mai.2009 06

Já expliquei isto no Twitter, mas se trata de algo que para ficar mais compreensível necessita de alguns parágrafos. Em campeonatos de futebol como a Libertadores da América, ao contrário do que acredita a opinião geral, e o regulamento, é muito melhor, na fase mata-mata, uma equipe realizar o primeiro jogo em seu mando de campo, e só o seguinte no campo advsersário.

Como ex-torcedor do São Paulo (não torço mais por nenhum clube, um dia explico isso melhor), já acompanho a Libertadores desde o início dos nos 90. Ou seja… Não se trata de algo que verifiquei na última temporada. Acontece que no fatídico primeiro jogo o visitante também se fecha na defesa. Mas inconscientemente ciente de que ainda possui um segundo jogo para corrigir qualquer derrapada, vez em quando se abre para se aventurar num contra-ataque mais relaxado. E é aí que nasce a oportunidade para o mandante tomar a frente no placar.

Quando o segundo e definitivo jogo chega, invertem-se os papéis, contudo, com o visitante já em vantagem no placar. Sem a folga de um jogo para errar, se tranca na defesa e de lá não sai nem quando o goleiro da casa se aventura no ataque em algum escanteio. O mais comum nestas partidas é o zero-a-zero por ser o resultado mais desejado por 50% de quem está em campo. A outra metade quer qualquer coisa, menos aquilo.

Lembrei dessa tese quando soube que o Palmeiras, o quinto brasileiro classificado para a fase final, deve fazer a maioria dos seus “segundos jogos” fora de casa. E a tese começa a se confirmar com a vitória do mesmo ontem sobre o Sport. Por mais que torça pelos pernambucanos, não posso deixar de acreditar que o Palmeira é o favorito, e que o Grêmio, detentor da melhor campanha de toda a competição, será o clube a enfrentar mais dificuldade por jogar todos os primeiros jogos fora daqui para frente.

mai.2009 02

Assembly era, se brincar, a cadeira mais chata de toda a faculdade. Porque era uma linguagem que estava para a programação assim como o latim está para a nossa língua. Tem sua importância por servir de base para as outras linguagens, mas é arcaica, está em desuso. E ainda era pior: a aula começava as 7h00 da manhã se seguindo por mais dois horários. Resultado: não era raro o professor começar a lecionar com a presença de apenas três alunos de uma turma de trinta. E a maioria só vinha a chegar por volta das 8h00 mesmo. O que fez ele? Tolerância zero.

Quando soava o alarme de início das aulas, o professor iniciava a chamada como se fosse um tiro de partida: “André, Bianca…” Não respondia, era brindado não com uma, mas com três faltas referentes aos três horários do dia. Era injusto? “Injustiça maior sou eu começar a aula falando para as paredes!” Mas ocoreu um acidente e o trânsito estava péssimo? “É justamente para isto que você tem direito a 15 faltas por semestre.” Mas você mora longe? “Na véspera de minhas aulas você vai dormir mais cedo para acordar mais cedo e chegar aqui mais cedo!” E os 15 minutos de tolerância? “Não sei se você notou, a tolerância aqui não é 15, a tolerância aqui é zero!”

O professor era tão sacana que na caderneta online ele já assinalava falta para todos os alunos. Quando soava o alarme, iniciava a chamada e, para aqueles que respondessem, desmarcava a falta.

Horrível, né? Pois é… A partir da terceira semana da aplicação da tolerância zero, não tivemos notícia de nenhuma aula que se iniciou com menos de 27 alunos presentes. E o professor dava aula muito bem.

abr.2009 28

O estilo de humor que mais curto atualmente é o “stand up”, quando um humorista abre mão de personagens, imitações, palavrões e bordões para nos arrancar sorrisos apenas nos fazendo pensar. No mundo, ou melhor, nos EUA, este formato rende fama e fortuna há décadas e seu maior expoente talvez seja o Jerry Seinfeld, mas temos também o George Carlin, o Chris Rock, entre outros. No Brasil, os grandes nomes são Oscar Filho, Danilo Gentilli e Rafinhas Bastos, mas mesmo feras como o Chico Anísio, em início de carreira, e o Jô Soares, já se apresentaram no formato.

