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apyus.com Textos

Assim como Lula, Hugo Chávez prometeu fazer a “democratização da imprensa”, mas era tudo censura mesmo

“Democratização dos meios de comunicação” era o eufemismo sacado por Hugo Chávez quando usava a força do Estado para censurar a imprensa. Exemplos de como a própria mídia foi conivente com a manobra não faltam. Como essa não era uma característica do chavismo, mas da esquerda em si, Nicolás Maduro deu continuidade a ação tão abjeta. Até que não havia outra denominação para a Venezuela: ditadura.

Lula, que seguiu aplaudindo o governo venezuelano mesmo após ter se consolidado como uma tirania assassina, usou o Twitter em ao menos 15 oportunidades desde abril de 2017 para prometer medida semelhante caso volte a presidir o Brasil. Com uma ou outra variação de termos, o eufemismo é o mesmo: democratização dos meios de comunicação.

Na maioria das vezes, como no fato observado em janeiro de 2018, a promessa é feita em tom de ameaça. Tudo é justificado como resposta para a forma como noticiam todos os esquemas que o atingem e são desvendados pela Polícia Federal com ajuda do Ministério Público Federal. E, claro, tudo é feito ignorando o tremendo esforço da própria imprensa para reduzir os estragos na imagem de figura tão bem quista pela categoria.

24 de abril de 2017

29 de abril de 2017

5 de maio 2017

19 de agosto de 2017

26 de agosto de 2017

28 de agosto de 2017

2 de outubro de 2017

3 de outubro de 2017

21 de outubro 2017

28 de outubro de 2017

30 de outubro de 2017

29 de novembro de 2017

1 de dezembro de 2017

15 de dezembro de 2017

17 de janeiro de 2018


No primeiro semestre de 2017, quando da realização do VI Congresso Nacional do PT, Lula soltou o que foi entendido como um “dog-whistle politics“, ou aquela mensagem cifrada lançada para driblar o jornalismo e ser entendida exclusivamente pela militância. Num tom malicioso, o ex-presidente disse: “Eu não fiquei mais radical. Apenas fiquei mais ‘maduro’“. E insistiu de forma ainda mais enfática: “Mais ‘maduro’“.

Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann sorriram. O recado tinha ficado bem claro. Só não o entendeu quem não quis entender.

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Em ano eleitoral, o Minha Casa Minha Vida constrói em média 109 mil casas a mais

As metas do  Minha Casa Minha Vida são divididas em faixas de renda. Para 2017, o objetivo era subsidiar ou financiar a juros baixos um total de 610 mil moradias. Mas o governo Temer entregou um resultado decepcionante.

Ao todo, o ministério das Cidades ficou devendo 167,8 mil residências, ou 27,5% do prometido. Para piorar, o grosso do déficit (87,6%) coube justo à camada mais pobre. Das 170 mil casas prometidas, apenas 23 mil foram subsidiadas.

No geral, os números apresentados pelo governo Temer foram melhores que os últimos da gestão Dilma – em 2015, por exemplo, de um total de 407 mil, a presidente cassada subsidiou apenas 16,9 mil residências.

O governo defendeu-se terceirizando a culpa a ajustes e burocracia. Mas talvez tenha faltado vontade políticas, uma vez que o uso eleitoreiro do MCMV parece evidente no gráfico em destaque no Estadão. Nos anos ímpares, os governos Lula, Dilma e Temer ajudaram a construir uma média de 505,5 mil casas. Já nos eleitorais, a média subiu para a 614,8 mil. Quando a eleição é presidencial, a eficiência do programa cresce ainda mais e atinge 643,8 mil de média – uma diferença de 138,3 mil.

O eleitor brasileiro precisa ficar atento para novamente não associar o benefício ao partido do poder. Afinal, programa de porte tão avantajado dificilmente será deixado de lado por gestões futuras.

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O Estatuto do Desarmamento não reduziu as mortes por armas de fogo

A exemplo do ocorrido em 2013 e 2015, o Mapa da Violência de 2016 aproveitou os dados que colheu para fazer propaganda a favor de uma população desarmada. Para isso, mais uma vez se valeu de um ponto de vista um tanto pitoresco: de acordo com o levantamento, desde 2004, quando entrou em vigor, o Estatuto do Desarmamento não teria evitado o crescimento das mortes por armas de fogo, mas sim que este crescimento fosse ainda pior. Por essa lógica, 134 mil óbitos teriam sido evitados.

