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O que os protestos de 16 de agosto já conquistaram

No penúltimo domingo, o Brasil viu a segunda maior manifestação política de sua história. Por volta de 900 mil pessoas em 250 cidades foram às ruas pedir a saída de Dilma Rousseff da presidência, seja por impeachment, cassação ou renúncia. Tudo isso sem o apoio explícito da imprensa, dos formadores de opinião, da classe artística, dos chamados “movimentos sociais” e/ou do movimento estudantil – todos ideológica ou financeiramente presos ao governo.

Dilma e sua trupe, claro, torciam contra e até manipularam junto à imprensa uma versão de que os eventos convocados no 16 de agosto teriam saído aquém do esperado. Mas fato é que, uma semana depois, evidentes resultados são percebidos e o objetivo daqueles que pediram a saída do PT parece mais próximo do que nunca – mesmo que ainda distante.

A revolução começa numa fanpage

Na segunda-feira, 17 de agosto, FHC surge no Facebook sugerindo a Dilma que fizesse um gesto de grandeza e renunciasse. Mas o principal só seria revelado pela imprensa horas depois. O ex-presidente almoça com Aécio Neves e Geraldo Alckmin no intuito de convencê-los a unificarem o discurso pela queda da presidente.

Fernando Henrique Cardoso
Foto por Alessandro Carvalho

Eliane Cantanhêde, em coluna após participação no Roda Viva que entrevistou o senador, “aposta” que tudo teria partido de José Serra, ou o tucano que mais ganharia com um governo Temer graças à promessa de um ministério da fazenda caindo-lhe no colo. Verdade ou não, o ex-ministro da saúde responde na TV que “subscreve” tudo o que sugeriu o pai do Plano Real.

No desespero, Dilma reprisa iniciativa de Collor

Do acervo da Folha
Collor usa funcionários da Caixa para protesto “a favor”

A exemplo do ex-presidente, que exigiu dos funcionários da Caixa atos na defesa da manutenção do próprio mandato, Dilma colocou seus “movimentos sociais” para ocupar as ruas do país em dia útil e fazer uma suposta defesa da democracia aos gritos de “fora, Cunha”. Coincidentemente ou não, na mesma tarde em que Rodrigo Janot pediu multa de 80 milhões de dólares e 184 anos de cadeia para o presidente da câmara dos deputados.

Perto do ocorrido em 16 de agosto, o evento em defesa do governo saiu minúsculo, mas nada disso impediu a imprensa de reverberar o que queria a presidência da república. No caso, que o impeachment sofrera um forte resfriamento quando da acusação oferecida pelo PGR.

Gilmar Mendes manda Ministério Público investigar Dilma

A sede de Janot para caçar os adversários do PT só se compara em intensidade ao corpo mole que faz quando a denúncia atinge algum petista. Seus defensores teimam em confundir o trabalho feito por Sérgio Moro em Curitiba com o realizado pelo PGR em Brasília. No entanto, o que se sabe é que, na capital brasileira, o Ministério Público já se declarou incapaz investigar a presidente mesmo havendo um entendimento diferente no próprio STF. E alguns colunista já escaparam que nem mesmo Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma, enfrenta grandes riscos de ser investigado.

Mendes, que sempre parece em sintonia com o PSDB, aproveitou que Janot pesou a mão contra a dupla Cunha & Collor e deu-lhe ordens explícitas para que passe a limpo um punhado de denúncias sobre o uso de empresas fantasmas pela campanha da atual presidente.

PMDB ainda sustenta o governo

Collor nutria esperanças de que concluiria o mandato até o PFL, o maior partido daquela base, abandonar o barco em 31 de agosto de 1992. Hoje neste papel há o PMDB, principalmente o do senado. É com promessas de impunidade a Renan Calheiros que Dilma tenta reverter as derrotas colecionadas na câmara dos deputados frente o desafeto Eduardo Cunha. Mas não só lá. Eliseu Padilha, com meio bilhão de reais em cargos no colo, é um dos principais defensores de que o partido com o maior número de prefeitos do país evite tomar qualquer grande decisão antes das eleições de 2016.