Contudo, o brasileiro acha que, por se um comediante, obrigatoriamente te fará sorrir com suas histórias. Como se qualquer banda que subisse a um palco, fosse ela de forró ou de heavy metal, te fizesse curtir o show. O João Gordo no Twitter disse que achava o Tiririca mais engraçado que o Danilo Gentilli. E talvez ache mesmo. Mas não porque o Tiririca é melhor que o Danilo, mas porque é de um estilo que agrada mais ao vocalista do Ratos de Porão. Eu assisto ao Zorra Total e não dou um risada. Mas vez em quando flagro minha sogra dando altas gargalhadas com os bordões que se repetem semana a semana. É o estilo dela de humor. O humor de bordão, de repetição, de personagens caricatos. O meu é outro. Gosto de ironias e provocações, além de um pouco de absurdo. E aí podemos puxar da cartola nomes como Monty Python, Casseta e Planeta, que são irônicos e caricatos, ou os mestres da comédia em pé, que quase sempre são bem provocativos. South Park e Family Guy são extremamente absurdos e provocativos. Os Simpsons já são mais irônicos. As animações da Pixar (Procurando Nemo, Incríveis, Wall-E) são bem divertidas também, mas são extremamente família, degustáveis pelo público infantil e adulto. O inverso é o Costinha, que baseava todo seu humor no escracho do mais baixo nível, e costuma ser a base da maioria dos comediantes nordestino, que são viciados em palavrões e safadeza.

Enfim… Colocar tudo num mesmo rótulo de “comediante” e como publicar uma coletânea de músicas com as melhores canções  de Roberto Carlos, Xuxa, Legião Urbana, Ratos de Porão, Nina Simoni, Mozart e Cavaleiros do Forró. Ou como preparar um almoço com arroz, sorvete, bucho de bode, chocolate, hortelã, caranguejo, pimenta e açúcar. É tudo comida. É tudo música. É tudo humor. Mas cada um possui seus meios para chegar aos mesmo fim, seja ele matar a fome, alimentar a alma, ou fazer rir.

abr.2009 26

Em 5 de outubro de 1988 foi promulgada a atual constituição brasileira. Em seu 220º artigo, § 2º é dito que “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. É esta passagem que há 21 anos nos garante direito à liberdade de expressão. Mas pergunto: a censura realmente encontrou aí o seu fim?

A censura estatal, se não foi extinta desde então, ao menos ocorreu em casos que mais são tidos como excessões que regras. E ainda assim dignos de protestos enfáticos da parte dos censurados. Mas a censura privada? Aquela que demite o jornalista se por acaso publicar uma nota que prejudique algum anunciante do jornal para o qual trabalha? Aquela demite o publicitário se em seu blog pessoal enaltecer uma marca concorrente do cliente de sua agência? Aquela que demite a atendente da loja se for trabalhar com uma blusa da grife concorrente? Aquela que afasta do cargo o político que não concorda com o ponto de vista assumido por seu partido? Aquela que não permite ao entrevistado dizer que trabalhou no canal concorrente durante determinado período? Aquela que borra na blusa do atleta a logomarca que arcou com os custos para que o mesmo conseguisse competir fora do país? Esta censura não é política? Não é ideológica? Náo é artística?

Há certas censuras compreensíveis. Como a do cinema que impede que crianças assistam a filmes adultos. Ou que crianças se divirtam em clubes noturnos onde se consome toda sorte de drogas (legais e ilegais). Mas a maiorias das censuras são, digamos, censuráveis. Foi quando me flagrei pensando: se já “censuramos” aqueles que se danam a cometer crime de racismo, mesmo que o crime seja “apenas” se pronunciar contra determinada raça, por que não “censuramos” aqueles que saem por aí cometendo “censuras privadas”?

Quais seriam as conseqüências para a nação se por acaso fosse editada uma lei que proibisse a prática disto que dei de chamar “censura privada”?