Mas faz sentido a leitura de Julio Jacobo Waiselfisz, sociólogo da Flacso Brasil, autor do estudo?

O primeiro ponto estranho é o confronto entre os períodos estudados: antes do Estatuto, olha-se para um intervalo de 23 anos, e conclui-se que o crescimento médio de 8,1% seria pior que os 2,2% observados entre 2004 e 2014.

Por que não usar um período idêntico? Não interessava mostrar que, entre 1993 e 2003, o crescimento já havia caído para uma média abaixo dos 6%? E que, nos 11 anos anteriores, se aproximava dos 9%? Ou uma prévia tendência de queda não interessava para o discurso?

Números (levemente) melhores surgiram uma década antes

O gráfico interativo abaixo resume os dados apresentados pelo Mapa da Violência em 2015. Em verde, estão destacados os anos que antecederam o Estatuto do Desarmamento; em vermelho, os subsequentes.

Natural imaginar que, com a lei em vigor, ao menos as mortes acidentais por arma de fogo cairiam. Mas elas seguiram estáveis após 2004. Estranhamente, uma queda considerável teria ocorrido 10 anos antes, ainda que com um pico em 1999.

Quanto aos os suicídios por arma de fogo, em queda no trecho em vermelho, caíam desde 1994, assim como a coluna “indefinido”. O único número que ironicamente segue crescendo é o de homicídios, mesmo que em velocidade menor. Quando se fecha a conta, o “total” aponta alguma eficiência do Estatuto, mas, como se nota, fatores anteriores também contaram para o resultado.

Em outras palavras, pode se concluir que o Estatuto do Desarmamento até interferiu positivamente em alguns aspectos, mas não passou sequer perto de resolver o problema.

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Como a esquerda usa o “fact-checking” para controlar a informação que circula na internet

É uma tese recente e complicada. E, num primeiro momento, pouco crível. Mas uma breve organização nas informações ajuda na compreensão. A busca no Google Brasil a respeito do termo retorna o site da Pública. De acordo com a “agência de reportagem e jornalismo investigativo“, fact-checking seriauma checagem de fatos, isto é, um confrontamento de histórias com dados, pesquisas e registros“.

No Brasil, a prática já era perceptível na campanha presidencial de 2014. Veículos como Estadão e O Globo criaram seções especiais para checarem publicamente as informações apresentadas pelos candidatos nos debates, em especial os televisionados. Na campanha municipal de 2016, ao menos nas principais capitais, o trabalho se intensificou e o fack-checking ganhou vida própria, com projetos como Lupa, Aos Fatos e até mesmo o e-Farsas, um blog antigo de pesquisas de boatos, se somando à iniciativa.

De fato, com tanta informação, e principalmente com tanta desinformação, como criticar o trabalho de profissionais que se dispõem a lutar pela verdade em ambiente virtual?

Em primeiro lugar, lembrando que por trás da checagem há um ser humano com tudo o que há de complexo na humanidade. Ele tem suas crenças, suas certezas, suas dúvidas e até suas bandeiras. E, por mais que haja algum esforço, dificilmente conseguirá entregar ao trabalho a neutralidade de uma máquina.

O principal, contudo, é a natureza do discurso político. Por mais que dados sejam sacados a todo momento, não se trata de uma ciência exata. Números podem ser manipulados, a forma como a pesquisa foi realizada precisa ser levada em conta, e o debate permite todo tipo de figuras de linguagem, que se distanciam da exatidão das planilhas para que a mensagem seja melhor compreendida. Em outras palavras, por mais neutro que se queira o “fact-checker”, ele é só mais um dentre tantos intérpretes da realidade, fazendo de sua neutralidade apenas uma peça de autopromoção.

A campanha americana de 2016

Na última campanha presidencial americana, a parcialidade do fact-checking era tão evidente que até os próprios candidatos criavam seus times. O resultado da checagem da campanha de Hillary Clinton, por exemplo, segue no ar até o momento da redação deste texto. E o objetivo não era outro: provar que o adversário faltava com a verdade.

Mas o que deveria ser a campanha da informação, com veículos explorando a imagem de planilheiros incansáveis, findou na campanha da vergonha. As manchetes antecipavam a vitória de Clinton, por vezes com chances superiores a 99%, mas, como todos bem sabem, deu Donald Trump.

E então? Como explicar o fiasco da cobertura jornalística?

