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A liberdade de expressão perde mesmo quando a censura parte da iniciativa privada

Joan Cornellà domina o humor nonsense como poucos. Não à toa, possui quase 300 mil seguidores só no Twitter, a menor das grandes redes sociais. Tudo isso graças a charges que nem texto trazem, mas apenas sequências de imagens regadas a muita acidez, sangue, corpos deformados e nudes eventual.

Agora, Cornellà questiona se deveria criar uma nova conta no Instagram ou seguir vivendo com “menos uma rede social totalitária que rende grande audiência“. Dias antes, o perfil do projeto foi banido da gigante das fotos após a publicação de um desenho em que os seios de uma garota são substituídos por um gigantesco par de testículos. E essa, infelizmente, está longe de ser a única censura da semana.

O Sargento Fahur usou o Twitter para reclamar do acontecido contra a própria página no Facebook. Dono de um discurso pesado, o policial se popularizou pela espontaneidade ao usar as redes sociais para falar dos criminosos no tom dos apresentadores de programas policiais da TV. Contudo, a turma de Mark Zuckerberg achou por bem responder ao protesto de alguns militantes e derrubou um projeto que já acumulava 1,6 milhão de leitores.

O caso mais barulhento desses dias, no entanto, ocorreu fora das fronteiras do Brasil, numa discussão entre Milo Yiannopoulos, um ativista conservador que se popularizou na internet rebatendo argumentos esquerdistas, e Leslie Jones, atriz da nova versão de Ghostbusters que usava o Twitter para denunciar os ataques racistas que sofria após o lançamento do filme.

A discussão era válida: os produtores viram vantagem em politizar uma série que historicamente tinha compromisso único com a diversão, e fizeram do reboot uma defesa do feminismo. Com o fracasso nas bilheterias, a militância contrária ao aparelhamento ideológico de basicamente toda a cultura pop partiu para cima dos envolvidos no projeto. Foi quando Jones se indignou. Mas Yiannopoulos viu ali uma tentativa desesperada de salvar o trabalho rendendo mais mídia espontânea, ainda que em decorrência de uma grave polêmica.

Claro que o conservador poderia ter sido mais polido ao bater boca com a atriz. Mas o mais novo no embate tinha 32 anos, contra os 48 da mais velha. São dois adultos que já deveriam saber lidar com destemperos do tipo. Mas Jones achou por bem “reportar” Yiannopoulos, e conseguiu a simpatia de Jack Dorsey, criador do Twitter, que baniu o perfil do ativista para sempre de sua rede social.

Mesmo em se tratando de uma empresa privada, está em jogo a liberdade de expressão. Não por interesse público, mas por uma lógica de mercado. O Twitter só se tornou o que é hoje quando incendiou a Primavera Árabe há meia década. Hoje, a exemplo dos projetos tocados por Mark Zuckerberg, escancaradamente se tornou uma marca que vê mais vantagem em evitar conflitos com politicamente correto do que defender que os usuários sintam-se livres até mesmo para gritarem os mais repugnantes absurdos.

Há, claro, ainda algumas empresas do outro lado. Mas é deprimente notar como vão se tornando exceções. Ou mesmo cheias de ressalvas. O próprio Google, que financia este projeto por intermédio do AdSense, sugere jamais estampar sua publicidade em conteúdo que não seria de bom tom aos olhos de uma criança. Foi por respeito a essa regra que evitei destacar aqui a polêmica charge de Cornellà, por exemplo.

Tecnologia para que os usuários marquem o próprio conteúdo que geram como “sensível” não falta. Ou mesmo para que este tipo de material seja filtrado das linhas do tempo de quem deseja um uso mais florido da internet. Vontade política para enfrentar o discurso predominante, contudo, é cada vez mais rara.

É triste constatar, mas a internet já foi mais livre. Bem mais livre.

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