  • Um funcionário de uma rede de supermercados não poderia ser demitido se comunicasse a terceiros por qualquer meio que as instalações nas quais trabalha burlam a vigilância sanitária.
    Logicamente, poderia ser demitido se isso se tratasse de uma INverdade. Mas o contrário seria péssimo para quem o emprega. Contudo, ótimo para a população que consome os produtos da rede. Pois teria a verdade vinda de dentro da corporação, por alguém com conhecimento de causa para defendê-la.
  • Jornalistas poderiam publicar notícias contrárias aos interesses dos anunciantes da publicação para a qual trabalha
    O que nos garantiria um jornalismos mais isento, e não apenas um que no referendo contra o uso de armas pela população se Veja obrigado a dar capa contra a proposta só para defender o interesse de poderosos que arcam com uma boa fatia de seus anúncios.
  • O cidadão comum poderia se expressar sem medo de ser prejudicado
    Por exemplo: blogueiros poderiam falar mal daquilo ou daqueles que não gostam (desde que não faltem com verdades) sem ser ameaçados por seus chefes. Ou ainda: aquele cara que surge nos comentários prometendo-lhe uma surra porque detestou o show de sua banda seria processado por crime de censura.
  • Um político poderia agir de forma mais autêntica
    Entendam por isso: se um político não concorda com uma posição defendida por seu partido, ele teria todo o direito de não votar com seus pares e a garantia de não ser censurado por esta decisão. Isto é ótimo para o cidadão brasileiro. Porque por mais que o STF defenda que o mandato pertence ao partido, o brasileiro vota em pessoas. E é preciso que esta pessoa defenda os interesses de quem nele votou, e não simplesmente daqueles que compõem sua legenda.

Enfim… Viajei? O que vocês acham?

abr.2009 22

É fácil entender porque um mesmo produto na loja do shopping é muito mais caro que no centro comercial de sua cidade. Aprendi isso com César ferrario, ator dos Clowns de Shakespeare, quando ainda era meu chefe na MaxMeio. Dizia ele algo como: “No Shopping você não paga só o Sanduíche. Você paga o sanduíche, o ar condicionado, o fato de existir um estacionamento onde não roubarão seu carro, a regularidade do piso, a limpeza das cadeiras, a possibilidade de fazer compras a noite, etc…”

O Alecrim (centro comercial de Natal) nunca fez nenhum shopping falir mesmo vendendo os mesmos produtos de forma bem mais barata. Mas por que as videolocadoras estão fechando? Só porque os DVDs piratas ocupam várias calçadas e ninguém faz nada? Não. Porque não oferecem nada ao cliente que faça valer a pena sair de casa para alugar um filme em seu recinto.

Neste fim de semana aluguei um filme depois de muito tempo. Contudo, a maior parte dos títulos que buscava já estavam locados. Os poucos que pude alugar eram caros: R$ 6,00 a unidade. Eu tinha três dias para assistí-los e devolvê-los ao custo de 18 reais e no horário em que a locadora estava aberta, ou então minha dívida se multiplicaria. O fim de semana passou, imprevistos rolaram, não vi filme algum. E ainda vou ter de enfrentar o trânsito de início desta noite para devolvê-los.

Agora imagine o que teria ocorrido se eu tivesse procurado um vendedor ambulante. Eu pediria a ele um DVD e ele faria das tripas coração para me conseguir uma cópia provavelmente de qualidade idêntica à original. Me cobraria três reais a unidade. E eu teria o resto da vida para assistí-la, sem trânsito, sem multas, sem estresse.

Eu pagaria 6 reais pelo aluguel de um DVD. Se a locadora me disponibilizasse um site com usuário e senha onde eu pudesse pesquisar facilmente em seu catálogo os filmes que gostaria de assistir. Se um motoqueiro em no máximo uma hora entregasse em minha residência as cópias alugadas. Se ao término do período do aluguel este mesmo motoqueiro voltasse em minha residência para pegar as cópias assistias ou não. Se ao final do mês a locadora me remetesse um boleto com toda a dívida que possuo com eles. Ou se melhor: se ao final do mês fosse debitado em meu cartão de crédito o valor de minhas locações.

Isso é difícil? Lógico que não. O Pittsburg entrega sanduíches em minha casa, a Diginet mensalmente me cobrava diretamente no cartão de crédito o que lhe devia, a Sterbom de 15 em 15 dias envia um motoqueiro em minha residência para trazer e pegar garrafões d’água. Qual é o mistério? Qual é a revolução? Nenhum(a).