Respostas variadas sem nenhuma fonte confiável foram exploradas aos montes. Disseram que o eleitor republicano sentiu vergonha de declarar o voto em Trump, que a Rússia teria interferido no processo, bancaram uma recontagem de votos – o que findaria, vejam só, ampliando a votação do vencedor – e, principalmente, acusaram o eleitor de ter se deixado ludibriar por notícias falsas que circulavam nas redes sociais.

Qual entidade assinou o estudo que referendou uma gigantesca matéria sobre o tema aqui no Brasil? O site de entretenimento BuzzFeed.

Segundo um estudo do site BuzzFeed, as 20 notícias falsas sobre a eleição americana com maior engajamento no Facebook nos três meses que antecederam a votação geraram mais engajamentos (8,7 milhões) que as 20 notícias reais com mais reações publicadas por grandes veículos (7,3 milhões).

O BuzzFeed brasileiro chegou a resultado semelhante em relação a notícias sobre a Lava Jato publicadas em 2016: as dez falsas com mais engajamento no Facebook (3,9 milhões) superaram as dez verdadeiras (2,7 milhões) –no “top ten” das notícias falsas, há quatro da turma de Poços, três das quais do finado Brasil Verde Amarelo e uma da extinta Folha Digital.”

A crença da imprensa na ideia era tão cega que chegou-se a defender que uma cidade de 43 mil habitantes na Macedônia teria sido primordial para a eleição do homem mais poderoso do mundo.

Pressão sobre o Vale do Silício

Imediatamente, as empresas de comunicação partiram para cima das de tecnologia cobrando destas a criação de filtros contra notícias falsas, o que, por si só, contraria o princípio da neutralidade dos algoritmos de busca. Afinal, por motivos que não vêm ao caso, o pesquisador pode estar justamente querendo encontrar a informação equivocada. Mas as principais marcas cederam. O Facebook ativou uma espécie de carimbo para ser aplicado nas “fake news”. Quanto ao Google, a gigante de buscas criou um selo de verificação de fatos.

Mas com quem ficaria o poder para bater o martelo e dizer que uma notícia seria falsa ou não? Com os fact-checkers.

Trata-se de um marco histórico da curta vida da internet. Se antes havia dúvida sobre eventuais e condenáveis interferências humanas nos resultados dos sistemas de buscas e dos valiosos algoritmos das redes sociais, ela agora era propagandeada pela imprensa como uma conquista. Porque, claro, era uma conquista – para a imprensa.

O grande ministério da verdade

Hoje, num debate virtual com tantas narrativas, leituras, pontos de vista e dados (manipulados ou não), vigora um tribunal da verdade tocado por projetos como Aos Fatos, Lupa e Pública. Mas quem são estes juízes?

Justo o primeiro resultado da busca é o mais complicado. A Pública é um “think tank” que tem por objetivo pautar a imprensa com ideais progressistas. É um trabalho muito bem feito, competente, sério… Mas tem viés, tem uma agenda ideológica, por vezes partidária, a cumprir. Seu conselho apresenta grandes nomes da esquerda nacional, como Leonardo Sakamoto e Eliane Brum. Dentre os financiadores, há um punhado de organizações internacionais mais interessadas numa pauta global do que nas necessidades locais do Brasil. E seu conteúdo é constantemente reverberado em sites militantes alinhados com a agência.

É importante frisar: nada disso é ilegal. Mas a Pública é parte interessada no resultado da checagem. Há temas dos quais ela luta pelo avanço, enquanto de outros ela espera a contenção. Nessa situação, qualquer bom juiz se diria impedido de participar do julgamento.

O problema da Lupa não é tão diferente. É ligada ao grupo Folha, um jornal que emula alguma imparcialidade, principalmente em seu time de colunistas, mas já não consegue esconder que pende para o mesmo lado da Pública. Se, até os instante finais, negava ver motivos substanciais para defender o impeachment de Dilma, contra personagens como João Doria implica até com o não uso do cinto de segurança.

Do trio, o que soa mais independente é o Aos Fatos. Tai Nalon, sua diretora executiva, esforça-se para fazer um trabalho transparente e dosado. Mas sua equipe menor não conseguiu evitar alguns deslizes que chegaram a viralizar na última campanha – ainda que, de imediato, tenham buscado corrigir o erro.

“Fact-checking é censura?”

Numa resposta nada simpática, contatado para explicar as fontes de informações veiculadas em suas redes sociais, o Movimento Brasil Livre mandou a Pública se virar. E foi além. Num reducionismo de defesa bem complicada, sentenciou: “fact-checking é censura!”

