência.
  3. Pessoas envolvidas numa farsa deste tamanho são um tanto suspeitas para desmenti-la.
  4. O erro de conversão de 600 para 600 mil dólares não é citado no desmentido da edição de 24 de novembro. Mas é dito que a aposentadoria de Ibsen seria de 600 dólares. E que Ibsen não teve problemas em explicar 400 mil dólares. Talvez seja leviano perguntar, mas vamos lá: a soma dá ou não dá exatamente o milhão de dólares da reportagem de capa?
  5. Quanto à tiragem da revista, não seria aceitável entender que o editor-executivo, na gestão da crise, estava gritando números imprecisos diante do problema? Ou mesmo que a memória de um segundo editor-executivo possa ter trocado um número menos relevante por outro?

No mais, argumentar que o julgamento fora político apenas conta contra todo o episódio. Por não ser jurídico, não necessita de provas legais para condenação. Bastava que rumores – com algum fundamento ou não – convencessem os demais parlamentares de que um dos principais nomes na corrida presidencial, e mais em conta com a opinião pública, deveria ter os direitos políticos cassados.

O editor-executivo da Veja que, segundo a IstoÉ, teria decidido pela publicação do erro mesmo ciente do equívoco é bem conhecido hoje na web. Trata-se de Paulo Moreira Leite, um dos diretores do site Brasil 247.

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