Qual o problema então? Falta de visão de mundo e iniciativa.

abr.2009 10

Toda bondade há de ser premiada. Esta frase surgiu em minha cabeça quase que como uma iluminação. Parodia, e provoca, o “Toda nudez será castigada”, título de um dos maiores sucessos do cinema nacional (que eu nunca vi e não faço a menor idéia do que se trata). Mas a frase em si me fez pensar. Tanto que acredito ter chegado a hora de escrever. E aqui tentarei colocar em palavras tudo que por minha cabeça passou desde então.

Chocolate demais dá dor de barriga. Vento demais varre. Calor demais derrete. Frio demais congela. Beleza demais ilude. Inteligência demais isola. Saúde demais expõe ao risco. Dinheiro demais corrompe. Ciência demais frustra. Fé demais cega. Amor demais derruba. Tristeza demais mata. Energia demais explode. Música demais ensurdece.

Tudo demais, seja isso bom ou ruim, prejudica. Até hoje só encontrei uma exceção: justiça. Quanto mais justo algo for, melhor ele é. Ao ponto de me fazer acreditar que a justiça plena é o alicerce de um mundo utópico. O que está longe de ser um problema. Pois adoro a passagem que diz:

A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois. Caminho dez e o horizonte afasta-se dez. Por mais que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia, então? Justamente isto: para que continue caminhando.

Caminhar em direção ao horizonte seria caminhar em direção do que é justo. Um mundo bom é um mundo justo. Um ser humano bom é um ser humano justo. Um deus bom é um deus justo.

O problema é que vivemos numa nação carente em justiça. A impunidade aqui reina, pauta, serve de ponto de partida. Toda sorte de delitos é cometida na certeza de que a justiça tardará e falhará. Aqueles que com isso não concordam são minoria por aqui. E esta afirmação não é algo injusto de se dizer. Porque assim como é injusto alguém matar alguém, o é outro alguém jogar lixo no chão. Logicamente estamos falando de situações de relevâncias bem distintas. Mas pense apenas no quão é mínima a proporção de brasileiros que acham correto devolver ao caixa um troco que vem a mais e entenda que praticar o bem é um norte de poucos.

Não bastasse tanta impunidade, ainda carregamos na veia a cultura de que atitudes só são corretas quando altruístas. O bem só é bem quando não olha a quem. A organização só recebe doações se for sem fins lucrativos. As crianças só podem ter esperança se a rede de TV não abater de seus impostos parte do volume que passa por seus cofres durante a campanha. O artista só pode fazer caridade se não esperar publicidade para com seu nome. E assim por diante.

Mas se as pessoas que cometem delitos só os fazem na busca de recompensas (a grana do cofre, o resgate, o silêncio de alguém que sabia demais, a manutenção do cargo, o enriquecimento, etc), por que os que andam na linha precisam agir sem esperar nada em troca? Por que não tornar a bondade um investimento lucrativo? Algo que compita de frente com o monopólio da ruindade? Algo que dê ao cidadão uma opção? Continue Lendo »

abr.2009 03

Genocídio? Meio exagerado, não? Pode até ser. Mas a bronca é que não vejo remorso nos cidadãos desta província. Eram 23h da noite de ontem. Todas as janelas do meu apartamento estavam abertas. Eu que acabara de tomar banho gelado finalizava as leituras do dia em meu PC. Só com o calção do pijama. Quando menos percebo, meu peito começa a suar. Esta cidade está mais quente do que jamais esteve. Todos aqui passam o dia reclamando do calor, mas vêem dia após o dia o vizinho arrancando árvores e nada fazem além de reclamar do… calor.

Se você não acredita que as árvores regulam a temperatura, pense no deserto do Saara. São milhares de kilômetros só de areia. O que ocorre? Temperaturas acima dos 50 graus durante o dia, e abaixo de zero a noite. “Ah… Mas a Amazônia é cheia de árvores e é o lugar mais quente do país”. Imagine se a Amazônia não tivesse árvores. Seria um novo deserto do Sarra. E não adianta substituir árvores por toldos ou paradas de ônibus. As árvores consomem o calor que recebem, diferente do concreto que apenas o reflete. A sombra de uma telha não é a mesma sombra de uma árvore.