Será mesmo?

Ora… Se impedir a publicação de livros for censura, se impedir a veiculação de músicas for censura, se impedir discurso em público for censura, natural achar que dificultar a veiculação de informações em redes sociais e o acesso a elas por meios de sistemas de busca também seja. E, na mão de profissionais com militância tão evidente, é isso o que fact-checking de fato lembra. Somado ao contexto das recentes derrotas eleitorais da esquerda, a pressão contra o Vale do Silício parece apenas uma etapa de um plano bem sucedido.

A checagem de fatos é praxe do jornalismo. É estranho e sintomático que agências se vendam como especialistas em algo tão básico na profissão. Sem querer, entregam que, na prática, a teoria é outra. E que as redações reverberam muita desinformação sem checagem. Em especial, as mais convenientes. Aquelas que fortalecem o discurso que mais norteia o setor. Um discurso que tem cor, bandeira… E até selfie.

Não é errado checar fatos. Não é errado fazer fact-checking. Não é errado ter projetos especializados nisso. O erro está em tentar criar um controle da mais livre invenção da humanidade, a internet. Em colocar nas mãos de jornalistas — profissionais que andam com a credibilidade cada vez mais questionável — o poder para definir o que é verdade e o que é mentira na web. Eles podem e até devem se esforçar nessa missão, mas em seus veículos. Não em motores de busca. Não em redes sociais. A liberdade de expressão agradece.

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É possível um governo de Direita no Brasil?

Um resumo simples dos termos políticos “esquerda” e “direita” é:

  • Esquerda: defende que o Estado seja o agente ativo na distribuição de renda e prestação de serviços públicos, uma vez que só o Estado trabalha para todos pois não tem interesses pessoais e sim coletivos, pátrios.
  • Direita: defende menor atuação do Estado na distribuição de renda e prestação de serviços e, por isso, busca ação do Estado apenas nas áreas vitais ao cidadão: Educação, Saúde e Segurança.

O Brasil tem hoje 35 partidos políticos e, praticamente todos eles, são de esquerda. Desde grandes partidos como o PMDB até partidos como o Partido Social Cristão, todos eles defendem atuação do Estado em todas as áreas do cotidiano brasileiro. Na saúde, a máquina pública hoje lida com canabidiol e com o saleiro na mesa do restaurante. Na Segurança, o Estado é responsável até pela contratação de porteiros para creches. Na Educação, é o MEC quem realiza o ENEM e também define até o ensino da educação sexual nas escolas públicas.

E poderia ser diferente?

Visando o resultado a curto prazo, não. O Brasil é um país pobre, grande parte da população vive na miséria. A História do Brasil começou com a escravidão, época em que a vida brasileira se resumia a desbravar e ocupar o vasto território do Brasil – enquanto a economia se baseava na exportação de commodities produzidas debaixo de chibata; foi-se a escravidão e ficou a desigualdade social em cidades cada vez mais povoadas. O Brasil não estava preparado para lidar com as necessidades de um povo improdutivo, estava acostumado a ver esse povo sobreviver de agricultura de subsistência e, os escravos, esses eram propriedade (e responsabilidade) de seus “donos”. A população negra foi literalmente abandonada. A população rural morria à míngua no campo. Convergiram todos para as cidades e o Estado não conseguiu transformar essa inércia em força produtiva; foi-se o império e a população conheceu um Estado que não concedia a seu povo o exercício do poder, estava tudo nas mãos das poderosas famílias do tempo da escravidão; o Brasil mergulhou então no governo autoritário de Vargas; Ditadura Militar; e aqui estamos nós.

Em 500 anos o brasileiro não se profissionalizou, viveu do trabalho braçal.

Depois do advento da globalização, país improdutivo não consegue participar da divisão de riquezas. Todos os países que saíram da miséria para se tornar uma nação que oferece a seu povo vida saudável e feliz, todos eles trilharam o mesmo caminho: educação e trabalho. O Brasil não tem Educação. O Trabalho no Brasil ainda não agrega valor, ainda vivemos de commodities.

Urge trilhar o caminho do desenvolvimento humano no Brasil. O único caminho que pode nos libertar dos grilhões da ignorância e proporcionar ao cidadão brasileiro a liberdade de escolher seu próprio destino. Escolher, inclusive, se tornar independente do Estado.