Dilma Rousseff, candidata a Presidência da República, com o companheiro de chapa Michel Temer.
Foto por: Agência Brasil

O problema é que o Datafolha medira a aprovação de alguns nomes junto aos manifestantes que foram à Paulista naquele domingo. Nessa medição, Dilma surge com um único por cento de aprovação. Com a margem de erro em 3%, há inclusive a chance de esse apoio se aproximar ainda mais de zero. Todavia, a leitura mais trágica chegou a ser feita por uma ala do PMDB: quanto mais próximo um político se posiciona da presidente, pior avaliado fica. Renan pintou com 2%; Michel, com 5%; e Cunha, um raro caso a declarar guerra contra o PT, com 25% – ou mais de três vezes a soma das aprovações dos primeiro, segundo e quarto nomes da república.

Mas se prepara para sair

Na quinta-feira, o grupo de Temer deu por encerrado o trabalho dele como articulador político. O Valor Econômico cravou que este seria o primeiro passo rumo à oposição. Eliseu Padilha maquinou para que esta guinada ocorresse no mínimo em novembro próximo, mas, logo nesta segunda, foi divulgado pelo próprio vice-presidente que não mais faz a política miúda de interesse do planalto.

A oposição já articulou com Eduardo Cunha como o impeachment de Dilma poderá passar na câmara dos deputados. Segundo apurou Fernando Rodrigues, a estratégia consiste em primeiro tirar das mãos de Cunha a responsabilidade do ato ou seria explorada pelas vozes governistas como golpe. Caberia ao presidente da câmara, assim, arquivar os pedidos recebidos. À oposição, entrar com um recurso para que um pedido assinado por um opositor seja posto em votação. Desta forma, uma maioria simples garante que o impedimento de Dilma entre para a pauta.

O governo perde a OAB, o Datafolha perde o disfarce

A Ordem dos Advogados, que possui um histórico de apoio às decisões do PT, surge com o presidente exigindo que Dilma peça desculpas ao país. É o oposto do que faz o presidente do Datafolha, que, em dissimulado governismo, tenta, tomando por base apenas o estudo feito na avenida Paulista, desqualificar as centenas de milhares de pessoas que protestaram em todo o país.

A grande diferença

Brasília já discutia o impeachment de Collor há quase um ano quando finalmente se tocam por lá que não havia o que chamam de “povo” na rua. E, para o bem da verdade, os “caras pintadas” só atendem à convocação após o presidente cometer erros primários – como provocá-los ao pedir que vistam verde e amarelo.

Uma década antes, quando as ruas foram tomadas por pessoas de camisa amarela exigindo o voto direto, já havia políticos e partidos nos palanques esperando-as para as Diretas Já.

Em ambos os casos, a população vai às ruas não para dar vida a uma vontade política, mas para referendar uma decisão já tomada por um punhado de lideranças. É essa a grande diferença para o que hoje ocorre nas ruas do Brasil.

As três maiores manifestações da história brasileira

Folha só dá a devida atenção ao impeachment em meses de protesto
Folha de São Paulo só dá a devida atenção ao impeachment de Dilma nos meses com protestos

É possível carimbar 2015 como o ano em que se produziu as três maiores manifestações políticas da história brasileira. O conquistado até aqui parece pouco, mas a missão é muito mais complexa. Num primeiro momento, conseguiu-se obrigar a imprensa – governista como nunca – a debater o tema. O segundo momento vem só com este terceiro ato. Nele, conseguiu-se convencer o PSDB a se portar como oposição.

O problema é que os opositores trabalham apenas de terça a quinta (quando há atividade parlamentar), enquanto o governo se agiliza até nas noites de domingo. Não à toa, é comum nas manhãs de segunda a sensação de que a crise esfriou – assim como, nas noites de sexta, de que a república está a um passo de cair.

