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Se a direita quiser vencer no Brasil, precisará “endurecer sem perder a ternura”

Goste-se dele ou não, uma das maiores lições políticas da história é atribuída ao detestável Che Guevara: é preciso endurecer sem perder a ternura. Em outras palavras, manter posicionamentos firmes sem que a postura implique em perda de apoio. A esquerda brasileira, contudo, levou a ideia adiante como farsa, forjando um “Lulinha Paz & Amor” num personagem que dividiria o país ao meio. E transformando em “questão social” qualquer iniciativa que avançava sobre os recursos públicos sem melhores justificativas.

Quanto à direita, nem isso.

Se há algo em comum entre os nomes que hoje, no Brasil, despontam à frente do conservadorismo renascido das cinzas é a incapacidade para domar a própria rejeição. Mesmo Eduardo Cunha, com domínio inegável do jogo político, tornou-se persona mais non grata que Dilma Rousseff, principal responsável pela ruína brasileira. Se é verdade que foi alçado a inimigo número um graças ao processo de impeachment, é também verdade que não soube peitar os formadores de opinião que endossavam a pauta petista pintando-no como o maior problema da nação – coisa que, por uma concorrência altíssima, jamais foi.

Noves fora Cunha, sobram personagens como Marco Feliciano, Silas Malafaia e a família Bolsonaro, todos donos de um tom forte e imprudente que, se garantirá a eles e aos aliados incontáveis mandatos no legislativo, os impedirá de um dia obter sucesso no executivo, onde a maioria mais um é necessária para se eleger, e o diálogo com a minoria é fundamental para se governar. Em outras palavras, são atores políticos barulhentos, mas suas pautas dificilmente encontrarão apoio em suficiência para seguirem adiante.

Quem mais se aproxima de um necessário centro benéfico à direita talvez seja o senador Ronaldo Caiado. Mas ainda assim se permite gestos de pouca “ternura”, quando por um punhado de vezes chamou oponentes às vias de fato. Todos aqueles vídeos, mesmo rendendo bons compartilhamentos nas redes sociais, custarão caro em eventuais disputas majoritárias, realidade que esquerdistas como Ciro Gomes conhecem bem de corridas presidenciais passadas.

Fora da vivência mais política, tinha potencial a figura de Janaína Paschoal. E é verdade que ainda o tem. Mas, quando precisou fazer do palco um palanque, comprovou estar verde para a missão, e protagonizou cenas assustadoras que por pouco não causaram prejuízos mais sérios ao processo de impeachment iniciado por ela própria.

Mesmo o jornalismo mais à direita – ainda raro e, portanto, de uma coragem louvável – padece de imprudência semelhante. Antagonistas, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, quando não pecam pelas análises apressadas, ou defesas insustentáveis, mergulham de cabeça em ciladas jurídicas que podem custar-lhes a saúde financeira – e, por consequência, o sucesso de suas empreitadas.

Em resumo, a direita renasceu, tem força, tem até potencial, mas carece de representantes que amplifiquem-lhe qualidades e contornem seus problemas. Até lá, haverá mais sucesso contendo o avanço dos projetos adversários do que construindo um para si.

É um começo que até já deu resultado. Mas está bem longe de ser tudo.

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