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Um breve resumo da crise política que levou à queda de Dilma Rousseff e à ruína do PT

Dilma Rousseff foi eleita em 2010 com a desculpa de que seria ela a pessoa mais indicada a manter lá em cima o crescimento econômico atingido pelo último ano do governo Lula. Por isso vendiam a ideia de que ela seria uma “gerentona”. Por isso chamavam a ministra da Casa Civil de “mãe” do Programa de Aceleração do Crescimento.
Mas o primeiro erro estratégico do PT estava sendo cometido por um ainda opositor, Gilberto Kassab, então prefeito de São Paulo pelo Democratas. Sem a obrigação de concorrer a nada, aproveitaria as eleições presidenciais para sondar parlamentares sobre a fundação de um novo partido. E em 2011 surgiria com o PSD, uma tentativa bem sucedida de subtrair de um dos principais partidos de oposição qualquer parlamentar com viés minimamente adesista. Desde então, apenas um domesticado PSDB teria alguma voz significante do lado da minoria.
Em 2012, o crescimento proporcionado pelo PAC já comprovava não ter passado de um voo de galinha. E a inflação começava a responder ao populismo econômico do PT. Nada disso, contudo, impediria o partido de conquistar a prefeitura de São Paulo. É quando Dilma e Guido Mantega acreditam poder fazer da capital financeira do continente um mero instrumento do Palácio Planalto.
Se tivesse ajustado o preço das passagens de ônibus em janeiro de 2013, como fez qualquer prefeito mais calejado, Fernando Haddad pegaria o movimento estudantil de férias e enfrentaria protestos mais amenos sob o sol do verão. Contudo, foi convencido por Dilma a adiá-lo para maio. Reajuste feito, o Passe Livre, grupo que, a exemplo do PSOL, acredita fazer uma “oposição à esquerda” do PT, começou a destruir a cidade.
O PT nunca teve medo de gente na rua e tentaria colocar em prática um roteiro manjado no qual tomaria as rédeas da manifestação. Para isso, o governo tucano de São Paulo precisava morder a isca. Mas a PM vinha se comportando como reza a cartilha progressistas, apenas acompanhando inerte a destruição nas caminhadas do Passe Livre.
É quando a imprensa paulistana cobra em editoriais uma reação enérgica das forças policiais e ela vem, para deleite dos jornalistas governistas ávidos por uma narrativa que confronte opressor e oprimido. De repente, milhares de esquerdistas vão às ruas de todo o Brasil reagindo ao que ocorrera em São Paulo. E, como um passe de mágica, o motivo não mais era os tais “20 centavos”. Em outras palavras, o alvo não mais era o prefeito petista, mas qualquer outro.
O problema é que, ao girar a metralhadora contra “tudo isso que está aí”, a esquerda atingiu principalmente o comando do “tudo isso que está aí”. E a aprovação de Dilma desabaria de 65% para 30% naquele junho de 2013.
Desesperada, Brasília entraria em modo “pauta positiva”. E caminharia com a Lei da Delação Premiada que a própria Dilma sancionaria dois meses depois. Ou um mês após a presidente começar a gastar o que não tinha para reverter a queda de popularidade.
Esses gastos em excesso já eram chamados de “pedaladas fiscais” naquela época. Quanto à Lei da Delação Premiada, era tudo o que um juiz de Curitiba implorava desde 2004 para que pudesse combater com mais eficiência a corrupção. Uma década depois, em março, Sérgio Moro tornaria pública a Lava Jato, uma operação que vinha caminhando a curtos e silenciosos passos desde 2008.
Foi também em março de 2014 que o PT convocou Gilberto Kassab para repetir a missão bem sucedida de 2010. Contudo, o alvo não mais seria o Democratas, ou mesmo um partido de oposição, mas o PMDB, a maior fatia da base aliada.