No entanto, é preciso entender que a queda de Dilma é uma ideia que ganha corpo, que se trabalha desde antes da reeleição. Mais especificamente, quando a capa da Veja confirma, a três dias do segundo turno de 2014, que tanto ela quanto Lula estavam cientes dos absurdos que ocorriam na Petrobras.

Entre a sugestão e o derradeiro voto que colocaria Itamar na presidência, o impeachment de Collor leva exatos 366 dias para amadurecer. Para repetir os mesmos passos, o Brasil precisará se livrar de Dilma até o próximo outubro. Mas, ainda que seja impossível a repetição do mesmo rito, haverá outros outubros. Noutras crises, mesmo quando a emenda Dante de Oliveira não consegue passar, ou o PT não consegue o impeachment de FHC em 1999, é a oposição quem se sagra vitoriosa no pleito seguinte. E o que mais há na vida pública brasileira neste momento é político acreditando na possibilidade de derrotar Lula em 2018.

Referências utilizadas

  1. Veja
    Dilma e Lula sabiam de tudo, diz Alberto Youssef à PF
    23 de outubro de 2014
  2. O Estado de São Paulo
    Janot descarta investigar citação a Dilma na Lava Jato
    5 de março de 2015
  3. Merval Pereira
    Uma questão delicada
    2 de abril de 2015
  4. Época
    Marcelo Odebrecht ameaça derrubar a república
    20 de junho de 2015
  5. Lauro Jardim
    Mais uma contra Janot
    22 de julho de 2015
  6. Infomoney
    Michel Temer e José Serra já preparam dobradinha: tucano estaria cotado para Fazenda
    6 de agosto de 2015
  7. G1
    Governo avalia que protestos deste domingo são menores que os anteriores
    16 de agosto de 2015
  8. O Globo
    Governo vê ‘normalidade democrática’ em protestos deste domingo pelo país
    16 de agosto de 2015
  9. G1
    Em dia de protestos, OAB cobra de Dilma pedido de desculpas
    16 de agosto de 2015
  10. G1
    Manifestações pedem impeachment de Dilma e o combate à corrupção
    17 de agosto de 2015
  11. O Estado de São Paulo
    FHC sugere renúncia como ‘gesto de grandeza’ para Dilma
    17 de agosto de 2015
  12. Roda Viva
    José Serra
    17 de agosto de 2015
  13. Folha de São Paulo
    Maioria dos manifestantes na Paulista rejeita Renan e Temer, diz Datafolha
    17 de agosto de 2015
  14. O Estado de São Paulo
    FHC convocou Aécio e Alckmin a tentar unificar discurso do PSDB
    18 de agosto de 2015
  15. Eliane Cantanhêde
    Ruas “destucanizam” PSDB
    19 de agosto de 2015
  16. G1
    Manifestantes fazem atos em defesa de Dilma em 25 estados e no DF
    20 de agosto de 2015
  17. Valor Econômico
    Procuradoria pede 184 anos de prisão para Eduardo Cunha
    20 de agosto de 2015
  18. Folha de São Paulo
    Denúncia de Cunha faz impeachment perder força, avaliam ministros
    21 de agosto de 2015
  19. O Globo
    Gilmar Mendes manda PGR investigar se campanha de Dilma recebeu dinheiro da Petrobras
    21 de agosto de 2015
  20. Fernando Rodrigues
    Oposição acerta com Cunha estratégia para impeachment de Dilma
    21 de agosto de 2015
  21. Josias de Souza
    PMDB marca para o dia 15 de novembro Congresso que o distanciará do petismo
    22 de agosto de 2015
  22. Folha de São Paulo
    Manifestações carecem de representatividade social e demográfica
    23 de agosto de 2015
  23. G1
    Presidente Dilma reúne ministros no Palácio da Alvorada
    23 de agosto de 2015
  24. Folha de São Paulo
    PMDB e Planalto atribuem desgastes do governo a Levy
    24 de agosto de 2015
  25. Reuters
    Temer sai do “varejo” da articulação para se concentrar na “macropolítica”, dizem fontes
    24 de agosto de 2015

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