Estudei por três anos no Senac do Alecrim em cursos de línguas e informática. Eis que ontem passo em frente e me sinto incomodado pela claridade do ambiente. Passo a vista no ambiente e noto a ausência de uma gigantesca árvore que costumava fazer sombra a todos seus estudantes que aguardavam a vinda dos pais. Agora vão todos ter de esperar no sol. Abaixo, uma foto via Google Earth da finada.

Árvores arrancadas em frente ao Senac do Alecrim, NatalMassacre maior ocorreu na esquina da minha antiga rua. Notem na imagem que circulei um terreno grande, que continha uma mini reserva ecológica no meio de nossa selva de concreto. Pois contemplem a foto. Porque se você for lá hoje, encontrará apenas pedreiros levantando um novo condomínio.

Árvores arrancadas na Agostinho de Almeida, Lagoa Nova, NatalToda vez que você achar que está sendo massacrado pelo calor desta cidade, lembre-se que na frente da sua casa, da sua escola, do seu trabalho, da sua parada, poderia ter uma árvore amenizando o calor. E provavelmente só não o tem porque é da nossa cultura achar que as mesmas não servem para nada.

Arrancar uma árvore em uma cidade quente como Natal é quase como lavar a calçada com mangueira de bombeiro na seca do sertão.

mar.2009 30

Boogie Nights é um dos filmes mais bacanas que já vi. Conta a história do submundo do cinema pornô nos anos 70. Lá pelas tantas, o diretor dos filmes termina mais uma de suas obras toscas e comenta emocionado algo como: “Este filme ficou sensacional. No futuro, quero ser lembrado por ter feito este trabalho”. Na mesma hora caí na risada. Não sem deixar de me incomodar o contraste entre a minha gargalhada e a emoção do personagem.

Foi quando lembrei do dia que ouvi pela primeira vez o então “finalmente finalizado” segundo álbum de minha banda, a Experiência Ápyus. Para cada faixa, uma história me vinha à mente. “Nostalgia” surgiu quando dirigia e ouvi no rádio uma homenagem ao então falecido rapper Sabotagem. “Nossa Casa” veio fruto de um agradável sábado a noite entre amigos. “L” se tratava de uma canção que fiz para uma ex-namorada. “Impaciência” nada mais era que o fora que levei de uma outra garota. E por aí ia. Cheio de referências, com o Papa Bento XVI declamando “fazei isto em memória de mim”, com a guitarra emulando sutilmente a abertura do Jornal Nacional, com um vocal citando de longe “Ela é Carioca”, com um solo de guitarra altamente inspirado em hits de Michael Jackson nos anos 80… Na conclusão da audição, pensei: “Pode ser até que eu não faça sucesso com estas canções e desista da música hoje mesmo. Mas um dia mostrarei isto a meus filhos e tenho muita fé de que os mesmos se orgulharão de mim.”

Alguma semelhança com o diretor dos filmes pornôs? Várias. Apesar de todo orgulho que sentia pelo trabalho realizado, não tenho dúvidas que, filmado este momento, e apresentando o mesmo a um maestro de orquestra sinfônica, por exemplo, arrancaria risadas inesperadas assim como arrancou em mim Boogie Nights.

Em Alta Fidelidade, o personagem principal defende que as pessoas não gostam uma das outras pelo que elas são, mas pelo que elas gostam. Talvez por isso o dito cujo de maneira quase obsessiva passe as duas horas do longa gravando fitas cassetes com canções para serem presenteadas. No seu universo, a música é a base para se gostar de alguém. O que talvez ele não entenda é que aquelas cinco canções não são registradas pensando no bem do presenteado, mas sim buscando uma conexão que possa existir entre ambos. Eu já vivi isso, quando presenteei uma ex-namorada com as “antologias” dos Beatles mesmo nunca tendo visto ela comentar nada sobre os quatros rapazes de Liverpool. Era quase um teste: se ela gostasse daquilo, nossa relação seria fortalecida. Mas, até onde lembro, o presente serviu muito mais para a mãe dela.