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A importância de Joaquim Barbosa para a operação Lava Jato

Naquela terça-feira, 5 de março de 2013, Joaquim Barbosa perdeu a paciência (e a elegância) de forma inesperada, principalmente para um ministro da suprema corte. Quando um jornalista quis saber a visão do presidente do STF sobre críticas de algumas entidades jurídicas, foi interrompido aos berros:

“Não estou vendo nada! Me deixa em paz! Me deixa em paz! ! Vá chafurdar no lixo como você faz sempre! (…) Estou pedindo, me deixe em paz. Já disse várias vezes ao senhor! (…) Eu não tenho nada a lhe dizer. Não quero nem saber do que o senhor está tratando.”
(Joaquim Barbosa)

Na mesma data, o ministro pediu desculpas e atribuiu o destempero a dores que sentia ao final de uma longa sessão do CNJ. Mas havia grandes chances de a verdade residir numa mágoa do presidente do STF para com Felipe Recondo, repórter do Estadão alvo dos desaforos. Um ano depois, em coluna para o mesmo veículo, revelou que 3 anos antes, em 2011, já havia vazado para a imprensa um momento em que Barbosa não imaginava estar sendo observado:

Piorava a situação a passagem do tempo. Disse então o ministro: em setembro daquele ano, o crime de formação de quadrilha estaria prescrito. Afinal, transcorreram quatro anos desde o recebimento da denúncia contra o mensalão, em 2007. Barbosa levava em conta, ao dizer isso, que a pena de quadrilha não passaria de dois anos. Com a pena nesse patamar, a prescrição estaria dada. Traçou, naquele dia em seu gabinete, um cenário catastrófico.

Quando, no dia seguinte, o Estadão deu a manchete e o Brasil inteiro já debatia a preocupação, Barbosa se surpreendeu:

Novamente, Joaquim Barbosa, de pé em seu gabinete, pergunta de onde saiu aquela informação. A pergunta era surpreendente. Afinal, a informação tinha saído de sua boca.

De JB a SM

Para entender a importância daquele março de 2011 – quando ainda só se falava em Mensalão – para a Operação Lava Jato, é preciso voltar quase uma década no tempo. Foi em 2004 que Sérgio Moro tornou públicas suas considerações sobre a Operação Mãos Limpas, tida por muitos como a inspiração para o trabalho investigativo realizado sobre o Petrolão. Em meia dúzia de laudas de fácil leitura – ou seja, com quase nenhum “juridiquês” –, o juiz federal discorre sobre a Itália dos anos 90. Hoje, chama a atenção como em muitos pontos lembra o Brasil dos anos petistas.

Em dado momento, Moro reserva alguns parágrafos para defender o uso da delação premiada como método para se fazer justiça contra nomes tão poderosos.

“Se as leis forem justas e democráticas, não há como condenar moralmente a delação; é condenável nesse caso o silêncio.”
(Sérgio Moro)

Mas mais interessante ainda é a leitura que faz do uso deste recurso no Brasil até aquele momento:

“A reduzida incidência de delações premiadas na prática judicial brasileira talvez tenha como uma de suas causas a relativa ineficiência da Justiça criminal. Não há motivo para o investigado confessar e tentar obter algum prêmio em decorrência disso se há poucas perspectivas de que será submetido no presente ou no futuro próximo, caso não confesse, a uma ação judicial eficaz.
(Sergio Moro – grifos nossos)

É quando voltamos ao março de 2011, com Joaquim Barbosa descobrindo que vazou por Felipe Recondo a preocupação de prescrição de crimes do Mensalão caso a pena por formação de quadrilha não passasse de 2 anos. Perguntou o ministro:

“E se eu der (como pena) 2 anos e 1 semana?”
(Joaquim Barbosa)

Anos depois, JB viria a ser extremamente criticado por defender penas muito acima das esperadas para o Mensalão. Mesmo com todo o esforço de Lewandowski e Dias Toffoli pela redução das condenações da maioria dos 25 acusados, vários mensaleiros cumpriram algum tempo de cárcere em regime fechado. No caso mais grave, Marcos Valério foi condenado a 40 anos, 4 meses e 6 dias. Com algumas artimanhas das defesas sendo aceitas, a pena foi reduzida a  37 anos, 5 meses e 6 dias. Mesmo que finde no preso mais comportado da história, o publicitário terá de passar mais de uma década atrás das grades.

