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Por que a imprensa brasileira em peso interpretou errado o texto de Sérgio Moro?

É verdade que, em ofícios anteriores, Sérgio Moro já se fez mais claro e direto. Mas também é verdade que o juridiquês é capaz de produzir textos muito mais confusos. E quem vive de cobrir o judiciário está acostumado a eles.

Ontem, o juiz que coordena a Lava Jato na primeira instância enviou o seguinte parágrafo ao STF:

“Diante da controvérsia decorrente do levantamento do sigilo e da r. decisão de V.Ex.ª, compreendo que o entendimento então adotado possa ser considerado incorreto, ou mesmo sendo correto, possa ter trazido polêmicas e constrangimentos desnecessários. Jamais foi a intenção desse julgador, ao proferir a aludida decisão de 16/03, provocar tais efeitos e, por eles, solicito desde logo respeitosas escusas a este Egrégio Supremo Tribunal Federal.”

Em outras palavras, Moro dizia estar ciente de que a decisão de 16 de março havia gerado polêmica e por isso pedia desculpas. Mas ressaltava que cabia discussão sobre ela estar certa ou não. Tanto que, na sequência, defendeu como correto todo o procedimento:

“Com o foco da investigação nas condutas do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o entendimento deste julgador foi no sentido de que a competência para decidir a questões controvertidas no processo, inclusive sobre o levantamento do sigilo sobre o processo, era da 13ª Vara Criminal Federal até que ele tomasse posse como Ministro Chefe da Casa Civil, como previsto inicialmente no dia 22/03.”

Por que, então, os principais veículos da imprensa nacional interpretaram o ofício como um pedido de desculpas de Sérgio Moro por ter retirado o sigilo do áudio que mostrava a presidente da República tramando com o ex-presidente uma obstrução de justiça?

O título original e o corrigido pelo Globo
O título original e o corrigido pelo Globo

Não que erros de interpretação sejam raros. Eles ocorrem, eu mesmo já me vi protagonizando vários, mas, ao notá-los, peço desculpas e corrijo a informação. Contudo, não é normal que as principais redações do país se permitam errar em uníssono. Ou que algumas insistam no erro ainda no dia seguinte.

Mas a pergunta me parece ter uma reposta bem simples: as redações são vermelhas. E os jornalistas se comportaram como a torcida que grita gol quando a bola bate na rede pelo lado de fora.

Um pedido de desculpas por parte de Sérgio Moro reconhecendo como errado o procedimento que mostrou a presidente da República cometendo crime de responsabilidade é tudo o que o governo queria para tentar reverter votos a favor do impeachment. E o jornalista brasileiro sabe disso.

Foi num curso de comunicação que vi o PT pautar toda e qualquer discussão política. Foi num curso de jornalismo que via o discurso da esquerda ser cobrado em prova por professores que, vejam só, reprovavam o trabalho da imprensa.

Por mais que haja ordens de cima cobrando o fim do governo Dilma, e só isso explicaria a recente mudança de postura da Rede Globo, quem escreve o texto é quem está embaixo. E, salvo raras exceções, recebe com muita contrariedade essa ordem. E tentará aproveitar qualquer brecha aberta no noticiário para provar que o chefe estava errado.

Tirar o PT da presidência não significa acabar com o petismo. Porque o petismo está nas instituições, nos sindicatos, nas redações, nos palcos e, principalmente e infelizmente, nas escolas.

O impeachment de Dilma, por mais difícil que venha se mostrando, será apenas o primeiro passo. Evitar que a imprensa se permita erros grosseiros como o de ontem, ainda que alguns tenham se permitido a correção, pode ser um segundo.

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