Sim, é verdade: nós gostamos muito mais das pessoas pelo que elas gostam do que pelo que elas são. Foi assim que fiz a maioria dos meus amigos. Se o cara dizia que gostava de cerveja, vaquejada e rapariga, eu logo me afastava. Mas se cantarolava alguma canção do Pearl Jam, eu esticava a mão e… Prazer! Marlos Ápyus. Mas se é assim, significa que é certo ser assim? O problema é que nós temos mania de achar que o nosso gosto é o melhor do mundo, e esquecemos que, dependendo do referencial, nós não passamos de uns bostinhas aguardando num vaso uma descarga daquelas.

Jackson, assim como Maurício, tocava em bandas de pagodes “quebradeiras”. Luís era um vaqueiro que sempre chegava à aula de botas e com a calça manchada de estrume de vaca. Pablo é um dos playboys mais tiradores de onda que conheço. Thalles era outro. Andréa era tão fresca que achava nojento molhar o pão no café. Thiago aprontava tanto que virou persona non grata no Pittsburg. Leonardo, outro dia, contava vantagem de voltar dirigindo bêbado de uma festa. A vantagem que Rodrigo conta é de ter iniciado várias pessoas na maconha. Maria tem como maior ídolo ninguém menos do que Xuxa. Nicolas é fã de metranca. Anderson vive de bermuda e barba por fazer, faça chuva ou sol. Daniela fuma duas caixas de cigarro todo santo dia. Luciana prefere quando o filme é dublado. Ana se apaixonou pelo cara mais sem futuro que conheço.

São todos pessoas que possuem hábitos com os quais não concordo. Mas nem por isso nenhum deixou de ser meu amigo. Uns continuam próximos, outros se distanciaram naturalmente. Contudo, se eu colocasse na prática o “só gosto de você se você gostar do que eu gosto”, poucos amigos teria eu em vida. E não se trata de fazer concessões, mas sim de respeitar as pessoas pelo que elas são. E assim unirmo-nos pela afinidades, e não distanciarmo-nos pela diferenças.

É por NÃO colocar em prática esta simples idéia que plantam-se sementes que, ao germinarem, fazem com que corintianos matem palmeirenses, abecedistas matem americanos, punks matem emos, funkeiros matem pagodeiros, neo-nazistas matem negros, palestinos matem judeus, e assim por diante.

Uma coisa é odiar algo. Outra coisa é odiar alguém só porque não odeia algo. Assim como uma coisa é algo ser ruim, e outra é achar algo ruim. Quem sou eu para setenciar que o Cordel do Fogo Encantado é uma banda ruim? Meu voto vale mais que o daqueles dez mil que lotam a praça cívica ano após ano para os verem tocar? Por isso, quando comento, digo que eu, Marlos Ápyus, pessoa física, acho o Cordel do Fogo Encantado uma farsa. Assim como acho uma farsa o prato do Estupendo, o chocolate da Kopenhagen ou filmes com um elenco majoritariamente global. Mas minha mãe nem acha e adora o “Se Eu Fosse Você 2″. Por que meu voto vale mais que o de minha mãe? Ou mais que os cinco milhões de brasileiros que correram ao cinema para assistir a este longa?

Contudo, quase ninguém que eu conheço pensa assim. E vivem não só de julgar, mas em alguns casos de já condenar, por se gostar disso ou daquilo: “Fica quieto que você gosta de Teatro Mágico”, “Eu acho deprimente essa gente que assiste BBB”, “Não discuto com quem não entendeu 2001 uma Odisséia no Espaço”, “Não acredito que você pediu no amigo secreto um boneco do Wall-E”, “É que você não fuma maconha e não tinha nada a ver você estar ali com a gente”. Já ouvi isso tudo e muito mais. E acho deveras injusto. Porque eu tolero tão na boa o fato de o cara se meter numa roda de pogo e se quebrar no meio de uma ruma de moleque de camisa preta, mas ele me recrimina porque eu fui ao show do Teatro Mágico e bati palma. Porque eu tolero tão na boa o fato de o cara não saber a diferença entre Jorge Cícero e Jessier Quirino, mas para ele eu sou um nada porque não sei a diferença entre Dostoievsky e Dr. Manhatam. Porque eu tolero tão na boa a pessoa ser fã de Smallville e ela me acha deprimente porque assisto ao BBB. Faz ela idéia que assisto ao BBB para desopilar depois de uma jornada de quase 12 horas de trabalho? E que não dá para desopilar assistindo Laranja Mecânica?

