Deixa eu pensar por onde eu começo.
Este cara certa vez descobriu que um de seus melhores amigos, que trabalhava na empresa a qual ele gerenciava, estava de alguma forma levando vantagem sobre alguns clientes da mesma. Um vantagem que em nada prejudicava a empresa, apenas os compradores de seus produtos. Em um esquema bem feito ao ponto de nenhuma vítima jamais imaginar o que estava acontecendo. Este cara não só demitiu este amigo, como o obrigou a devolver aos clientes da empresa tudo aquilo que lhes fora tomado. Este amigo, por conta da demissão, passou por sérias dificuldades financeiras, visto que era casado e sustentava alguns filhos. Mas este amigo jamais deixou de ser amigo deste cara, e vice-versa.
Esta talvez seja a melhor história que eu conheça deste cara. Porque fala de amizade, justiça e honestidade. Mas não é a única que lembro. Porque este cara aos catorze anos de idade teve o pai assassinado. E junto com sua mãe ajudou a criar oito irmãos mais novos. Junto com os irmãos, humildemente vendeu durante a adolescência tomates na feira. E de vendedor de tomate, passou a ASG de uma multinacional. De ASG, virou motorista. De motorista, tornou-se vendedor. De vendedor, chegou a gerente. De gerente, tornou-se gerente regional. E estamos falando de uma empresa que por muito tempo foi considerada a maior corporação em atividade neste país.
Este cara teve uma infância humilde num bairro humilde de uma cidade humilde de um estado humilde. Mas a humildade jamais foi desculpa para qualquer falha em seus atos. Após 15 anos de primeiro e segundo grau, chegou ao ensino superior e lá batalhou 25 anos por um diploma. Não por incompetência sua, mas porque constantes transferência ocasionadas por seu emprego, a dificuldade existente para transferência acadêmica, e até uma tuberculose que o acamou por dois anos, o impediram de atingir tal glória no tempo esperado. Mas aos 42 anos estava lá, a seis meses de discursar como orador de sua turma de administração, e prometendo que o próximo passo era encarar uma faculdade de direito.
Este cara não era perfeito. Fumou até aproximadamente os trinta, e isso era sim um defeito. Bebia, o que não era problema, mas se garantia em pegar no volante em seguida, o que é lastimável. Mas naquela época a moral era bem menos exigente. Não sei se hoje ele faria o mesmo. E infelizmente preciso usar o futuro do pretérito. Porque este cara certa vez perdeu o trabalho de alguns meses graças a uma falha em seu computador. E precisou refazer tudo em uma semana, o que conseguiu com êxito. Mas isso não o impediu de ter a pressão sangüínea elevada, o que, seis meses antes de conquistar o diploma tão desejado, aos 42 anos de idade, causou-lhe o estouro de veias no cérebro, rendendo-lhe três derrames cerebrais, arrancando-lhe precocemente a vida e deixando órfãos uma esposa e cinco filhos os quais amava profundamente.
Até na hora da morte este cara surpreende. Pessoas que sofrem derrame podem no momento do trágico acontecimento reagir de várias formas distintas. Alguns sofrem convulsões, alguns gritam, alguns simplesmente apagam, alguns choram. Ele, quando já hospitalizado e sofrendo o terceiro AVC, simplesmente cantou. O que nem era uma boa porque ele era deveras desafinado e desritmado. Mas quantos de vocês vão poder se dar ao luxo de morrer cantando?
Foram preciso três funcionários para substituí-lo em seu trabalho porque achavam humanamente impossível uma única pessoal arcar com as responsabilidades que o mesmo arcava. Não só isso: aquele garoto que vendia tomate na feira tornou-se um homem tão previdente que, mesmo depois de morto, garantiu, por intermédio de pensões e propriedades, uma vida digna para a esposa e os cinco filhos.
Sou fã deste cara. Este cara é meu herói. Este cara é meu pai.
Aos 6 anos de idade ele me pegou no colo e disse-me: “Hoje você vai aprender a comer.” Colocou no prato uma porção de coisa que eu detestava (feijão, verdura, legumes), misturou tudo com os talheres e disse: “Pense apenas nas coisas que você gosta.” E hoje me orgulho de ser uma pessoa que gosta de comer de tudo. Aos 7 me pegou novamente no colo, me mostrou um personagem de uma novela das oito que agonizava em um hospital, e me disse: “Ele está assim porque usa drogas. E eu não quero que você jamais use drogas.” E jamais usei. Aos 8 ele encontrou uma história que escrevi em sua máquina-de-escrever, e, mesmo sem qualquer pontuação ou acentos, todo orgulhoso, mostrou aos meus tios dizendo que seu filho um dia seria um escritor ou jornalista. E lembrei deste dia quando preenchi o formulário da Comperve com “Comunicação Social - Jornalismo”.
Em 1990 ele me acalmou com um abraço quando Maradona driblou cinco, entregando um gol feito para Caniggia, tirando o Brasil da Copa do Mundo de Futebol. Naquele mesmo ano, quando com 39 graus de febre minha garganta sangrou de tão inflamada, ele esculhambou a médica que preferiu ir à Unimed resolver burocracias a me atender. Ele cresceu ouvindo Roberto Carlos, Dorival Caymmi e Nelson Gonçalves, mas, numa época em que punham em lados distintos a cultura jovem e a adulta, ele se encantou com tudo que cantava Cazuza, e mostrava para os coroas caretas que o acompanhavam e não costumavam dar bola para aquelas coisas “barulhentas”.
Vez em quando me pergunto como teriam sido meus últimos 18 anos se o destino não o tivesse levado embora. Fico imaginando como ele teria reagido ao saber que a primeira canção que aprendi a tocar no violão foi propositalmente “Faz Parte do Meu Show”. Ou como seria a farra que ele faria quando do lançamento do primeiro disco da minha banda. Tenho muita curiosidade em saber o que ele teria a dizer quanto ao fato de eu ter decidido trabalhar em casa, de eu ter aberto uma empresa para trabalhar na legalidade. O que ele teria a dizer desta ruma de bobagem que diariamente escrevo por aqui.
Hoje penso muito mais nele do que há dez anos. Sinto muito mais sua falta. Outro dia desabei no choro por uma bobagem tremenda. Lembrei que costumava deixá-lo me esperando na porta da escola por 10, às vezes 20 minutos, enquanto continuava a jogar bola, mesmo sabendo que o mesmo já havia chegado. Dez minutos de sua companhia que jamais voltarei a ter. Doeu-me muito pensar que não aproveitei da melhor forma possível o pouco tempo que tive ao seu lado.
Hoje, quando o desespero bate, quando as lágrimas vêm, ou até mesmo quando o desespero não bate, quando é algo bom como um diploma, uma vitória, um gol do Botafogo, vez em quando eu olho para céu, que é para onde por bastante tempo eu acreditei que ele tinha ido, e torço para que eu esteja errado, ou seja, para que de fato o céu seja o destino das boas pessoas que deixam a vida, e tento me sentir abraçado por ele. Em retribuição, vez em quando cato um violão e sussuro a melodia de “Marina Morena Marina” porque sei que ele adorava. E penso baixinho, com medo de as pessoas por perto lerem meus pensamentos e me acharem louco: “Cara, este cara era O cara!”
Este cara, hoje, se vivo, faria 60 anos de idade.
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