Um peemedebista vinha percebendo a manobra e, mesmo pedindo voto para Dilma Rousseff em 2010, formaria dentro do próprio partido uma ala oposicionista. O nome dele? Eduardo Cunha.
Todo o resto é consequência deste cenário.
Gritos tímidos de impeachment são ouvidos quando a Lava Jato entra pela primeira vez na Petrobras em abril de 2014. Durante as eleições presidenciais, a operação conquistaria as primeiras delações premiadas de peso. E, a dias do final do segundo turno, a Veja estamparia na capa que Dilma e Lula tinham pleno conhecimento do que acontecia no Petrolão.
Na semana seguinte, o que era tímido em abril vira 5 mil pessoas no vão do MASP pedindo a queda de Dilma Rousseff, para desespero da mesma imprensa que exigira em 2013 uma reação da PM e agora tentava destacar a minoria que falava em intervenção militar.
O PMDB frustraria a missão Kassab e faria de Eduardo Cunha o presidente da Câmara em fevereiro de 2015. Um mês e meio antes de os protestos de 15 de março obrigarem o jornalismo nacional a, após décadas, estampar em suas manchetes o termo “impeachment”.
Sabendo que seria Cunha o primeiro a, por lei, filtrar qualquer iniciativa ligada ao processo, a propaganda do PT transformaria o presidente da Câmara em inimigo número um da nação. Em julho, o peemedebista convoca a imprensa para deixar claro que não mais fazia parte da base deste governo.
Nos seis meses seguintes, os dois lados tentariam a salvação acordando uma trégua com o inimigo. Em uma montanha russa de forças, ora interessava ao PT a aliança com Cunha, ora o inverso. Nesse meio tempo, não sem antes muito protelar, o TCU reprovaria as pedaladas fiscais cometidas por Dilma Rousseff, que, sem conseguir domar a própria base, veria em dezembro o presidente da Câmara aceitar o pedido de impeachment assinado por Janaína Paschoal, Miguel Reale Júnior e Hélio Bicudo.
Hoje, um dia após a cassação do mandato do líder do governo por tentar obstruir a Justiça a mando da presidente da República, uma semana após a queda de Cunha, três anos após o aumento das tarifas pela prefeitura de São Paulo, cinco anos após a fundação do PSD de Kassab, o PT cairá graças a esforços do mesmo PMDB que queria desidratar ao tentar ressuscitar o PL em 2014.
O petismo encontrará seu fim graças ao próprio projeto de poder, que buscava não uma harmonia democrática, mas uma hegemonia autoritária, ditatorial, onde mandaria e seria obedecido por quem tivesse juízo. O PT entrou nessa saga com apoio de 87% da população. Sairá dela contando apenas com a força de figuras toscas como Lindberg Farias, Sibá Machado, Silvio Costa, Waldir Maranhão e tantas outras aberrações que o parlamento brasileiro consegue produzir.
Já vai tarde, saiu caro, por décadas os brasileiros quitarão toda essa irresponsabilidade e não deixará de ser justo uma vez que, em dado momento, nove em cada dez destes cidadãos apoiavam um grupo político que flagrantemente comprava apoio parlamentar. O Brasil novamente colherá aquilo que plantou.
Contudo, que o PT nunca mais volte. Que esses mesmos brasileiros entendam de uma vez por todas que o populismo latino americano é o veneno que mais atrasa esta nação, uma nação com tanta vocação para a prosperidade, mas nenhuma disciplina para buscá-la. Que percebam que este populismo já veio na forma de ditadores civis, de ditadores militares, de salvadores da pátria, de salvadores dos pobres e tentará um novo ciclo disfarçado de algo que nem somos hoje capazes de prever.
Que, nesse dia, esse brasileiro saiba manejar a mesma arma usada em novembro de 2014, quando dos primeiros protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff: a liberdade de expressão.
Uma mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade? Uma verdade repetida mil vezes tem potencial muito mais devastador. Do tipo que derruba presidentes.
O PT que o diga.

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