Eu prefiro gostar das pessoas pelo que elas são a viver arrotando ao mundo meu gosto pessoal como se o mesmo se tratasse de uma obra de arte lapidada há anos pela natureza e fosse assim merecedora da admiração alheia. É isso.

Para referências bibliográficas, clique aqui.

mar.2009 27

Eu adoro essa piada: sabe por que os cachorros lambem seus genitais? Porque podem.

Já a utilizei como base para uma discussão dias atrás, mas cabe novamente. E aqui pergunto: sabe porque gente endinheirada ganha mais dinheiro especulando com sua fortuna? Porque podem.

O que Lula disse ontem não foi racismo invertido. Foi burrice. Das grandes. Das maiores. Ainda mais quando soma-se a sua explicação de que não conhece banqueiro negro ou índio. Continue Lendo »

mar.2009 27

Deixa eu pensar por onde eu começo.

Este cara certa vez descobriu que um de seus melhores amigos, que trabalhava na empresa a qual ele gerenciava, estava de alguma forma levando vantagem sobre alguns clientes da mesma. Um vantagem que em nada prejudicava a empresa, apenas os compradores de seus produtos. Em um esquema bem feito ao ponto de nenhuma vítima jamais imaginar o que estava acontecendo. Este cara não só demitiu este amigo, como o obrigou a devolver aos clientes da empresa tudo aquilo que lhes fora tomado. Este amigo, por conta da demissão, passou por sérias dificuldades financeiras, visto que era casado e sustentava alguns filhos. Mas este amigo jamais deixou de ser amigo deste cara, e vice-versa.

Esta talvez seja a melhor história que eu conheça deste cara. Porque fala de amizade, justiça e honestidade. Mas não é a única que lembro. Porque este cara aos catorze anos de idade teve o pai assassinado. E junto com sua mãe ajudou a criar oito irmãos mais novos. Junto com os irmãos, humildemente vendeu durante a adolescência tomates na feira. E de vendedor de tomate, passou a ASG de uma multinacional. De ASG, virou motorista. De motorista, tornou-se vendedor. De vendedor, chegou a gerente. De gerente, tornou-se gerente regional. E estamos falando de uma empresa que por muito tempo foi considerada a maior corporação em atividade neste país.

Este cara teve uma infância humilde num bairro humilde de uma cidade humilde de um estado humilde. Mas a humildade jamais foi desculpa para qualquer falha em seus atos. Após 15 anos de primeiro e segundo grau, chegou ao ensino superior e lá batalhou 25 anos por um diploma. Não por incompetência sua, mas porque constantes transferência ocasionadas por seu emprego, a dificuldade existente para transferência acadêmica, e até uma tuberculose que o acamou por dois anos, o impediram de atingir tal glória no tempo esperado. Mas aos 42 anos estava lá, a seis meses de discursar como orador de sua turma de administração, e prometendo que o próximo passo era encarar uma faculdade de direito.

Este cara não era perfeito. Fumou até aproximadamente os trinta, e isso era sim um defeito. Bebia, o que não era problema, mas se garantia em pegar no volante em seguida, o que é lastimável. Mas naquela época a moral era bem menos exigente. Não sei se hoje ele faria o mesmo. E infelizmente preciso usar o futuro do pretérito. Porque este cara certa vez perdeu o trabalho de alguns meses graças a uma falha em seu computador. E precisou refazer tudo em uma semana, o que conseguiu com êxito. Mas isso não o impediu de ter a pressão sangüínea elevada, o que, seis meses antes de conquistar o diploma tão desejado, aos 42 anos de idade, causou-lhe o estouro de veias no cérebro, rendendo-lhe três derrames cerebrais, arrancando-lhe precocemente a vida e deixando órfãos uma esposa e cinco filhos os quais amava profundamente.

Até na hora da morte este cara surpreende. Pessoas que sofrem derrame podem no momento do trágico acontecimento reagir de várias formas distintas. Alguns sofrem convulsões, alguns gritam, alguns simplesmente apagam, alguns choram. Ele, quando já hospitalizado e sofrendo o terceiro AVC, simplesmente cantou. O que nem era uma boa porque ele era deveras desafinado e desritmado. Mas quantos de vocês vão poder se dar ao luxo de morrer cantando?