O que mudou

Entre o Brasil de 2004 e o de 2014, há todo o desenrolar, da denúncia à condenação, do Mensalão. Dez anos após a leitura de Sergio Moro da Mãos Limpas, o brasileiro sabe que a justiça brasileira é capaz de condenar a 17 anos de prisão a ex-presidente do Banco Rural, Kátia Rabello. Se antes a delação premiada, como bem observou o juiz federal, não soava interessante aos investigados, pois sempre apostavam na incapacidade do poder judiciário brasileiro, agora temos Agenor Medeiros, diretor internacional da OAS, aos 66 anos de idade, gritando na carceragem da polícia federal em Curitiba: “Se tiver de morrer aqui dentro, não morro sozinho”.

Nada disso estaria acontecendo se Joaquim Barbosa não acrescentasse “uma semana” à pena de 2 anos por formação de quadrilha para os mensaleiros. Se não pesasse a mão contra 25 corruptos, a despeito de qualquer crítica acadêmica que lhe dedicaram desde então.

Na já mencionada coluna do ano passado, Felipe Recondo registrou a confissão do hoje alegado “cidadão livre“:

Barbosa, por sua vez, nunca admitira o que falava em reserva. Na quarta-feira, para a crítica de muitos, falou com a sinceridade que lhe é peculiar. Sim, ele calculara as penas para evitar a prescrição. “Ora!”
(grifos nossos)

Na última sexta-feira, dois executivos da Camargo Corrêa aderiram à delação premiada na Operação Lava Jato. Com isso, já são 15 os investigados a assinarem acordos semelhantes. Pelas regras do benefício, terão suas penas não perdoadas, mas reduzidas se e somente se: falarem a verdade; tenham como provar essas verdades; e essas verdades representem fatos ainda desconhecidos dos investigadores. Aguardemos ansiosamente o que eles têm a acrescentar.

Originalmente publicado em:
A importância de Joaquim Barbosa para a operação Lava Jato

Referências utilizadas

  1. Estadão
    Prescrição do crime de formação de quadrilha esvazia processo do mensalão
    26 de março de 2011
  2. Folha
    Voto de Barbosa indica penas rigorosas
    18 de setembro de 2012
  3. Veja
    Voto lamentado
    23 de outubro de 2012
  4. G1
    ‘Vá chafurdar no lixo’, diz presidente do STF a repórter
    5 de março de 2013
  5. Estadão
    As operações aritméticas do ministro Joaquim Barbosa
    28 de fevereiro de 2014
  6. Veja
    Empreiteiras querem levar Lula e Dilma à roda da Justiça
    31 de janeiro de 2015
  7. Exame
    No Twitter, Joaquim Barbosa diz que é cidadão livre
    17 de fevereiro de 2015
  8. O Globo
    Lava-Jato: dois executivos da Camargo Corrêa assinam acordo de delação premiada
    27 de fevereiro de 2015

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O PCdoB ignora que a Segunda Guerra só começou após um pacto entre comunistas e nazistas

O PCdoB aproveitou o 9 de maio de 2017 para, nas redes sociais, vender uma ideia que a esquerda brasileira adora defender: a de que o nazismo fora derrotado pelo comunismo. Para tanto, destacou que a queda de Berlim se deu pelas armas do exército soviético. Mas, claro, essa história está muito mal contada.

O que o Partido Comunista do Brasil esconde de seus seguidores ficou conhecido como “Pacto Molotov-Ribbentrop”. Na madrugada de 24 de agosto de 1939, mas registrado ainda como 23, Vyacheslav Molotov e Joachim von Ribbentrop, como representantes da União Soviética e Alemanha Nazista respectivamente, assinaram em Moscou um pacto de não-agressão entre ambas as nações. Pelo tratado, nazistas e comunistas concordavam em passar 10 anos sem qualquer conflito, sem apoio aos inimigos da outra parte, com cooperação econômica e estreitamento de laços. Do lado soviético, não haveria qualquer intervenção numa invasão alemã à Polônia. E, ao final do conflito, o leste europeu ficaria aos cuidados de Joseph Stalin, com o oeste sob o comando de Adolf Hitler.

Uma semana depois, os nazistas invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial.

Em outras palavras, o conflito mais sangrento da história da humanidade só se iniciou após Hitler ter dos comunistas a garantia de que cooperariam com o nazismo. E o plano só não se concretizou com êxito porque o próprio líder nazista quebraria o pacto em 22 de junho de 1941, iniciando uma invasão do território soviético.

