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Os vôos do bacurau – Bastidores da campanha de Henrique Alves a deputado federal

Já era madrugada quando a equipe dentro do veículo fora avisada que dormiria na capital mesmo estando ainda a 300km de distância. “Como a blindagem do carro ficou pronta a tempo, só teremos problemas na estrada se vierem com bazucas”, informou Aluizio Dultra, coordenador geral da 11ª campanha para deputado federal a qual concorria Henrique Eduardo Alves, então líder do PMDB na Câmara e herdeiro maior do voto bacurau (ou como são conhecidos no Rio Grande do Norte todos aqueles que votavam em seu falecido pai, o ex-governador/senador/ministro Aluísio Alves).

Toda precaução era sim para tanto. Quatro anos antes, na mesma região e em horário semelhante, suas vidas só foram salvas graças à habilidade de Paulo, motorista do candidato por quase três décadas, ao volante. “Quando os bandidos conseguiram colocar o carro ao lado do nosso, aproveitei que não havia acostamento e os joguei para fora da pista”, relatava enquanto tentava recuperar no acelerador mais um dos infindos atrasos que ocorriam entre um comício e outro. “Eu já cansei de reclamar ao deputado que o discurso dele está longo demais.”

De fato estava. Mas só porque havia muito a se dizer. Sempre que subia num palanque, Henrique se via na obrigação de revisitar 40 anos de vida pública e ainda justificar o pedido de quatro outros votos além do próprio. Só abria mão do segundo para senador, o que era prática comum entre seus aliados (uma vez que este sexto pedido poderia implicar na eleição de um adversário de Garibaldi Alves Filho, ex-presidente do Senado, ex-governador e – típico da política nacional – seu primo).

Durante os três meses de primeiro turno, Henrique sintetizou em seu trabalho tudo aquilo por que é conhecido o PMDB, partido que sempre o acolheu. Calejado de outros outubros, sabia ser deveras comum no amanhã precisar de alguém que se critica hoje. Daí que evitava ao máximo adjetivar negativamente adversários, permitindo-se inclusive o elogio a eles. “Eu não quero tomar voto de ninguém!”, bradava em cada pequeno município que visitava.

Sua maior dificuldade era dialogar com a lógica partidária nacional, que muda de município a município, às vezes de bairro a bairro. De tal forma que inúmeros cálculos eram efetuados antes de se empunhar qualquer microfone para se ter a certeza dos nomes que poderiam ser citados sem que isto representasse prejuízo nas urnas. O cúmulo ocorreu em Acari, quando Henrique se viu obrigado a apoiar o voto em Rosalba Ciarlini, candidata do Democratas ao governo do RN, graças a um fogo amigo originado de membros da coligação que pedia votos a Iberê Ferreira de Souza, candidato que tinha seu apoio (declarado ou não) em todos os outros 166 municípios do estado.

A campanha nos tempos do Twitter

Na semana que antecedia a votação o velocímetro foi conferido: foram rodados 25 mil Km durante o período eleitoral, o equivalente a uma volta completa pelas fronteiras do Brasil.  “Em 86 rodamos mais de 80 mil pedindo voto para Geraldo Melo”, relembrava Paulo, constatando que a tecnologia diminuiu bastante certas distâncias. “Antigamente nos comunicávamos por bilhetes, hoje temos o celular”, comentou enquanto era interrompido pelo toque de um dos nove aparelhos que seguiam viagem com a equipe.

O próprio Henrique Alves é um viciado em SMS, sempre com ambas as mão tomadas por aparelhos, recebendo e passando instruções para todo o país. “Mas não quero me viciar em Twitter como vocês”, disse, fazendo referência aos seus assessores que usavam e abusavam de seus planos de dados sempre que alguma torre de celular próxima provia um sinal de qualidade mínima para navegação na estrada.

Partiu de Richardson Pessoa, uma espécie de “assessor faz-tudo” do candidato, a idéia de transmitir via webcam os comícios realizados pela coligação no interior do Rio Grande do Norte. Tecnicamente não seria fácil graças às limitadas conexões disponibilizadas nos municípios com menos de 200 mil habitantes. O áudio era ruidoso e a imagem mal passava de alguns slides atualizados a cada meia dúzia de segundos. Mas, com apenas um netbook, uma conexão 3G e uma webcam, foi possível reverberar por todo o planeta tudo que era prometido pelo candidato no mais longínquo interior do país. E se a audiência se mostrava baixa, era ao menos qualificada. Tanto que se tornaram comuns nas manhãs seguintes ligações de veículos nacionais que se pautavam pelo que era transmitido na web. “Se eu soubesse que você estaria me vendo, teria preparado um discurso melhor”, disse Henrique ao agradecer por telefone a pauta trabalhada por um dos maiores colunista de política do país.

A família nos tempos da campanha

Toda tecnologia disponibilizada servia não apenas como rede de informações, mas para aproximar corações que se vêem obrigados a aceitar a correria na busca do voto. Quando os assessores davam um tempo em suas infindas perguntas e solicitações, eram discados os números dos filhos e da sua namorada, Laurita Arruda, jornalista, advogada e blogueira que cobre a política local. Fosse para resolver problemas comuns a qualquer família, casa ou escola, fosse apenas para matar saudades. No caso de Henrique, todas as prioridades eram colocadas de lado para comemorar junto ao seu filho mais novo sempre que um gol do Vasco da Gama era marcado. Vascaíno dos mais doentes, parecia torcer mais por um campeonato do time carioca que por mais uma renovação do seu mandato (tido como “jogo ganho” por todos aqueles que para ele trabalhavam). “E ao que tudo indica, Romário vai ser meu companheiro de trabalho lá em Brasília”, dizia antes de ter a confirmação que o seu antigo ídolo no futebol elerger-se-ia deputado federal pelo Rio de Janeiro no 03 de outubro que estava por chegar. “Isso de vez em quando falar de futebol no palanque ainda vai tirar voto dele”, temia Paulo, ciente da pluralidade do gosto futebolístico dos potiguares.

Mas não era para tanto. No abrir das urnas, praticamente tudo saiu como esperado. Desde o recorde de votação para a Fátima Bezerra, candidata petista, ao segundo lugar para João Maia, candidato do PR e integrante da coligação que se somava ao PV e PMDB. Henrique, com seus 191.110 votos conseguiu trazer consigo o vereador Paulo Wagner, candidato verde que obteve menos votos que Rogério Marinho (PSDB) e Adenúbio Melo (PSB) graças à questionável lei eleitoral. “Só não esperava mesmo a ida de Dilma para o segundo turno, mas lutaremos o que for possível por sua vitória”, respondia o bacurau não só aos vários telefonemas de todo o Brasil que chegavam buscando sua visão da eleição, mas também em voz alta como quem conversa consigo mesmo. “Mas, deputado, este segundo turno para o PT será ótimo para a gente pois eles virão mais fracos quando a eleição para a presidência da câmara chegar”, alertou um dos muitos assessores que com ele acompanhavam a apuração nas instalações da Intertv Cabugi, afiliada da Rede Globo e de propriedade de sua família. “Eu sei, pô, mas não dá para falar isso senão estes blogueiros publicam”, censurou-o o peemedebista apontando para sua namorada, que atualizava o Twitter freneticamente.

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