Foram preciso três funcionários para substituí-lo em seu trabalho porque achavam humanamente impossível uma única pessoal arcar com as responsabilidades que o mesmo arcava. Não só isso: aquele garoto que vendia tomate na feira tornou-se um homem tão previdente que, mesmo depois de morto, garantiu, por intermédio de pensões e propriedades, uma vida digna para a esposa e os cinco filhos.

Sou fã deste cara. Este cara é meu herói. Este cara é meu pai.

Aos 6 anos de idade ele me pegou no colo e disse-me: “Hoje você vai aprender a comer.” Colocou no prato uma porção de coisa que eu detestava (feijão, verdura, legumes), misturou tudo com os talheres e disse: “Pense apenas nas coisas que você gosta.” E hoje me orgulho de ser uma pessoa que gosta de comer de tudo. Aos 7 me pegou novamente no colo, me mostrou um personagem de uma novela das oito que agonizava em um hospital, e me disse: “Ele está assim porque usa drogas. E eu não quero que você jamais use drogas.” E jamais usei. Aos 8 ele encontrou uma história que escrevi em sua máquina-de-escrever, e, mesmo sem qualquer pontuação ou acentos, todo orgulhoso, mostrou aos meus tios dizendo que seu filho um dia seria um escritor ou jornalista. E lembrei deste dia quando preenchi o formulário da Comperve com “Comunicação Social - Jornalismo”.

Em 1990 ele me acalmou com um abraço quando Maradona driblou cinco, entregando um gol feito para Caniggia, tirando o Brasil da Copa do Mundo de Futebol. Naquele mesmo ano, quando com 39 graus de febre minha garganta sangrou de tão inflamada, ele esculhambou a médica que preferiu ir à Unimed resolver burocracias a me atender. Ele cresceu ouvindo Roberto Carlos, Dorival Caymmi e Nelson Gonçalves, mas, numa época em que punham em lados distintos a cultura jovem e a adulta, ele se encantou com tudo que cantava Cazuza, e mostrava para os coroas caretas que o acompanhavam e não costumavam dar bola para aquelas coisas “barulhentas”.

Vez em quando me pergunto como teriam sido meus últimos 18 anos se o destino não o tivesse levado embora. Fico imaginando como ele teria reagido ao saber que a primeira canção que aprendi a tocar no violão foi propositalmente “Faz Parte do Meu Show”. Ou como seria a farra que ele faria quando do lançamento do primeiro disco da minha banda. Tenho muita curiosidade em saber o que ele teria a dizer quanto ao fato de eu ter decidido trabalhar em casa, de eu ter aberto uma empresa para trabalhar na legalidade. O que ele teria a dizer desta ruma de bobagem que diariamente escrevo por aqui.

Hoje penso muito mais nele do que há dez anos. Sinto muito mais sua falta. Outro dia desabei no choro por uma bobagem tremenda. Lembrei que costumava deixá-lo me esperando na porta da escola por 10, às vezes 20 minutos, enquanto continuava a jogar bola, mesmo sabendo que o mesmo já havia chegado. Dez minutos de sua companhia que jamais voltarei a ter. Doeu-me muito pensar que não aproveitei da melhor forma possível o pouco tempo que tive ao seu lado.

Hoje, quando o desespero bate, quando as lágrimas vêm, ou até mesmo quando o desespero não bate, quando é algo bom como um diploma, uma vitória, um gol do Botafogo, vez em quando eu olho para céu, que é para onde por bastante tempo eu acreditei que ele tinha ido, e torço para que eu esteja errado, ou seja, para que de fato o céu seja o destino das boas pessoas que deixam a vida, e tento me sentir abraçado por ele. Em retribuição, vez em quando cato um violão e sussuro a melodia de “Marina Morena Marina” porque sei que ele adorava. E penso baixinho, com medo de as pessoas por perto lerem meus pensamentos e me acharem louco: “Cara, este cara era O cara!”

Este cara, hoje, se vivo, faria 60 anos de idade.

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