Quanto à queda de Berlim, estava programada para se dar por um grande ataque liderado pelos exércitos britânico, americano e soviético. Mas o contra-ataque de Hitler na Batalha das Ardenas consumiu o máximo de recursos de todos os envolvidos no conflito a oeste. Apesar de dramática, a resistência ocidental forçou a rendição do exército alemão, o que abriu caminho para o exército vermelho avançar pelo leste já certo da vitória.

A participação soviética foi, sim, importante para o fim do conflito. Mas não teria logrado êxito semelhante sem a ajuda capitalista.

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Mallu Magalhães precisa estar errada, ou muito militante vai se descobrir racista

É um caso bem bobo. Mas que, no plano de fundo, esconde uma questão para lá de polêmica e importante. Em resumo, Mallu Magalhães foi tomada por racista ao elencar cinco negros para com ela dançar o samba “Você Não Presta“. A intenção era fazer uma homenagem, mas da semiótica saltou uma mensagem confusa que para alguns soou um insulto. Estrago feito, em participação ao vivo num programa da Rede Globo, a cantora jogou gasolina na fogueira ao replicar: “Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba“.

De imediato, a ala mais progressista das redes sociais redobrou a indignação e intensificou os ataques à mais recente polemista do Brasil. Entretanto, pouco importava quem tocava ou não samba. O que não era tolerado naquelas mensagens era algo bem mais abrangente: não existe “racismo reverso”.  Em outras palavras, nenhum branco poderia se sentir vítima de preconceito.

É, claro, uma concepção bem equivocada. Porque subentende que racismo tem sempre uma mesma origem e fim. E fazer o caminho oposto descaracterizaria o crime cometido. Por essa visão, só poderia se dizer vítima de tamanho mal quem viveu séculos de perseguição, ou mesmo de escravidão. E essa marca precisaria ser visível a olho nu, já no tom de pele, do contrário, nada feito. Com tantos filtros, só a população negra – ou, em menor grau, a indígena – teria moral para entoar tal discurso no Brasil.

O raciocínio erra ao acreditar que o racismo originou a escravidão, e não o contrário. Esta nascia de conflitos quase sempre internos ao grupo étnico. Na antiguidade ou mesmo na idade média, o transporte precário não facilitava o choque cultural, ainda que este existisse como forma de controle político, vide as alexandrias. O que não impedia que vitoriosos se arvorassem o direito de escravizarem os derrotados que sobrevivessem. Mesmo nas Grandes Navegações, o primeiro contato do europeu com o africano é pacífico, pragmático até, ainda que condenável. Afinal, dentre os produtos negociados, estava a mão de obra escrava, algo que já havia sido abolido na Europa cinco séculos antes.

Inicialmente, o preconceito se manifestava por diferenças religiosas. Só com o sucesso do colonialismo surgem teorias bizarras defendendo o europeu como um ser superior predestinado a dominar o mundo. Mas tais ideais seriam derrotados em definitivo pela catastrófica Segunda Guerra Mundial. E mesmo nela o tom de pele seria uma questão coadjuvante – os principais alvos dos supremacistas eram judeus e ciganos.

Os termos “eslavos” e “escravos” possuem a mesma origem grega. Tanto que, em inglês, uma única palavra define ambos os grupos. Mas os primeiros são povos originários do leste europeu. Logo, a condição necessária para reclamar preconceito já estaria plenamente justificada em três etnias que ocupam a Europa há séculos. Todavia, há uma questão lógica ainda mais importante: o preconceito deve ser combatido em suas primeiras manifestações ou se faz necessário aguardar séculos de perseguição para que as vítimas tenham o direito a ao menos um pedido de ajuda?

Obviamente, o primeiro caso.

Contudo, muita gente precisa insistir que Mallu Magalhães está errada. Que não existe “racismo reverso”. Que brancos não podem reclamar de preconceito. Porque, se Mallu Magalhães estiver certa, algumas dessas pessoas entrarão para as estatísticas como racistas, como indivíduos que precisariam se entender com a Justiça pelas declarações dadas. Pois insultos a brancos viraram parte da retórica da militância. A mesma militância quem ensinou – corretamente – que racismo é algo inaceitável.

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Se no Brasil a adesão foi baixa, as ruas da República Dominicana lotaram contra a Odebrecht

Os braços do petismo nunca se contentaram apenas com o Brasil, por isso, durante as gestões do partido, o Governo Federal foi usado para tocar obras na América Latina e África. Com a Lava Jato confirmando o que todos desconfiavam, caiu não só o império vermelho brasileiro, mas todos aqueles que se deixaram encantar com o discurso lulista. E isso inclui a República Dominicana.

Se, por aqui, a adesão ao ato que pretendia defender a Lava Jato foi baixa, lá, um protesto contra as interferência da Odebrecht na política local findou em milhares de manifestantes nas ruas. O que rendeu a imagem mais acima, retiradas das redes sociais no 26 de março de 2017.

O evento, o segundo com esta intenção, foi chamado de “Marcha Verde”. Mas lá a investigação ainda engatinha.

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A curiosa delação de Joesley Batista

Desde que li, na noite da última sexta-feira, textos da delação de Joesley Batista não consigo esquecer da delação do Sergio Machado. Ambas guardam muitas semelhanças. Algumas delas:

  • Se baseiam igualmente em grampos feitos pelos próprios delatores, de forma unilateral com flagrantes montados;
  • Tanto Machado quanto Joesley marcaram encontros com o objetivo premeditado de flagrar seus interlocutores em diálogos comprometedores;
  • Incitaram seus interlocutores a se incriminar, sugerindo as pautas a serem discutidas;
  • Tanto um quanto outro grampearam apenas políticos do PMDB e PSDB;
  • Utilizaram os áudios produzidos por eles mesmos para tentar um acordo vantajoso; e
  • Ambos estão soltos. Machado em sua mansão; Joesley em NY.

O que isso significa?

Impossível responder sem falar unicamente em tom de achismo. Mas vou me permitir esse devaneio.

Sabemos que, nessa altura do campeonato, para um criminoso conseguir um acordo com a Justiça é preciso entregar conteúdo relevante. Não adianta chegar lá e confessar que recebeu dinheiro do Marcelo Odebrecht, esse já está preso. Essa postura é normal na estratégia de delação premiada, e é justa pois os benefícios dados ao delator são muito vantajosos, seria injustiça deixar de aplicar as penas legais “tradicionais” para conceder regalias a troco de nada. Sendo assim não é estranho o fato de o MPF exigir nomes novos para poder fechar um novo acordo de delação premiada.

Pensando desse modo não é nada estranho imaginar até mesmo que o MPF tenha atuado (como atuou) de forma a auxiliar criminosos a montar flagrantes para outros criminosos. Soubemos nessa semana que um procurador da Operação Greenfield foi infiltrado na JBS para auxiliar Joesley na produção das provas. Absolutamente normal, e louvável.

Continuando nessa linha… também não é de todo estranho que os nomes que estejam sendo pegos nos flagrantes montados sejam do PMDB e do PSDB, afinal o PT e o PP já tiveram tantos políticos pegos que é até difícil conseguir lembrar de algum que já não esteja sendo processado criminalmente.

 Somos levados a pensar então “mas porquê não flagrar também os políticos do PT? Afinal nenhum deles foi preso até hoje.”

Não foi e nem será. E isso por causa da postura do STF: cada um dos três poderes que resolva seus próprios problemas.

O STF adotou o mote “as instituições estão funcionando plenamente” desde os tempos do ministro Ayres Britto. Esse mote significa que o STF não vai atropelar a prerrogativa do Legislativo nem do Executivo, e hoje, o foro privilegiado impede a prisão de um político em exercício de mandato (a não ser por crime em flagrante, como o do senador Delcídio).

Cármen Lucia e Barroso já falaram – replicados pelo procurador Deltan Dallagnol –, “o foro privilegiado tem que acabar”.

Quando Janot pediu a prisão do senador Aécio Neves eu falei no Twitter que não acreditava que o STF iria autorizar a prisão do senador. Algumas pessoas não entenderam e me criticaram… Fachin afastou Aécio do exercício do cargo mas não autorizou sua prisão.

A decisão não poderia ter sido outra. Está completamente de acordo para com a postura atual do STF. Como prender um senador em exercício de mandato com o foro privilegiado em vigência? Só o Legislativo pode decidir isso e, justa e unicamente por isso Fachin devolveu a batata-quente pro Congresso. Querem prender um senador? Então que cassem seu mandato!

O que Fachin poderia fazer, ele fez. Afastou o senador do cargo, apreendeu seu passaporte e o proibiu de ter contato com outros investigados. Mais que isso, só se o Legislativo avançar com a PEC do fim do foro privilegiado.

Enfim, o que nos falta não são provas cabais contra os políticos, o que falta é acabar com o foro privilegiado. Sem ele não tem grampo que irá nos salvar.

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